Azul acusa gestão da TAP de plano deliberado para provocar insolvência e evitar dívida milionária

A companhia aérea Azul acusa todos os antigos gestores da TAP, S.G.P.S. de terem orquestrado um plano de insolvência culposa para evitar o pagamento de uma dívida de 182 milhões de euros.

Executive Digest
Novembro 4, 2025
6:38

A companhia aérea Azul, fundada por David Neeleman, acusa todos os antigos gestores da TAP, S.G.P.S. de estarem envolvidos num plano intencional de insolvência culposa. De acordo com a CNN Portugal, a empresa brasileira considera que existiu um “plano arquitetado” para delapidar o património da holding e impedir o pagamento de 182 milhões de euros, relativos ao empréstimo obrigacionista de 2016.

A queixa, entregue no Juízo de Comércio de Lisboa, tem mais de 100 páginas e 426 pontos. Segundo o documento, a insolvência da TAP, S.G.P.S. foi “premeditada e artificiosamente construída”, com a ajuda de vários intervenientes, e está provada através de atas da administração e documentos até agora sigilosos.

O papel do Estado e o início do conflito

O conflito entre a TAP e a Azul começou em 2016, quando a empresa brasileira investiu 90 milhões de euros num empréstimo obrigacionista, complementado por 30 milhões do Estado português através da Parpública. O acordo previa juros e eventual conversão em ações especiais, mas a Azul alega que o contrato foi desrespeitado nos anos seguintes.

Durante a pandemia de 2020, o Estado português injetou 1,2 mil milhões de euros na TAP, S.A., operação autorizada por Bruxelas. A Azul afirma, contudo, que esta intervenção violou compromissos anteriores que impediam a alienação de ativos da TAP, S.G.P.S. sem a sua aprovação. Segundo a CNN Portugal, essa operação marcou o início do processo que levaria à perda do controlo acionista da holding sobre a companhia aérea.

As atas que sustentam a acusação

As atas internas da administração da TAP, S.G.P.S., agora anexadas ao processo, mostram que vários administradores alertaram para o risco de as decisões violarem os direitos dos acionistas minoritários.
Em maio de 2021, o CFO Gonçalo Pires reconheceu que seria necessário retomar negociações com a Azul sobre as garantias do empréstimo obrigacionista. O administrador Manuel Silva Rodrigues avisou, em declaração de voto, que o aumento de capital com fundos do Estado era “prematuro” e poderia ter consequências graves para a S.G.P.S..

Apesar dos alertas, o conselho de administração aprovou o aumento de capital de 462 milhões de euros, o que reduziu a participação da TAP, S.G.P.S. na TAP, S.A. para apenas 8,2%. A queixa da Azul considera esta decisão o “gatilho económico” que precipitou a insolvência da holding.

A perda dos ativos e a manutenção artificial da S.G.P.S.

Depois de 2021, a TAP, S.G.P.S. perdeu progressivamente todos os seus ativos relevantes. Entre 2022 e 2025, as participações na Portugália, Cateringpor e U.C.S. foram transferidas para a TAP, S.A., muitas vezes sem qualquer compensação.
O contrato de venda da Portugália, assinado a 8 de novembro de 2024, terá rendido 4,5 milhões de euros, mas, segundo a Azul, não foi aprovado pelo Conselho de Administração.

Paralelamente, a S.G.P.S. continuou a receber empréstimos da TAP, S.A., apesar de já estar tecnicamente insolvente. A Azul sustenta que esta relação manteve a holding “artificialmente viva” apenas para executar um plano de “desnatação total do património”.

Entre 2021 e 2025, a S.G.P.S. ainda injetou mais de 500 milhões de euros na TAP Manutenção & Engenharia Brasil, operação que a queixa classifica como ruinosas e lesiva. As atas indicam que o próprio plano de reestruturação previa que parte das contingências do Brasil fosse paga pela TAP, S.A., embora esse compromisso tenha sido posteriormente revogado.

O processo de insolvência e as possíveis consequências

A queixa de insolvência culposa entregue pela Azul conclui que a TAP, S.G.P.S. perdeu os seus ativos “de forma intencional” e apenas apresentou insolvência quando tudo já estava consumado. A empresa afirma que os únicos beneficiários foram a TAP, S.A. e o Estado português, agora único acionista do grupo.

A Azul pede ao tribunal o pagamento de 182 milhões de euros mais juros, num processo em que a TAP, S.G.P.S. apresenta dívidas superiores a 1,7 mil milhões de euros, das quais 1,1 mil milhões reclamadas pela própria TAP, S.A.

