Por Luís Gil, Membro Conselheiro e Especialista em Energia da Ordem dos Engenheiros
Comecemos por dizer o que é o biochar. Biochar é o carvão vegetal produzido pela combustão parcial (carbonização ou queima lenta) de materiais orgânicos como material vegetal de árvores e outras plantas e resíduos. O carbono sequestrado na biomassa via fotossíntese regressaria à atmosfera como sob a forma de dióxido de carbono através da decomposição da matéria-prima se não fosse transformado em biochar, que representa assim uma forma de armazenamento de carbono que pode durar centenas ou mesmo milhares de anos nas suas aplicações.
O exemplo mais antigo e conhecido — a “terra preta de índio” na Bacia Amazónica — demonstra como adições intencionais de material orgânico carbonizado transformaram solos tropicais altamente desgastados em alguns dos solos mais férteis e ricos em carbono do planeta. Estes solos antropogénicos, criados há séculos, retiveram elevados teores de carbono, disponibilidade de nutrientes e atividade biológica, muito tempo após a sua formação, oferecendo evidências da durabilidade e dos benefícios multifuncionais do biochar.
Nas últimas duas décadas, o biochar passou de um tema de investigação de nicho para uma solução reconhecida a nível global, expandindo a relevância do biochar muito para além do seu contexto agrícola histórico. O que antes era visto principalmente como um corretivo do solo é agora cada vez mais entendido como um material capaz de apoiar a agricultura, permitir a remoção de carbono, promover a remediação ambiental e substituir o carbono de origem fóssil em sistemas industriais ou na produção de materiais necessários para a transição energética.
Muitas formas de resíduos orgânicos — desde os resíduos florestais e subprodutos agrícolas até lamas de esgoto, estrume e resíduos sólidos urbanos — podem servir de matéria-prima para biochar, desde que contenham carbono orgânico suficiente. Para a verdadeira remoção de dióxido de carbono o carbono deve ser biogénico, ou seja, com origem na fotossíntese, garantindo que a pirólise da matéria-prima converta o carbono de ciclo curto em carbono estável de ciclo longo. Assim, o biochar proporciona a remoção de carbono apenas quando o destino alternativo da biomassa levaria a maiores emissões, como a decomposição (potencialmente também formadora de metano, um potente gás de efeito de estufa) ou a queima a céu aberto.
Além disso, o biochar pode ser produzido a partir de plantas invasoras, “ervas daninhas” e materiais similares, sendo possível utilizá-lo como ferramenta de gestão para melhorar o ecossistema local através da colheita estratégica de espécies indesejáveis ou que cresceram em excesso, podendo constituir uma ferramenta muito importante nesse domínio e gerando até receitas.
O biochar é produzido pela conversão termoquímica da biomassa, sendo a pirólise o método mais relevante para a sua produção. A composição da matéria-prima desempenha um papel central na determinação da qualidade do biochar. Além disso, o que é considerado um biochar de alta qualidade também depende fortemente da aplicação pretendida, dado que nenhum conjunto único de propriedades é ideal para todas as utilizações.
O biochar tem múltiplas aplicações, que vão, como referido, desde a melhoria da qualidade do solo agrícola até utilização como sorvente de contaminantes, enchimento em betão e asfalto, substituto do coque em processos metalúrgicos e muitas outras. Pode inclusive ser produzida grafite sintética a partir do biochar, uma matéria-prima crítica tão necessária para a transição energética. O biochar pode ainda funcionar como um material adsorvente para a captura de carbono, sendo alternativa mais ecológica e económica face aos métodos convencionais de captura de carbono, frequentemente considerados caros e energeticamente exigentes. O biochar está, assim, a emergir como um produto essencial para diversas aplicações e é comercializado globalmente em quantidades crescentes.
Verifica-se deste modo que relativamente ao biochar existem dois mundos muito diferentes. De um lado, o mundo do biochar tradicional para aplicações para a saúde do solo, em que os créditos de carbono são interessantes. Do outro lado, o novo mundo do biochar, para aplicações em asfalto, alcatrão, betão, agregados, absorventes industriais, bem como utilizações energéticas e térmicas. Sendo que um único tipo de biochar não serve para todas as soluções. O biochar que tem um excelente desempenho numa aplicação pode não funcionar automaticamente noutra.
Embora o mercado português seja ainda limitado e amplamente desconhecido, o país demonstra potencial para ser um player importante no mercado europeu, principalmente devido à sua abundância de matérias-primas, know-how tecnológico e diversidade de potenciais utilizações para o biochar.
Uma das chaves para a redução do custo da matéria-prima do biochar será a parceria com as entidades locais, como explorações agrícolas, arboristas ou serrações para a utilização gratuita ou a baixo custo de biomassa residual, como resíduos de colheita ou aparas de madeira, eliminando uma grande despesa operacional. Isto pode garantir um fornecimento constante e barato de matéria-prima, o que é crucial para melhorar as margens de lucro num negócio de biochar. Esta aquisição direta minimiza os custos de transporte e melhora a otimização global da cadeia de valor do biochar.
Saliente-se que numa recente visão do mercado global do biochar, assinalava-se que este mercado estava a registar um crescimento significativo, com alguns especialistas a referirem-se a ele como “ouro negro” (o novo petróleo?). Avaliado em 600 milhões de dólares em 2023, segundo essa perspetiva o mercado global de biochar deveria crescer para quase 3,5 mil milhões de dólares até 2025. Acresce ainda o valor dos créditos de carbono associados.
Será assim necessário definir políticas públicas associadas à criação de uma fileira, nomeadamente para a produção de biochar em Portugal, organizada por eixos de intervenção, de forma pragmática e alinhada com os objetivos nacionais. Uma estratégia nacional para o biochar deve prosseguir alguns objetivos principais, como a redução dos incêndios e dos custos associados, o aumento do sequestro do carbono e a melhoria dos solos agrícolas e florestais, o contributo para as metas climáticas e a promoção do desenvolvimento territorial e da economia circular.
Um projeto de biochar só pode avançar, por exemplo, se os projetos de infraestruturas, de agricultura (se for essa a aplicação desejada) e da área ambiental (sequestro de carbono) estiverem alinhados.




