Dois aviões de reconhecimento das forças armadas dos Estados Unidos e do Reino Unido executaram, na segunda-feira, uma operação aérea simultânea que envolveu a aproximação ao território russo por dois flancos distintos — uma manobra que, apesar de não ter violado o espaço aéreo russo, reforça a crescente tensão entre Moscovo e a NATO.
De acordo com dados do Flightradar24 analisados pela Newsweek, um RC-135W da Royal Air Force (RAF) e um RC-135V da Força Aérea dos EUA (USAF) descolaram de bases britânicas e seguiram trajetos cuidadosamente planeados que os levaram a vigiar de perto regiões sensíveis para a Rússia: a cidade portuária ártica de Murmansque e o exclave de Kaliningrado.
O aparelho britânico, um RC-135W Rivet Joint, partiu da base da RAF em Waddington, no condado de Lincolnshire, pelas 08h11 (hora local). O voo seguiu rumo ao norte, sobrevoando o espaço aéreo de Noruega, Suécia e Finlândia, antes de virar para sudeste em direção ao mar de Barents, numa rota quase paralela à cidade russa de Murmansque — uma importante base naval russa no Árctico. A aeronave regressou posteriormente ao Reino Unido, pousando em Waddington às 18h38.
No mesmo dia, o RC-135V Rivet Joint da USAF, identificado pelo indicativo “JAKE17”, descolou às 07h08 da base de Mildenhall, em Suffolk. O avião atravessou os céus dos Países Baixos, Alemanha, Polónia e Lituânia antes de começar a circular em torno de Kaliningrado — a fortemente militarizada região russa entre a Polónia e a Lituânia que é considerada um ponto nevrálgico em qualquer cenário de conflito com a NATO.
Ambas as aeronaves são plataformas de recolha de inteligência de sinais (SIGINT), com capacidade para detetar comunicações, radares e outras emissões eletrónicas. Cada voo destes aviões é operado por mais de 30 tripulantes, incluindo especialistas em guerra eletrónica e operadores de inteligência.
A operação conjunta surge numa fase de forte deterioração nas relações entre Moscovo e os aliados da NATO, marcada por repetidas incursões de caças russos junto ao espaço aéreo da aliança e por compromissos renovados do Ocidente no apoio militar à Ucrânia. O ministro da Defesa russo já havia alertado para o “aumento de provocações aéreas” por parte da NATO, embora nenhuma violação de espaço aéreo tenha sido confirmada nesta operação em específico.
De acordo com Olli Suorsa, professor assistente em segurança interna na Rabdan Academy, nos Emirados Árabes Unidos, a frota de RC-135 dos EUA tem estado sob enorme pressão devido à procura simultânea de missões de inteligência na fronteira EUA-México, no leste asiático, na Europa Oriental e no Médio Oriente. “A procura tem excedido claramente a capacidade operacional da frota”, disse em declarações anteriores à Newsweek.
O Reino Unido, por sua vez, tem intensificado o uso das suas aeronaves Rivet Joint, com operações regulares ao longo do flanco oriental da NATO, incluindo patrulhas sobre o mar Negro e manobras em torno de Kaliningrado. No final de junho, uma dessas missões incluiu também a vigilância da costa do mar Negro após um sobrevoo próximo do exclave russo.
A movimentação dos dois aviões foi acompanhada por analistas de segurança online. O utilizador “@MeNMyRC1” comentou na rede social X (antigo Twitter), ao partilhar o mapa do voo britânico: “Até ao mar de Barents. Esta área costumava receber muito mais atenção quando a União Soviética ainda tinha marinha e força aérea.”
Apesar da natureza rotineira destas missões de vigilância no contexto da NATO, a sua frequência e coordenação recente têm aumentado o receio de que incidentes acidentais possam escalar rapidamente. O corredor aéreo do norte da Europa, por onde circulam estas aeronaves, é já apelidado de “lago da NATO” por analistas ocidentais, dada a sua intensa atividade militar e vigilância partilhada.













