O fenómeno do impostor consiste na experiência persistente de duvidar das próprias competências e de temer ser exposto como fraudulento, mesmo perante evidência objetiva de sucesso pois existe o medo persistente de avaliação negativa. Embora todos possam experienciar este fenómeno pontualmente ao longo da vida, para algumas pessoas ele tende a ser mais frequente e persistente. De acordo com especialistas, estima‑se que entre 70% a 80% das pessoas experienciem sentimentos de impostor pelo menos uma vez ao longo da vida.
Inicialmente associado a mulheres com sucesso, rapidamente se percebeu que o fenómeno do impostor afeta pessoas de diferentes géneros, idades e profissões. Médicos, gestores, estudantes, investigadores ou artistas podem sentir que o seu sucesso resulta apenas de sorte, acaso ou esforço excessivo, e não de competência real. Contudo, este fenómeno é mais comum entre profissionais bem‑sucedidos. Mas será que todos os impostores são iguais?
Valerie Young, no seu livro The Secret Thoughts of Successful Women and Men: Why Capable People Suffer from Impostor Syndrome and How to Thrive in Spite of It, identificou cinco perfis distintos associados ao fenómeno do impostor.
O primeiro é o “perfeccionista”, que estabelece metas e padrões irrealistas e interpreta qualquer erro como um grande fracasso. Tende a ser excessivamente crítico em relação ao próprio desempenho e a duvidar da qualidade do seu trabalho, mesmo quando os resultados são objetivamente positivos.
Segue‑se o “super‑herói” (ou super‑humano), que procura destacar‑se em todas as áreas da vida. O seu foco está no número de responsabilidades que consegue assumir e acumular, o que frequentemente o leva a sobrecarregar‑se, a ultrapassar os seus próprios limites e a acumular elevados níveis de pressão e exaustão.
Já o “génio natural” estabelece expectativas irrealisticamente elevadas, avalia‑se pela rapidez e pela facilidade com que realiza as diversas tarefas. Considera-se “ naturalmente talentoso”, logo devia conseguir destacar‑me sem grande esforço ou orientação, sentindo vergonha quando precisa de aprender ou praticar.
O “solitário” tende a fazer tudo sozinho, pois evita pedir ajuda, que considera um sinal de incompetência. Procura provar o seu valor trabalhando de forma independente e tem dificuldade em aceitar apoio dos outros. Quando precisa de ajuda ou alcança resultados através da colaboração, experiencia um agravamento do sentimento de fraude e sente que o sucesso “não conta” verdadeiramente, por ter de ser partilhado com os outros.
Por fim, o “especialista” caracteriza‑se pela necessidade constante de acumular conhecimento antes de se considerar preparado. Sente que precisa de saber tudo antes de iniciar uma tarefa ou avançar para uma nova oportunidade. Teme situações em que possa expor as limitações do seu conhecimento e, por isso, tende a proteger‑se através da obtenção de múltiplos diplomas, formações ou certificações, procurando garantir que domina plenamente um determinado tema.
Qualquer que seja o perfil, o fenómeno do impostor pode dar origem a um ciclo difícil de quebrar. Perante novos desafios, algumas pessoas tendem a procrastinar por medo de falhar, enquanto outras entram em padrões de excesso de trabalho e preparação contínua. Mesmo quando o sucesso é alcançado, este raramente é plenamente internalizado, o que alimenta ansiedade, tensão e insegurança persistentes.
No contexto atual, as redes sociais são frequentemente apontadas como um fator que intensifica estes sentimentos. A exposição constante a versões idealizadas da vida e da carreira de outras pessoas pode reforçar comparações sociais e sentimentos de inadequação, sendo algumas plataformas de natureza profissional frequentemente associadas ao aumento da ansiedade e a auto-perceções negativas.
A autora sublinha, contudo, que o fenómeno do impostor pode ser gerido e propõe um conjunto de estratégias que incluem reconhecer padrões de pensamento irrealistas, reduzir a tendência para comparações sociais, aprender a aceitar feedback positivo, desenvolver a compaixão e falar abertamente sobre inseguranças com colegas, mentores ou profissionais de saúde mental.




