“A Europa subcontratou a segurança aos EUA, a energia à Rússia e a indústria à China”: como mudou o mundo desde o 11 de Setembro

Na segunda de três entrevistas da Executive Digest sobre os 25 anos do 11 de Setembro, o analista de política internacional Mário Vaz olha para o tabuleiro do poder: explica como as escolhas de Washington ajudaram a abrir espaço à China, abalaram a credibilidade do Ocidente e contribuíram para o mundo multipolar de 2026

Francisco Laranjeira

Enquanto o mundo ainda tentava perceber aquilo que tinha acontecido em Nova Iorque e Washington, outra coisa estava prestes a acontecer a milhares de quilómetros dali.

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A 11 de dezembro de 2001, exatamente três meses depois dos atentados, a China entrou na Organização Mundial do Comércio (OMC).

Naquele momento, os Estados Unidos eram a única superpotência global, Vladimir Putin procurava cooperação com Washington, a Europa acreditava que comércio e interdependência aproximariam progressivamente as grandes potências e Francis Fukuyama já tinha dado um nome ao otimismo que atravessara a década anterior: o “Fim da História”.

Vinte e cinco anos depois, pouco resta desse mundo.

Na segunda de três entrevistas da ‘Executive Digest’ sobre o legado do 11 de Setembro, Mário Vaz, analista de política internacional e assistente de ensino no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa (IEP-UCP), olha para aquele dia a partir do tabuleiro do poder. Com formação também em políticas da União Europeia na Brussels School of Governance e na Academia Diplomática de Viena, procura perceber não apenas aquilo que os atentados mudaram, mas aquilo que as escolhas tomadas depois deles ajudaram a mudar.

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E começa por desfazer uma explicação demasiado simples:

“O 11 de Setembro não fabricou os rivais de Washington, mas foi o momento exato em que a ilusão ocidental ruiu.”

Enquanto Washington olhava para Cabul, Pequim olhava para o mundo

Para Mário Vaz, há duas datas de 2001 que devem ser lidas em conjunto.

“A década de 1990 viveu inebriada pela tese do ‘Fim da História’ de Francis Fukuyama, que ditava o triunfo definitivo do Ocidente e dos ideais da democracia liberal e do mercado livre. A queda das Torres Gémeas forçou os Estados Unidos a acordarem abruptamente do otimismo pós-Muro de Berlim.”

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Mas a transformação estrutural daquele ano não terminou em setembro. “A verdadeira transformação estrutural de 2001 não ocorreu apenas em Nova Iorque em setembro, ocorreu em dezembro, quando a China entrou na Organização Mundial do Comércio.”

As duas potências seguiram então caminhos profundamente diferentes. “O 11 de Setembro definiu a vertigem securitária da América, mas foi a globalização económica que pavimentou a ascensão do seu verdadeiro rival sistémico.”

Nas duas décadas seguintes, os Estados Unidos gastariam enormes recursos políticos, militares e financeiros no Afeganistão, Iraque e na chamada “guerra ao terror”. Do outro lado do mundo, Pequim fazia outra aposta.

“Enquanto os EUA afundavam o seu Orçamento de Estado no pó de Cabul e Bagdade, Pequim investia biliões, de forma silenciosa, em infraestruturas globais, a Nova Rota da Seda, e no domínio das cadeias de abastecimento tecnológicas.”

Significa isto que o 11 de Setembro abriu caminho à ascensão chinesa?

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Mário Vaz rejeita uma relação tão simples. “Contribuiu decisivamente, mas agiu como um acelerador e não como a sua causa única.”

A deslocação progressiva do poder económico em direção à Ásia, salienta, é um fenómeno de longa duração. O que a resposta americana aos atentados fez foi consumir atenção e recursos num momento em que o seu futuro grande rival seguia outra estratégia.

“Washington perdeu vitalidade económica e capital político. O foco no Médio Oriente não foi apenas uma distração, foi uma delapidação monumental de recursos políticos, militares e económicos.”

