“Cansada e farta dos interesses instalados”: dezembro pode ser a ‘data limite’ da permanência da ministra da Saúde no Governo

Fragilidade política da ministra é reconhecida dentro e fora do Governo, sobretudo após a sucessão de polémicas ligadas à gestão das urgências, à morte de uma grávida e do bebé no hospital e às críticas internas de vários representantes do setor

Executive Digest
Novembro 4, 2025
10:38

Ana Paula Martins está a prazo, anunciou esta terça-feira o jornal ‘Observador’: Luís Montenegro mantém a confiança mesmo perante o aumento da pressão política e mediática em torno da ministra da Saúde, que atravessa um momento de grande desgaste: no seu círculo mais próximo já admitiu estar “cansada” e “farta dos interesses instalados”, ainda que sem planos imediatos para abandonar o Governo.

A fragilidade política da ministra é reconhecida dentro e fora do Governo, sobretudo após a sucessão de polémicas ligadas à gestão das urgências, à morte de uma grávida e do bebé no hospital e às críticas internas de vários representantes do setor. Ainda assim, fontes sociais-democratas garantem que a sua saída não está em cima da mesa. “Seria não conhecer o primeiro-ministro, nem conhecer Ana Paula Martins”, sublinha um dirigente do PSD.

De acordo com o ‘Observador’, dezembro será o momento-chave para a ministra decidir o futuro. Até lá, pretende concluir o desenho da nova Lei de Bases da Saúde, uma das promessas centrais da legislatura. Nessa altura, com o Orçamento do Estado para 2026 já aprovado, Ana Paula Martins avaliará se mantém condições políticas e pessoais para continuar.

Nos bastidores, fontes do Governo consideram improvável uma remodelação antes do final do ano, argumentando que “ninguém substitui um ministro da Saúde em pleno inverno”. O precedente de Maria Lúcia Amaral, que assumiu a Administração Interna em plena época de incêndios, é apontado como exemplo a evitar.

Uma ministra sob fogo e com inimigos instalados

Ana Paula Martins sente-se cada vez mais isolada no Ministério da Saúde. “Está farta disto, muito cansada e mal tem tempo para trabalhar nas reformas”, reconhece uma fonte próxima. A ministra acredita ter-se tornado alvo desde que começou a enfrentar os “interesses instalados” do setor, em particular as empresas que contratam médicos tarefeiros.

No Orçamento do Estado, o Governo prevê poupar 29 milhões de euros com esses profissionais, introduzindo novas regras de remuneração e incompatibilidades. A meta de reduzir 208 milhões de euros nas compras de medicamentos e material clínico promete gerar ainda mais resistência no sistema.

A criação das urgências regionais e a concentração de médicos obstetras no Hospital Garcia de Orta também provocaram fortes críticas. As associações sindicais falam em “mobilização coerciva” e “sinais negativos” para quem permanece no Serviço Nacional de Saúde.

Montenegro não cede às pressões

O primeiro-ministro reafirmou há poucos dias que não tenciona dispensar a ministra. “Se não tivesse condições, não estava no Governo”, declarou Luís Montenegro, recusando ceder à pressão da oposição e dos comentadores. O líder social-democrata é descrito por aliados como alguém que “não gere saídas e entradas de ministros com base no ruído mediático”.

No entanto, o caso recente da morte de uma grávida e do bebé agravou o desgaste da ministra, sobretudo depois de ter usado no Parlamento informação incorreta transmitida pela Unidade Local de Saúde de Amadora-Sintra, cujo presidente acabou por se demitir. A Inspeção-Geral das Atividades em Saúde abriu entretanto um inquérito ao caso do helicóptero do INEM inoperacional no Algarve, acrescentando mais pressão à governante.

Mesmo assim, Ana Paula Martins continua a ser vista como “uma mulher de armas” por Montenegro, que já a tinha elogiado publicamente durante a campanha eleitoral como “resistente, competente e humana”. “Em 90% dos casos tem sido o pára-raios deste Governo. Não será remodelada. Se sair, é porque pediu para sair”, resume uma fonte próxima.

No Governo, há consciência de que a ministra se tornou uma figura polarizadora. E, como recorda o ‘Observador’, quando um governante se transforma em foco de “ruído permanente”, o tempo político começa a contar.

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