Adeus aos vinhos europeus: sanções obrigam russos a consumir apenas produção local

As sanções económicas impostas pelos países ocidentais à Rússia após a invasão da Ucrânia provocaram uma transformação profunda nos hábitos de consumo dos cidadãos russos. O impacto é especialmente visível no setor vinícola, onde as tradicionais garrafas de origem francesa e italiana deram lugar a rótulos nacionais, agora dominantes nas prateleiras dos supermercados.

Pedro Gonçalves
Novembro 7, 2025
15:52

As sanções económicas impostas pelos países ocidentais à Rússia após a invasão da Ucrânia provocaram uma transformação profunda nos hábitos de consumo dos cidadãos russos. O impacto é especialmente visível no setor vinícola, onde as tradicionais garrafas de origem francesa e italiana deram lugar a rótulos nacionais, agora dominantes nas prateleiras dos supermercados.

De acordo com dados citados pela Reuters, os vinhos russos passaram a representar cerca de 60% do mercado interno, um crescimento expressivo face aos 25% registados há dez anos. A subida reflete tanto o aumento dos preços e da escassez de vinhos importados, quanto a modernização da indústria vinícola russa.

O presidente do comité de vitivinicultura da Federação de Restauradores e Hoteleiros, Yury Yudich, destacou que “o vinho russo conquistou uma fatia muito elevada do mercado nacional”, sublinhando que o fenómeno resulta não apenas do aumento das taxas sobre produtos de “países hostis”, mas também de “um esforço sustentado de investimento e modernização da produção local”.

Segundo Yudich, “gradualmente, o mercado começou a mudar e os preços dos vinhos começaram a subir”. Estima-se que os vinhos importados tenham encarecido entre 30% e 40%, o que levou muitos consumidores a “tentar habituar-se ao sabor dos vinhos locais”, explicou.

O presidente russo, Vladimir Putin, tem reiterado que as sanções impostas pelos países ocidentais são “ilegais e injustificadas”, elogiando simultaneamente a capacidade de resistência da economia russa. O chefe de Estado tem encorajado empresas e cidadãos a apostar na produção nacional como forma de mitigar os efeitos das restrições externas.

Esta reorientação também é visível na viticultura. A região do Mar Negro, historicamente ligada à produção de uvas, tornou-se o epicentro do novo boom vinícola russo. Após décadas de declínio marcadas por revoluções, guerras civis e pelas campanhas antiálcool soviéticas — particularmente sob Mikhail Gorbatchov em 1985 —, o setor renasceu com investimentos privados e tecnologia moderna.

Empresários adquiriram terrenos, replantaram vinhas e recorreram a enólogos estrangeiros, especialmente de França e Itália, para elevar os padrões de qualidade.

O renascimento do vinho russo
Um dos exemplos mais emblemáticos desta revitalização é a adega Côte Rocheuse, localizada nas proximidades do Mar Negro. A diretora de produção e vitivinicultora-chefe, Irina Yakovenko, revelou que a empresa iniciou a comercialização em 2022 e tem registado “um aumento constante das vendas”, apesar de manter uma produção limitada a 500 mil garrafas por ano.

As vinhas da Côte Rocheuse produzem castas europeias tradicionais — como Merlot, Cabernet Sauvignon, Pinot Noir e Chardonnay —, mas também exploram variedades autóctones, como a Krasnostop Zolotovsky, originária da região de Rostov.

Apesar de recorrer a equipamentos franceses e italianos, Yakovenko afirma que os vinhos da casa “possuem uma identidade marcadamente russa”, refletindo as particularidades do solo e do clima locais.

Esse sentimento de orgulho nacional é partilhado pelos consumidores. Durante uma visita à adega, Galina Romanova, uma turista russa, declarou: “Quero que os nossos filhos vejam isto, para que não comprem vinhos italianos ou alemães, mas sim os nossos. Os nossos vinhos são os melhores”.

Desde 2014, a Rússia foi alvo de mais de 25 mil sanções internacionais, o que levou o país a procurar reforçar a autossuficiência em vários setores. No caso da indústria vinícola, as restrições acabaram por catalisar o crescimento de uma nova geração de produtores e consumidores nacionais, movidos tanto pela necessidade económica quanto por um patriotismo renovado.

O resultado é uma transformação que vai além do mercado do vinho: simboliza a tentativa da Rússia de se reinventar economicamente e afirmar uma nova identidade produtiva num contexto global de isolamento político e comercial.

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