A promessa não cumprida? Economia britânica ainda sofre com as consequências do Brexit

Passados cinco anos desde a concretização do Brexit, a economia do Reino Unido continua a enfrentar dificuldades, sem os tão aguardados benefícios económicos. Apesar da promessa de maior autonomia para negociar acordos comerciais, o volume de comércio externo britânico permanece reduzido, enquanto os principais setores sofrem com aumento de custos, burocracia e escassez de mão de obra.

André Manuel Mendes
Março 11, 2025
17:37

Passados cinco anos desde a concretização do Brexit, a economia do Reino Unido continua a enfrentar dificuldades, sem os tão aguardados benefícios económicos. Apesar da promessa de maior autonomia para negociar acordos comerciais, o volume de comércio externo britânico permanece reduzido, enquanto os principais setores sofrem com aumento de custos, burocracia e escassez de mão de obra.

Segundo um estudo da Atradius, o comércio de bens do Reino Unido situa-se em 88% dos níveis registados antes do Brexit, e as exportações estão a 82%. “As perspetivas comerciais continuam sombrias para o Reino Unido cinco anos após a saída da União Europeia. O comércio total não recuperou para os níveis anteriores ao Brexit e o desempenho das exportações britânicas é ainda mais dececionante do que o das importações”, explica Dana Bodnar, economista da Atradius.

Embora o ambiente económico do Reino Unido não seja catastrófico, o crescimento previsto para 2025 continua abaixo da taxa média anual de 2% registada antes de 2020. A adesão ao Acordo Transpacífico de Cooperação Económica (TPP) pode trazer benefícios a longo prazo, especialmente se a China concretizar o seu pedido de adesão. No entanto, acordos comerciais com Austrália e Nova Zelândia têm impacto limitado, e as negociações com os EUA estão estagnadas. “O Reino Unido tem agora 70 acordos comerciais em vigor. Mas a grande maioria deles são essencialmente acordos de extensão, honrando os termos comerciais dos acordos existentes da União Europeia com países terceiros”, acrescenta Bodnar.

Setores como aeroespacial, energias renováveis, media e papel apresentam crescimento promissor, mas ferro, aço, logística e construção enfrentam incertezas. A agricultura é uma das áreas mais afetadas pela escassez de mão de obra, enquanto a indústria automóvel conseguiu evitar, por agora, tarifas sobre veículos elétricos. “A adição de tarifas de 10% sobre veículos elétricos fabricados na União Europeia e no Reino Unido ameaçou comprometer a eletrificação do setor automóvel europeu num momento crucial, em que enfrenta uma série de desafios, incluindo o aumento da concorrência dos fabricantes chineses”, explica o analista de risco sénior do Reino Unido para o setor de transportes, Nicola Harris.

O setor químico também enfrenta desafios, uma vez que exporta dois terços da sua produção para a Europa e tem de lidar com regulações mais complexas. “Isso está a afetar cada vez mais o investimento no setor petroquímico, à medida que as empresas navegam pelas incertezas e custos associados ao regime. A longo prazo, também esperamos uma escassez de mão de obra qualificada”, diz Sarah Evans, analista de risco sénior do Reino Unido para o setor químico.

Os defensores do Brexit acreditam que as dificuldades serão superadas com o tempo, mas cinco anos depois, os desafios económicos persistem e os tão aguardados benefícios ainda não se materializaram.

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