Carregar o carro elétrico em 30 minutos pode ser cómodo. Mas pode também estar a acelerar o envelhecimento da bateria – quase para o dobro.
É esta a principal conclusão de um estudo da ‘Geotab’, que analisou dados de 22.700 veículos elétricos e 21 modelos diferentes. A investigação mostra que o uso frequente de carregamento rápido acima dos 100 kW aumenta significativamente a perda anual de capacidade da bateria.
Ainda assim, não há motivo para dramatismos: mesmo após oito anos de utilização, as baterias mantêm, em média, mais de 78% da capacidade original.
Segundo a ‘L’Automobile Magazine’, a taxa média de degradação projetada em 2025 é de 2,3% ao ano. Em 2024, situava-se nos 1,8%. A diferença não resulta de pior qualidade das baterias, mas sim de uma mudança nos hábitos: cada vez mais condutores e frotas recorrem ao carregamento rápido em corrente contínua.
Na prática, uma bateria de 60 kWh que desça para 80% de estado de saúde passa a disponibilizar o equivalente a 48 kWh. Trata-se de um processo natural — mas cuja velocidade depende do tipo de utilização.
O limite crítico dos 100 kW
O estudo identifica um ponto de viragem claro: os 100 kW.
Veículos que utilizam carregamento rápido em menos de 12% das sessões registam uma degradação média anual de cerca de 1,5%. Quando esse valor ultrapassa os 12%, a perda sobe para aproximadamente 2,5% ao ano. Nos casos mais intensivos, pode atingir 3% anuais — quase o dobro face a veículos carregados sobretudo em corrente alternada ou a baixa potência.
A explicação está num fenómeno chamado “deposição de lítio”. Quando a carga ocorre a potências muito elevadas, parte do lítio não se integra corretamente no elétrodo e acumula-se sob forma metálica no ânodo, reduzindo progressivamente a capacidade útil.
O efeito verifica-se tanto em baterias de níquel-manganês-cobalto (NMC) como nas de fosfato de ferro-lítio (LFP), embora estas últimas sejam mais resistentes ao stress eletroquímico.
Calor, frio e intensidade de uso
A temperatura é outro fator determinante. Em regiões com médias superiores a 25 °C, a degradação pode aumentar cerca de 0,4% ao ano face a climas temperados. No extremo oposto, carregar rapidamente com temperaturas negativas pode causar danos estruturais permanentes — razão pela qual o pré-condicionamento térmico se tornou essencial nos modelos mais recentes.
O tipo de veículo também pesa. Veículos comerciais ligeiros e furgões, sujeitos a ciclos intensivos, apresentam perdas médias de 2,7% ao ano. Nos automóveis de passageiros, o valor ronda os 2%.
Nem tudo é alarmante
O estudo desmonta ainda um mito frequente: carregar até 100% ocasionalmente não prejudica de forma relevante a bateria. O problema surge quando o veículo permanece durante longos períodos abaixo de 20% ou acima de 80%.
Mesmo os veículos mais utilizados apresentam uma degradação apenas cerca de 0,8% superior aos menos utilizados — uma diferença considerada aceitável face à conveniência do carregamento rápido, sobretudo em viagens longas.
Após oito anos de utilização, a capacidade média mantém-se nos 81,6%. Nos veículos mais expostos ao carregamento rápido, desce para cerca de 78% — ainda acima dos 70% a 75% de estado de saúde normalmente garantidos pelos fabricantes.
Conclusão: o carregamento ultrarrápido não é o vilão do carro elétrico — mas é uma ferramenta que deve ser usada com equilíbrio.




