Bill Gates recua na previsão das alterações climáticas: o que realmente pode acabar com a humanidade

Bill Gates recuou nas previsões mais sombrias sobre as alterações climáticas

Francisco Laranjeira
Novembro 2, 2025
10:00

Bill Gates recuou nas previsões mais sombrias sobre as alterações climáticas. Depois de investir grande parte da sua fortuna — avaliada em cerca de 122 mil milhões de dólares — na luta contra o aquecimento global, o fundador da Microsoft afirmou agora que “as alterações climáticas não levarão ao fim da humanidade”, defendendo que os líderes mundiais devem concentrar-se em ameaças mais urgentes.

De acordo com o tabloide ‘Daily Mail’, o magnata partilhou esta visão numa carta aberta divulgada antes da COP30, no Brasil, argumentando que a chamada “visão apocalíptica” é exagerada. “As pessoas poderão viver e prosperar na maioria dos lugares da Terra num futuro próximo”, escreveu Gates, reconhecendo, porém, que os mais pobres continuarão a ser os mais afetados.

Contudo, especialistas em riscos existenciais discordam da ideia de que a humanidade esteja segura. Rhys Crilley, da Universidade de Glasgow, alerta que a guerra nuclear continua a ser a ameaça mais grave à sobrevivência humana, capaz de “acabar com a civilização em poucas horas”. Segundo o investigador, as tensões entre potências com armas atómicas estão a aumentar, e o uso desse tipo de armamento “já não é uma perspetiva tão distante”.

Estudos recentes sugerem que uma troca nuclear limitada, envolvendo apenas 100 ogivas, poderia mergulhar o planeta num “inverno nuclear”, bloqueando a luz solar durante anos e reduzindo as temperaturas globais em até 10°C. O colapso das colheitas e da cadeia alimentar resultaria, segundo os investigadores, na morte de cerca de dois mil milhões de pessoas por inanição nos dois primeiros anos.

Além da ameaça nuclear, os cientistas apontam as armas biológicas desenvolvidas em laboratório como outro risco crescente. Desde a criação das primeiras bactérias geneticamente modificadas, em 1973, a biotecnologia avançou a um ponto em que vírus e microrganismos letais podem ser facilmente replicados ou manipulados. O risco é agravado pela inteligência artificial, que facilita o design de agentes patogénicos altamente eficazes.

O Daily Mail cita o investigador Otto Barten, do Observatório de Risco Existencial, que alerta: “A democratização da biotecnologia pode levar alguém a tentar — e conseguir — criar uma pandemia que cause a extinção completa da espécie humana.”

Apesar de minimizar o impacto das alterações climáticas, Gates não está totalmente errado, afirmam outros especialistas. SJ Beard, da Universidade de Cambridge, explica que as alterações climáticas funcionam como um multiplicador de riscos, aumentando a probabilidade de guerras, crises alimentares ou pandemias. “Podem não matar toda a população diretamente, mas agravam as tensões geopolíticas e provocam instabilidade global”, sublinha.

O chamado Relógio do Juízo Final, criado por cientistas envolvidos no Projeto Manhattan, continua a simbolizar o perigo da destruição global. Em 2024, o relógio foi ajustado para 90 segundos da meia-noite, o ponto mais próximo da catástrofe desde a sua criação em 1947 — refletindo precisamente o agravamento simultâneo das ameaças nucleares, biotecnológicas e climáticas.

No fim de contas, se as alterações climáticas não condenarem a humanidade, a autodestruição poderá fazê-lo primeiro.

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