O mercado de trabalho português arrancou 2026 com uma das maiores correções dos últimos anos, registando uma descida de 38.700 postos de trabalho no primeiro trimestre (-0,7%), a maior queda trimestral dos últimos cinco anos.
Este abrandamento traduziu-se também num aumento da taxa de desemprego, que subiu 0,3 pontos percentuais face ao trimestre anterior, fixando-se nos 6,1%, segundo a análise da Randstad Research com base nos dados do Inquérito ao Emprego do INE.
Apesar da quebra, o número total de pessoas empregadas mantém-se acima dos 5,3 milhões (5.300.800). O recuo foi praticamente transversal às várias faixas etárias e tipos de vínculo laboral, com exceção de alguns segmentos específicos que demonstraram maior resiliência.
O emprego assalariado foi o mais penalizado, com uma descida de 1%, enquanto o trabalho independente contrariou a tendência, crescendo 0,6% para um total de 820.400 profissionais. Em destaque esteve também o setor industrial, o único ramo de atividade a registar um saldo positivo no trimestre, com um aumento de 4.200 trabalhadores (+0,3%).
Do ponto de vista demográfico, o abrandamento foi mais expressivo entre os 45 e os 54 anos (-18.800 pessoas; -1,3%) e entre os 25 e os 34 anos (-18.300; -1,7%). Em contraciclo, a população entre os 65 e os 89 anos foi o único grupo etário a crescer, apresentando não só uma evolução trimestral positiva como também o maior crescimento homólogo entre todos os segmentos (+17,7%).
Outro dado relevante prende-se com o multiemprego. Após uma década de crescimento acelerado (+46,5%), o número de trabalhadores com duas ou mais atividades recuou para cerca de 279 mil pessoas (5,3% da população empregada). Segundo a Randstad Research, esta inversão sugere que o atual abrandamento do mercado está a reduzir a necessidade — ou a possibilidade — de acumulação de rendimentos através de atividades secundárias.
No que diz respeito ao trabalho remoto, 1.118.900 pessoas trabalham atualmente em regime híbrido ou totalmente à distância, o equivalente a 21,1% do total de trabalhadores. Contudo, persistem fortes disparidades regionais: na Grande Lisboa, 33,6% dos trabalhadores estão em teletrabalho, enquanto nos Açores a percentagem desce para apenas 9,1%.
Para Isabel Roseiro, diretora de Marketing e Comunicação da Randstad Portugal, este trimestre reflete um momento de ajuste natural após vários ciclos de crescimento.
“Este trimestre marca um ajuste necessário após ciclos de forte expansão, refletindo-se numa taxa de desemprego de 6,1%. No entanto, a força do mercado reside na sua diversidade: o trabalho independente cresceu e o regime remoto já abrange 21,1% dos portugueses. O setor industrial, ao ser o único ramo com crescimento trimestral, reforça que a economia está a encontrar novos eixos de estabilidade face aos desafios atuais. As empresas devem agora centrar-se na consolidação da cultura organizacional, transformando a estabilidade dos perfis experientes no principal motor de resiliência e crescimento sustentado para o futuro”.