Resume esses 25 anos numa frase: “Washington esgotou-se no tático enquanto Pequim investiu no estratégico.”

O “pecado original” que ainda persegue o Ocidente

Se o Afeganistão nasceu diretamente do 11 de Setembro, foi outra guerra que, para Mário Vaz, deixou a cicatriz mais profunda na posição internacional dos Estados Unidos.

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“A invasão do Iraque em 2003 é o erro estratégico basilar do século XXI e o calcanhar de Aquiles da diplomacia americana.”

A guerra foi lançada, entre outros argumentos, sob a premissa da existência de armas de destruição maciça que nunca seriam encontradas. Mas, para o analista, a consequência mais duradoura ultrapassou o próprio conflito.

“Ao agir à margem do Conselho de Segurança das Nações Unidas e sob a premissa, provada falsa, de armas de destruição maciça, os Estados Unidos fraturaram irreparavelmente a autoridade moral da ordem que alegavam proteger.”

E deixa o paradoxo: “Não se pode liderar uma ordem baseada em regras quando o próprio polícia do mundo demonstra que essas regras são descartáveis assim que colidem com a sua agenda de segurança.”

É uma fatura que, considera, continua por pagar. “O Iraque tornou-se o ‘pecado original’ da política externa ocidental moderna.”

Quando Washington ou Bruxelas invocam hoje o Direito Internacional perante a Rússia ou a China, há países que recordam 2003.

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“Sempre que Washington ou Bruxelas invocam o Direito Internacional para condenar a invasão russa da Ucrânia ou as agressões territoriais da China, o Sul Global — de Brasília a Pretória, passando por Nova Deli — responde com a memória de 2003.”

E essa memória, sustenta Mário Vaz, ajudou também a transformar a forma como várias potências médias se posicionam no tabuleiro internacional. “A perda de credibilidade plantou as sementes de um mundo que hoje é mais transacional e em que potências médias do Sul Global recusam alinhar-se em blocos ideológicos porque perceberam, com o Iraque, que o moralismo ocidental é aplicado de forma discricionária.”

A América acordou. A Europa continuou na festa

Há uma imagem de 2001 que hoje parece pertencer a outra era: depois dos atentados, Vladimir Putin ofereceu cooperação aos Estados Unidos.

Mário Vaz rejeita, porém, a ideia de que o presidente russo estivesse então a caminho de uma aproximação duradoura ao Ocidente.

“A oferta de cooperação de Putin em 2001 nunca foi uma conversão aos valores do mundo livre, mas sim uma manobra transacional.”

O Kremlin tinha objetivos próprios.

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“Putin facilitou a logística dos EUA no Afeganistão esperando, em troca, que Washington ignorasse a brutalidade russa na Chechénia e respeitasse a esfera de influência soviética clássica.”

Depois vieram a saída dos EUA do Tratado de Mísseis Antibalísticos, em 2002, e o alargamento da NATO.

“As escolhas pós-11 de Setembro convenceram o Kremlin de que os EUA viam a Rússia não como um parceiro na guerra ao terror, mas como uma potência subalterna que podia ser ignorada.”

Mas se Washington abandonou rapidamente parte do otimismo dos anos 1990, Mário Vaz considera que a Europa permaneceu presa a ele. “Os EUA saíram do seu estado de espírito de ‘fim da história’ na manhã de 11 de Setembro de 2001. A Europa, pelo contrário, decidiu prolongar a festa do otimismo pós-Muro de Berlim por mais duas décadas.”

A convicção era a de que a interdependência económica reduziria progressivamente o espaço para o confronto. O analista aponta particularmente para a doutrina alemã do Wandel durch Handel — mudança através do comércio.

“As lideranças europeias, particularmente a Alemanha, cegaram-se com a doutrina do Wandel durch Handel, acreditando que comprar gás barato a Moscovo e exportar carros para a China iria domesticar autocracias.”

