A NATO pode sobreviver sem Washington? Sim, mas não como a conhecemos

NATO prepara-se para a cimeira anual de julho, na Turquia, perante uma pergunta que durante décadas parecia quase impensável

Francisco Laranjeira

A NATO prepara-se para a cimeira anual de julho, na Turquia, perante uma pergunta que durante décadas parecia quase impensável: o que aconteceria à Aliança Atlântica se os Estados Unidos se afastassem, reduzissem garantias de segurança ou deixassem de assumir o papel central que desempenharam desde a Guerra Fria?

A questão é levantada por Gorana Grgić, responsável de Segurança Global no Center for Security Studies do Swiss Federal Institute of Technology Zurich e investigadora ligada à Universidade de Sydney, num artigo publicado no ‘The Conversation’. A autora defende que a NATO provavelmente sobreviveria a uma eventual retirada americana, mas poderia transformar-se numa aliança muito diferente da que conhecemos hoje.

A inquietação europeia aumentou nas últimas semanas, depois de a Administração Trump ter anunciado a retirada de 5.000 militares da Alemanha, travado o envio de 4.000 soldados para a Polónia e sido associada a discussões sobre uma eventual suspensão de Espanha da Aliança. Em várias capitais europeias, estes movimentos foram interpretados como retaliação pela falta de apoio mais forte à posição americana na guerra com o Irão.

Mas o problema é mais profundo do que uma disputa pontual. Para Grgić, os aliados europeus estão a perceber que já não podem depender dos Estados Unidos nos mesmos termos para garantir a sua segurança. A consequência é uma pressão crescente para que a Europa assuma mais responsabilidades militares, políticas e industriais dentro da NATO.

A ideia ganhou forma com a expressão “NATO 3.0”, apresentada por Elbridge Colby, subsecretário da Defesa dos Estados Unidos para a política, numa reunião de ministros da Defesa da Aliança. O conceito aponta para uma NATO em que os europeus assumem um papel muito maior na dissuasão convencional, enquanto Washington concentra prioridade estratégica na competição com a China e apoia a segurança europeia de forma mais seletiva e à distância.

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Esta mudança representa mais do que uma exigência para que os europeus gastem mais em Defesa. Segundo a autora, os Estados Unidos estão a dizer à Europa que terá de fazer mais com menos equipamento americano, menor alinhamento político e menos garantias. A questão central passa a ser a erosão da confiança que sustentou a capacidade de dissuasão da NATO durante décadas.

O resultado pode ser uma NATO mais europeia, mas não necessariamente mais coesa. Nenhum país europeu tem sozinho capacidade, recursos ou legitimidade política para substituir os Estados Unidos como líder da Aliança. A liderança tenderia a ser partilhada por grupos de países mais capazes, como o E3, composto por Reino Unido, França e Alemanha, ou o E5, que acrescenta Itália e Polónia.

Esses formatos não seriam alternativas à NATO, mas mecanismos para organizar uma maior responsabilidade europeia dentro da própria Aliança. O risco, porém, está na fragmentação. A NATO sempre teve de gerir diferentes perceções de ameaça entre os seus 32 membros. Sem liderança americana forte, essas diferenças podem tornar-se mais visíveis e difíceis de conciliar.

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Numa primeira fase, uma NATO mais europeia tenderia a concentrar-se na defesa coletiva e na dissuasão contra a Rússia, sobretudo perante a guerra em curso contra a Ucrânia. Isso poderia empurrar para segundo plano outras missões que ganharam peso depois da Guerra Fria, como gestão de crises, segurança cooperativa, combate ao terrorismo, segurança energética ou proteção marítima.

Essa redução de foco não agradaria a todos. Os países do flanco sul da NATO continuam a defender que a Aliança não pode preocupar-se apenas com a ameaça russa. Para esses aliados, a instabilidade no Norte de África e no Médio Oriente, a pressão migratória, o terrorismo e a insegurança marítima continuam a ser desafios centrais.

Há ainda outra dimensão: as parcerias da NATO no Indo-Pacífico, com Japão, Coreia do Sul, Austrália e Nova Zelândia. Apesar de deixarem de contar com apoio aberto da atual administração americana, estas ligações tornaram-se relevantes para a cooperação industrial de defesa, resiliência tecnológica, cadeias de abastecimento de materiais críticos e sinalização estratégica.

No fundo, a NATO entra numa fase em que a sobrevivência institucional parece menos incerta do que a sua identidade futura. A Aliança dificilmente desapareceria de um dia para o outro. Como nota a autora, nunca se deve subestimar a força agregadora das burocracias. Mas a pergunta decisiva já não é apenas se a NATO continuará a existir.

A verdadeira questão é que tipo de NATO poderá emergir: uma aliança militar mais estreita, concentrada quase exclusivamente na defesa do continente europeu, ou uma comunidade político-securitária mais ampla, capaz de responder ao conjunto de crises que afetam a Europa?

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Se os Estados Unidos recuarem, a NATO não acabará necessariamente. Mas poderá perder a forma que a tornou reconhecível durante décadas. E, para a Europa, a nova realidade pode ser simples de formular e difícil de executar: assumir mais responsabilidade pela sua própria segurança, sem saber ainda exatamente que autonomia estratégica quer construir.

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