A carga da cavalaria

Por Arlindo Oliveira, Professor do IST e Presidente do INESC

Nos tempos em que Holywood ainda fazia filmes politicamente incorrectos de conflitos entre cowboys e índios, muitos deles acabavam com a carga da cavalaria que, mesmo no último minuto, salvava os heróis cercados por uma maioria de índios hostis, que faziam de maus da fita. A carga da cavalaria, ao som do trompete, era geralmente o ponto alto do filme, permitindo a salvação dos heróis e os fins cor de rosa.

Nos dias que correm, o SARS-CoV-2 é o mau da fita, tendo cercado os estados, as economias e as empresas que estão, em muitos casos, à beira do colapso. As armas ao nosso dispor, que incluem o distanciamento social, as máscaras, os confinamentos e os medicamentos anti-virais, revelaram-se insuficientes para bloquear a progressão e os efeitos do vírus na maior parte dos países. Na Europa e nos Estados Unidos, vaga após vaga de infecções aumentou o número de casos e de mortes, destruindo progressivamente a esperança de que estas medidas pudessem conter a propagação do vírus e evitar que este se tornasse endémico. As economias estão de rastos, muitas empresas em diversos sectores vêem com preocupação o futuro e toda a sociedade está de rastos após um cerco que dura há mais de um ano. Perante a perspectiva de sermos dizimados pelo inimigo, resta-nos a esperança na chegada em breve da cavalaria.

A cavalaria, neste caso, são as vacinas que, em tempo record, foram desenvolvidas pelos cientistas e empresas farmacêuticas. Porém, a Europa geriu tão mal o processo que a cavalaria se arrisca a chegar tarde de mais. Ao contrário dos Estados Unidos e do Reino Unido, que geriram o processo de fabrico e distribuição de vacinas com um sentido de urgência, a Europa negociou mal não só os contratos de fornecimento de vacinas, mas também as questões logísticas relacionadas com os processos de licenciamento, produção e distribuição. Enquanto que a cavalaria se dirige a galope para os Estados Unidos e Reino Unido, na Europa optou-se por um trote tranquilo, ignorando a situação crítica de diversos sectores, incluindo a banca que, embora estável, poderá vir a sofrer o efeito negativo do fim das moratórias se a recuperação não for rápida.

A hesitação em administrar a vacina da AstraZeneca, com base em vagas suspeitas, nunca confirmadas, de um pequeníssimo risco de efeitos secundários, só veio agravar a situação. Não tanto por ter atrasado o processo de vacinação, porque esse atraso poderá ser facilmente recuperado agora que se removeu a suspensão, mas, acima de tudo, porque veio contribuir para agravar um clima de suspeição sobre a eficácia, segurança e importância das vacinas. Numa altura em que as redes sociais e os media propagam as ideias mais estúpidas sobre os perigos das vacinas, fortalecendo as convicções daqueles que são contra as mesmas, esta suspensão prestou um péssimo serviço à Europa. Quando se está cercado pelos índios, à beira do colapso, não é a altura para dizer mal da cavalaria, que representa a única esperança de sobrevivência e de um regresso à normalidade minimamente célere.


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