A companhia brasileira considera responsáveis todos os administradores da TAP, S.G.P.S. que exerceram funções entre maio de 2021 e a declaração de insolvência. Caso sejam condenados, os gestores poderão ter de responder com o seu património pessoal, e os factos podem ter implicações criminais.

Contactada pela CNN Portugal, a TAP afirmou que não comenta processos em curso.

Linha temporal do caso TAP–Azul

2012 a 2015 – As dificuldades financeiras da TAP, S.G.P.S.

  • A TAP, S.G.P.S. começa a enfrentar sérios problemas financeiros.

  • É financiada principalmente pela TAP, S.A., através de empréstimos sucessivos que em 2015 já ultrapassavam 800 milhões de euros.

  • A capacidade de gerar liquidez estava concentrada na TAP, S.A., não na holding.

2016 – O investimento da Azul

  • A Azul, companhia aérea brasileira de David Neeleman, concede um empréstimo obrigacionista de 90 milhões de euros à TAP, S.G.P.S.

  • O Estado português, através da Parpública, junta-se com 30 milhões de euros, totalizando 120 milhões.

  • O acordo previa juros, possibilidade de conversão em ações e pagamento diferido, mas estabelecia limites à alienação de ativos.

2020 – Intervenção do Estado durante a pandemia

  • A Comissão Europeia autoriza o Estado português a conceder 1,2 mil milhões de euros à TAP, S.A., e não à S.G.P.S..

  • Para viabilizar o empréstimo, a TAP, S.G.P.S. tem de penhorar as ações que detinha na TAP, S.A. e na Portugália.

  • A Azul alega que a operação violou os contratos de 2016, que proibiam alienar ativos sem o seu consentimento.

2021 – Aumento de capital e início do alegado “plano”

  • Em maio de 2021, o Estado português concede um novo empréstimo de 462 milhões de euros à TAP, S.A., convertido em capital social.

  • A TAP, S.G.P.S. vê a sua participação na TAP, S.A. reduzida para 8,2%.

  • O CFO Gonçalo Pires reconhece a necessidade de renegociar com a Azul o pacote de garantias previsto nos contratos originais.

  • O administrador Manuel Silva Rodrigues alerta que o aumento de capital é “prematuro” e pode afetar a S.G.P.S..

  • A S.G.P.S. acaba por abdicar da sua posição acionista na TAP, S.A., perdendo o seu principal ativo.

  • A Azul considera este o gatilho da insolvência.

  • Ainda em dezembro, atas internas mencionam que seria “necessário que a TAP, S.G.P.S. fosse declarada insolvente a médio prazo (2025–2026)”.

2022 – Agravamento da dívida

  • A TAP, S.G.P.S. continua a contrair empréstimos junto da TAP, S.A., acumulando dívidas superiores a mil milhões de euros.

  • Apesar de não cumprir o reembolso previsto para dezembro de 2022, a TAP, S.A. não exige o pagamento.

  • As atas do Conselho de Administração de 2023 indicam que “não existiam dívidas vencidas”, apesar dos montantes em falta.

2023 – Continuação das operações e prorrogação de empréstimos

  • O contrato de empréstimo é renovado retroativamente, prorrogando o prazo de reembolso.

  • A Azul acusa a TAP, S.G.P.S. de se manter artificialmente ativa apenas para concluir o plano de “desnatação total do património”.

  • A companhia brasileira reclama oficialmente 182 milhões de euros e acusa os gestores de gestão dolosa.

2024 – Transferência de ativos

  • A S.G.P.S. transfere para a TAP, S.A. as suas últimas participações, incluindo na Cateringpor, U.C.S. e Portugália.

  • O contrato da Portugália, assinado em 8 de novembro de 2024, fixa o valor em 4,5 milhões de euros, mas não terá sido aprovado pelo Conselho de Administração.

  • Estas operações, segundo a Azul, beneficiaram exclusivamente a TAP, S.A. e o Estado português.

2025 – Declaração de insolvência e processo em tribunal

  • A TAP, S.G.P.S. é oficialmente declarada insolvente no Juízo de Comércio de Lisboa.

  • A Azul acusa todos os administradores entre 2021 e 2025 de terem participado num plano para defraudar credores.

  • O processo de insolvência culposa prossegue, podendo implicar responsabilidade pessoal e criminal para os ex-gestores.

  • Contactada pela CNN Portugal, a TAP afirmou não comentar processos em curso.

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