Por João Amaral, Country Manager Portugal e Chief Technology Officer (CTO) do Grupo Voltalia
8760 horas. Este é o número de horas de um ano, o tempo em que a Terra leva nos 365 dias da sua translação à volta do sol. 8760 é o número ‘mágico’ da energia, em particular do solar e o número das oportunidades que advêm dela. Olhar para um projeto nas energias renováveis é planear os próximos 40 anos, é pensar no futuro das gerações, é facilitar energia limpa às populações, é considerar energia acessível e barata e é, inevitavelmente, pensar no impacto local desse projeto durante quatro décadas, durante todas as horas e em múltiplas frentes.
Falar de renováveis é fácil, aplicar renováveis considerando todas as vertentes dos projetos ao nível da sustentabilidade é o grande paradigma atual. Defender uma empresa eco-friendly pressupõe objetivos amigos do ambiente, mas, acima de tudo, tem de significar investimentos justificáveis para o planeta.
Um dos paradigmas das renováveis é o aproveitamento das horas de sol no momento em que se pensa onde desenvolver projetos de energia. O sol não brilha todo o ano e nos períodos da manhã e do final do dia o sol é menos intenso, por outro lado temos outros dias chuvosos ou com nuvens. Do ponto de vista equivalente a um projeto fotovoltaico, teremos de considerar entre as 1500 e 2400 horas ‘úteis de trabalho’, dependendo do local. Neste âmbito, e porque tal como uma larga maioria das plantas, também os painéis gostam de luz solar para terem desempenho, num investimento solar torna-se imprescindível equacionar a geografia aliada à performance a 40 anos.
Outro dos atuais problemas das energias renováveis são as matérias-primas. Temos por um lado a forma como a matéria-prima é utilizada, quando não é recolhida ou produzida da forma mais sustentável e, em paralelo, a utilização da mão-de-obra forçada como nos recentes casos na Ásia. Os maiores países produtores de energia mundiais recaem nestas práticas, o que torna difícil ir ao encontro de uma sustentabilidade “360º”. Felizmente, assistimos a um índice de evolução nos diferentes mercados internacionais em prol deste objetivo e o caminho é feito de melhorias contínuas, com certeza. No entanto, atingir metas é algo tão falado, mencionado tantas vezes que infelizmente tornou este propósito ‘banal’ em alguns destes países. Talvez seja por isso que vemos paradigmas, que já foram superados na Europa, a não serem sequer considerados em alguns pontos do mundo.
Mais do que definir é preciso mudar de atitude e implementar novas políticas, essas sim 100% sustentáveis. É necessário, desde já, pensar em chamar a atenção, sinalizar e repreender.
A simbiose natural que os projetos fotovoltaicos trazem é um excelente exemplo de sustentabilidade nas energias renováveis e que deve ser usado enquanto uma referência a inspirar e replicar. No deserto da China – curiosamente o país mais desafiado na forma como recorre à mão-de-obra e atualmente o maior emissor de CO2 do mundo – há um projeto fotovoltaico em que ao fim de 5 anos já tinha uma plantação de vegetais. 5 anos e num local absolutamente deserto, imagine em 40 o número e tipo de alimentação que será possível produzir. Este é um exemplo de uma abordagem agrovoltaica na qual é possível aproveitar a terra e ter plantações. Temos apenas um planeta para viver e o solo também não irá certamente duplicar, por isso, as sinergias são o melhor caminho. Optar por ter animais a fazer controlos de vegetação, optar por não abater árvores ou optar por fornecedores locais são apenas alguns exemplos de ter uma geração verdadeiramente de energia limpa.
Podemos querer ter uma transição energética e ecológica, uma Europa e um Mundo decididos em avançar para uma energia limpa e a assumir diariamente o compromisso de atingir a neutralidade carbónica, mas que o seja a 360º, com projetos que, de facto, apliquem um futuro mais sustentável no seu todo, ao longo de todas as 8760 horas que temos por ano.