A conclusão é uma das mais duras da entrevista: “A Europa subcontratou a sua segurança aos EUA, a sua energia à Rússia e a sua indústria à China, recusando-se a ver o mundo através da lente crua do realismo.”

Os EUA derrubaram Saddam. O Irão agradeceu

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Há outro paradoxo na forma como os Estados Unidos utilizaram o seu poder depois do 11 de Setembro: uma guerra destinada a transformar o Médio Oriente acabou por favorecer um dos principais adversários de Washington.

“O grande derrotado geopolítico foram os Estados Unidos, que perderam o monopólio da influência. O grande vencedor tático, curiosamente, dada a situação em que nos encontramos, foi o Irão.”

Ao derrubar Saddam Hussein, explica Mário Vaz, Washington eliminou “o único contrapeso regional natural de Teerão”, abrindo espaço para o crescimento da influência iraniana.

Ao mesmo tempo, as monarquias do Golfo começaram a diversificar as suas relações. “Perceberam que a proteção americana já não era uma garantia absoluta e começaram a praticar hedging, diversificação de risco, aproximando-se da China para parcerias económicas e da Rússia para coordenação petrolífera.”

A transformação cabe numa frase: “O Médio Oriente deixou de ser um protetorado americano.”

A imagem de Cabul que os adversários também viram

Então chegou agosto de 2021.

Vinte anos depois do início da guerra, os últimos militares dos EUA abandonaram o Afeganistão e os talibãs regressaram ao poder.

Para Mário Vaz, não terminou apenas uma intervenção militar. “Representou o colapso definitivo da visão neoconservadora de nation-building e da exportação armada da democracia.”

E revelou um limite que duas décadas de superioridade militar e tecnológica não tinham conseguido eliminar. “Cabul não foi apenas uma derrota militar e logística, que o foi, foi a prova empírica de que a supremacia tecnológica e financeira ocidental não consegue alterar o tecido sociopolítico de um país que não partilha a mesma matriz cultural e histórica.”

Mas as imagens de Cabul não foram observadas apenas no Afeganistão ou nos Estados Unidos.

Também aqueles que procuram calcular até onde Washington está disposto a ir estavam a olhar.

“O regresso dos talibãs sinalizou ao mundo, e em particular aos adversários sistémicos dos EUA, o limite da vontade e da resiliência, o staying power, de Washington.”

O 11 de Setembro acabou. O mundo que deixou não

Em 2001, o terrorismo internacional ocupava o centro da estratégia de segurança dos Estados Unidos.

Em 2026, o vocabulário é outro: China, Rússia, Ucrânia, Taiwan, rearmamento, competição industrial, cadeias de abastecimento, grandes potências.

Terá então terminado, geopoliticamente, o 11 de Setembro? “O ciclo do terrorismo globalizado como a principal ameaça existencial encerrou-se, e o retorno à competição entre grandes potências, o estado natural da história humana, consumou-se.”

Mas o fim desse ciclo não significou o regresso ao mundo que existia antes das Torres Gémeas. “Continuamos cativos das consequências estruturais que nasceram naquela manhã.”

Os Estados Unidos chegam à nova competição entre grandes potências depois de duas décadas de guerra, o Ocidente com parte da sua credibilidade contestada e várias potências do chamado Sul Global menos disponíveis para aceitar alinhamentos automáticos.

“A arquitetura multipolar em que hoje operamos, com um Ocidente com a sua credibilidade beliscada, um Sul Global que rejeita imposições morais e uma América cada vez mais protecionista e isolacionista, foi forjada nas fornalhas do Afeganistão e do Iraque.”

E é aí que Mário Vaz coloca o ponto final: “O 11 de Setembro pode já não ditar os títulos dos jornais, mas é parte integrante da ‘constituição geopolítica’ do mundo em que vivemos hoje.”

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