A descida das taxas de juro associadas à Euribor chegou ao fim e o início de 2026 marca uma fase crítica para o crédito à habitação em Portugal, com uma tendência para ligeiros agravamentos, sobretudo durante o primeiro semestre, num contexto internacional marcado pela incerteza. A análise é de Nuno Rico, especialista da DECO PROteste, que falou em exclusivo à Executive Digest sobre a evolução esperada das taxas e deixou vários alertas às famílias portuguesas.
“O ciclo de descida das taxas de juro, que se iniciou no início de 2024, terminou”, afirma Nuno Rico, sublinhando que já se observa um ponto de inflexão claro. “Aliás, como se está a notar, as prestações já voltaram a subir.”
Apesar do cenário, o especialista tranquiliza: “Para já, nada perspetiva uma subida muito acentuada das taxas de juro. Esse cenário não está em cima da mesa.”
A evolução da Euribor está, segundo Nuno Rico, fortemente condicionada pelo contexto internacional. “A única certeza que tivemos ao longo de 2025 foi a incerteza”, afirma, apontando conflitos militares, tensões geopolíticas e a política económica americana como fatores determinantes.
O especialista destaca ainda a situação na Ucrânia e a política dos Estados Unidos sob o mandato de Donald Trump: “Continua-se a depositar muita esperança na resolução do conflito na Ucrânia, mas sabemos o quão imprevisível é esse processo. A política americana tem sido errática e tem impacto direto nas economias mundiais.”
Para 2026, o cenário mantém-se incerto: “Estamos a fechar o ano e, olhando para o início de 2026, não há qualquer indicador que nos diga que este contexto de incerteza vá desaparecer.” Ainda assim, Nuno Rico prevê uma evolução contida: “Tudo aponta para uma estabilização, ainda com uma subida ligeira, pelo menos até ao final do primeiro semestre.”
No plano interno, o especialista da DECO PROteste deixa um alerta direto às famílias: “Esta é a altura indicada para olhar para as condições do crédito”, reforçando que adiar decisões pode sair caro.
“Não é depois da casa roubada que se trancam as portas”, alerta. “Não é quando o mercado está em alta que vamos à procura de soluções para reduzir a fatura do crédito, porque aí as soluções que encontramos, mesmo que pareçam mais baratas, continuam a ser caras.”
Apesar do fim da isenção das comissões de amortização antecipada, Nuno Rico defende que ainda há margem de manobra: “Mesmo assim, quem tiver essa disponibilidade deve olhar para a possibilidade de amortizar e reduzir a exposição à dívida, aproveitando as poupanças acumuladas nos últimos anos.”
Outro ponto de atenção prende-se com o valor dos novos créditos à habitação: “Os dados mostram que os novos contratos têm valores médios cerca de 120% superiores à média do total dos contratos”, alerta Nuno Rico.
Este cenário afeta sobretudo os mais jovens, muitos deles a recorrer à garantia pública: “Estamos a falar de pessoas com rendimentos mais instáveis e com créditos de montantes muito elevados.”
O especialista explica o impacto de pequenas variações nas taxas: “Num crédito de cerca de 200 mil euros, uma subida de 1% na taxa de juro significa mais de 100 euros por mês na prestação. E quando muitas famílias já estão a contratar perto do limite da taxa de esforço, qualquer variação, mesmo pequena, pode ter impactos muito relevantes nos orçamentos.”
Para Nuno Rico, esta exposição elevada constitui um dos principais riscos para o próximo ano: “Para já não vemos uma subida forte dos juros, mas este contexto pode alterar-se rapidamente. E é isso que mais nos preocupa para 2026.”














