Um casamento entre um casal da elite peruana-espanhola superou todos os limites no Peru, um país no qual o racismo e a discriminação estão presentes em todos os cantos. A ligação entre Belén Barnechea, filha de um antigo candidato presidencial peruano, e o aristocrata espanhol Martín Cabello de los Cobos, na cidade de Trujillo, a cerca de 550 quilómetros ao norte da capital Lima, gerou uma onda de indignação no país sul-americano.
Del matrimonio de la hija de Alfredo #Barnechea con el nieto de los condes de Fuenteblanca en #Trujillo podemos aprender una cosa: la diversidad cultural es un valor, en tanto los involucrados interactúen como iguales 1/5 pic.twitter.com/xGzh2goAvI
— CHIRAPAQ (@chirapaqoficial) April 13, 2022
O motivo da indignação chegou com a publicação nas redes sociais de vários segmentos de vídeos do casamento no qual é possível assistir-se a um cenário que envolve a cerimónia e subsequente celebração com personagens, alusivos à época em que o Peru era um vice-reinado da coroa espanhola, por volta do século XVI, que simulavam trabalhos forçados.
Y después nos preguntamos… ¿por qué propuestas tan extremas llegan a segunda vuelta y hasta ganan una elección?
Por pensamientos y hechos tan marcados como los de este grupo de ‘poder’. Alejados de la nueva sociedad. #Barnechea #Barneboda pic.twitter.com/9YiKCgRtgH— GianJesús (@GIANCARLO_ANDIA) April 14, 2022
A notícia ‘mexeu’ com a sociedade peruana na última semana quando o ‘Trome’, o tablóide popular mais lido do país sul-americano, colocou em manchete: “Casamento da nobreza! Filha de Alfredo Barnechea casa-se com o neto do Conde de Espanha em Trujillo.” Mas com o passar das horas, fragmentos de vídeos tornaram-se virais. Na primeira, o casal e os seus convidados caminham por uma rua pedestre no centro de Trujillo como parte de um desfile com música e fogo de artifício: enquanto a noiva movimenta-se com a ajuda de crianças que seguram a cauda do seu vestido, jovens com longas tranças e com vestimentas simples – como se fossem cozinheiros indígenas da época do vice-reinado espanhol – parecem manipular utensílios e cestos de barro. “Que bom!”, ouviu-se de um dos participantes do convite.
Na mesma procissão nupcial há homens de peito à mostra e cobertos por uma espécie de saia e tanga, que caminham amarrados uns aos outros por cordas e escoltados por uma espécie de autoridade do antigo Peru. Noutro dos momentos do casamento, numa mansão com arquitetura colonial ― das várias que existem em Trujillo ―, enquanto os recém-casados e os convidados desfrutam da festa, nas varandas do pátio central alguns jovens vestidos de escravos simulam trabalho forçado amarrado às grades.
Ahí está la derecha bruta y achorada, racista hasta las glándulas…😡😡😡#Barnechea https://t.co/XYJQFDx67E
— KeikoNOVA (@keikonova2016) April 14, 2022
A herança do latifúndio e do trabalho forçado não remunerado, que começou no Peru durante a era colonial, continuou nas chamadas haciendas até ao final da década de 1960, quando o Governo militar de Juan Velasco estabeleceu uma reforma agrária com o lema “A terra pertence a quem o trabalha”. Os elementos que marcaram o casamento no sábado referiam-se a um momento da história em que muitas pessoas careciam de direitos no Peru.
Um grupo de ativistas de igualdade de género e antidiscriminação, ‘Paro Colectiva’, emitiu um comunicado rejeitando o cenário que cercava a festa. “O genocídio, a escravidão e a anulação de nossas culturas não podem ser usados de forma tão indolente e, sobretudo, racista, pretendendo encobri-los sob expressões culturais. O jugo colonial acabou há muito tempo, mas o fascismo, o racismo, o classismo e todas as formas de opressão ainda estão latentes mesmo nos atos mais simples e quotidianos”, denunciaram.













