Por Teresa Santos Silva, Subdiretora Adjunta para a Inovação Pedagógica da NOVA FCT
A educação é um jogo de aprender e ensinar que se joga ao longo de toda a vida. É aceitar o desafio de crescer, de ir mais longe, de largar amarras e, ainda que por breves momentos, trocar a segurança do conhecido pelo risco do novo. Este movimento, simultaneamente interior e exterior, exige confiança: dispomo-nos a aprender quando acreditamos que esse conhecimento nos fará evoluir.
Ainda assim, quantas vezes recusamos aprender ou rejeitamos a possibilidade de existirem outros caminhos? Muitas vezes, porque somos confrontados com a nossa ignorância, com fragilidades ou com medos. Entre eles, o medo de errar destaca-se como um dos bloqueios mais profundos ao crescimento. Paralisa-nos ou leva-nos a fugir e é também um dos obstáculos mais frequentes na sala de aula. Como podem os alunos arriscar explorar novas perspetivas se o erro é mais valorizado do que o processo? Como vão querer aprender se não acreditam que os conteúdos os levarão mais longe? E como dão voz à curiosidade quando encontram julgamento em vez de escuta? Se, nestas condições, já é difícil adquirir conhecimento, mais exigente se torna permitir que a aprendizagem toque as competências, os valores e as atitudes.
A tecnologia digital e a inteligência artificial impuseram-se numa sociedade e numa educação já marcadas por fragilidades, onde professores e alunos navegam num mar de dúvidas. Queremos confiar nas estruturas que nos rodeiam, mas nem sempre sabemos em quem ou no que confiar. A pergunta repete-se: “isto é real ou é obra de IA?”
Todos os intervenientes no ecossistema educativo — professores, estudantes, instituições e comunidade — enfrentam o desconforto deste novo desconhecido. Para além da perda de confiança, surge um risco ainda maior: a perda da apropriação do próprio conhecimento. “Eu não sei, mas a IA sabe e faz por mim.” E quando a informação não se transforma em conhecimento interiorizado, como podemos decidir de forma consciente? Instala-se então o pensamento acrítico: “não faço ideia, mas se a IA diz, deve estar bem”.
Se, para os alunos, esta pode parecer a resposta ingénua a muitas preces, para os professores representa o desinstalar: a necessidade de se adaptar ao diferente, a aridez da mudança, numa sociedade hiperativa e impiedosa para com a falha. No entanto, o maior perigo não está em mudar, mas em ser engolido pela própria mudança. Nessa altura, a proatividade para identificar desafios e a criatividade para descobrir soluções perdem-se e deixa de haver escolha: age-se por imposição.
A grande oportunidade trazida pela inteligência artificial foi tornar evidente a urgência de transformar a educação. Segundo os mais otimistas, essa transformação pode ser profundamente positiva. Pela primeira vez, professores e alunos encontram-se em condições semelhantes: todos temos de aprender a tirar proveito da IA, mitigando os seus riscos, para que, com ética, possamos construir o futuro.
A inteligência artificial generativa tem a capacidade de processar informação e aprender a partir de dados em múltiplas áreas, não estando confinada a um único domínio. Além disso, pode operar de forma orientada por objetivos, o que lhe permite apoiar tarefas estratégicas e de planeamento. Para a educação, estas características são estruturantes.
Com a colaboração de um agente de IA, o professor pode analisar padrões de aprendizagem individuais — o que motiva cada estudante, quais as suas necessidades, como aprende, o que já sabe e onde persistem lacunas — e, a partir daí, conceber experiências de ensino e aprendizagem mais ajustadas a cada percurso.
Também a avaliação pode ser repensada, afastando-se da memorização e aproximando-se da capacidade de problematizar e resolver problemas, relacionar conceitos, criar conteúdos, refletir e aplicar o conhecimento em contextos reais. Trata-se de competências que reconhecemos como cruciais, mas que nem sempre são desenvolvidas e, menos ainda, avaliadas.
O mesmo agente de IA pode ainda apoiar o professor no desenho de estratégias pedagógicas adequadas ao seu contexto e perfil, seja através de modelos interativos de aprendizagem entre pares, seja recorrendo a uma exposição oral inspiradora — quem sabe, digna de Óscar.
Como afirma a diretora e professora chilena Militza Saavedra Montero, “os professores não são programáveis porque nem o propósito, nem a vocação, nem o compromisso de educar se podem codificar”. Educar é mais do que transmitir conceitos: é transformar vidas. E, como em qualquer fase de transição, cada um avança ao seu ritmo. Ainda assim, permanece uma responsabilidade coletiva: não deixar ninguém para trás. Aceitamos o desafio?




