A Bulgária inicia o ano com uma mudança histórica: a adoção do euro, substituindo o lev como moeda nacional. Com esta decisão, o país torna-se o 21.º Estado-membro da zona euro, marcando o arranque de um novo capítulo na integração europeia, apesar das divisões sociais e políticas que marcaram os últimos meses.
A partir de hoje, os cidadãos búlgaros passam a poder utilizar o euro em todas as transações no país e em viagens para países como a Grécia, um dos principais destinos turísticos. Por outro lado, os cerca de 30 mil portugueses que visitam anualmente a Bulgária podem agora viajar sem ter de fazer câmbio de moeda.
A entrada na zona euro ocorre num país profundamente dividido. Inquéritos realizados ao longo de 2025 indicaram que cerca de 57% dos búlgaros eram contra a adoção do euro, enquanto apenas entre 25% e 26% se mostravam favoráveis. Apesar do impacto nacional, não houve referendo, seguindo o mesmo modelo de outros onze Estados-membros, incluindo Portugal. Muitos consideram, porém, que uma consulta popular teria sido necessária, à semelhança da Dinamarca e da Suécia, onde o “não” venceu, ou dos referendos sobre o Tratado de Maastricht em França e Irlanda.
Entre os que apoiam a medida, destacam-se vantagens como facilidade de viajar, simplificação de transações e maior integração europeia. Além da integração, espera-se que a adoção da moeda única fortaleça a economia e promova estabilidade monetária.
Entre os que se opõem, persistem medos de arredondamentos de preços e aumento do custo de vida, assim como a preocupação de perda de soberania monetária. Muitos receiam que os benefícios não cheguem de forma equitativa a todo o país, sobretudo às regiões rurais e cidadãos com menores rendimentos.
O primeiro dia de 2026 coincide com uma crise política que se arrasta desde 2024. O antigo primeiro-ministro Rosen Zhelyazkov, à frente de uma coligação minoritária liderada pelo partido de centro-direita GERB, demitiu-se após semanas de protestos contra a sua política económica, o orçamento nacional e a corrupção generalizada.
Segundo Zhelyazkov, “os protestos foram contra a arrogância e a presunção; não se trata de um protesto social, mas sim de um protesto por valores”. Para Asen Vassilev, líder do partido de oposição Continuamos a Mudança, a renúncia é “o primeiro passo para que a Bulgária se torne um país europeu normal”, com a expectativa de eleições justas e livres no país.
O presidente Rumen Radev apelou publicamente à participação da sociedade: “Entre a voz do povo e o medo da máfia, ouçam as praças públicas.”
Apesar da instabilidade, a Comissão Europeia confirmou no Relatório de Convergência de 2025 que a Bulgária cumpre os critérios técnicos para adotar o euro em 2026, incluindo estabilidade de preços, finanças públicas equilibradas e regimes cambiais compatíveis. Esta avaliação foi aprovada pelo Parlamento Europeu, com 531 votos a favor, 69 contra e 79 abstenções, abrindo oficialmente a porta para a entrada do país na moeda única.














