As duas primeiras semanas da guerra com o Irão libertaram mais de 5 milhões de toneladas de dióxido de carbono equivalente para a atmosfera, segundo uma análise citada pelo ‘El Economista’. O valor corresponde às emissões anuais de cerca de 1,1 milhões de automóveis a gasolina e traduz-se em danos climáticos estimados em mais de 1,3 mil milhões de dólares, cerca de 1,14 mil milhões de euros.
O estudo envolveu investigadores da Queen Mary University of London, da Universidade de Lancaster e do Climate and Community Institute, e analisou as emissões diretas e indiretas geradas entre 28 de fevereiro e 14 de março de 2026, os primeiros 14 dias do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irão. A estimativa total foi de 5,054 milhões de toneladas de CO₂ equivalente.
A comparação ajuda a perceber a escala. Em apenas duas semanas, a guerra produziu mais emissões do que a Islândia num ano e um volume equivalente ao de 1,1 milhões de carros a gasolina em circulação durante 12 meses.
Destruição de edifícios e petróleo queimado pesam mais
A maior parcela das emissões veio da destruição de casas e edifícios, responsável por cerca de 2,4 milhões de toneladas de CO₂ equivalente. A queima e destruição de combustível acrescentou 1,88 milhões de toneladas. Já o combustível usado em operações militares representou 529 mil toneladas.
O estudo contabilizou ainda 172 mil toneladas associadas ao carbono incorporado em equipamentos militares destruídos e 55 mil toneladas resultantes do uso de mísseis e drones.
Estes números mostram que a pegada climática da guerra não vem apenas dos aviões, navios, blindados ou munições. Grande parte do impacto está também na destruição de infraestruturas civis e energéticas, que libertam emissões no momento do ataque e voltarão a gerar emissões no futuro, quando tiverem de ser reconstruídas.
Emissões da guerra raramente entram nas contas climáticas
Um dos alertas centrais dos investigadores é que as emissões associadas a conflitos armados continuam praticamente fora da política climática global.
“As emissões provenientes de conflitos armados permanecem praticamente invisíveis na política climática global. Raramente são contabilizadas, raramente relatadas e raramente debatidas”, afirmou Benjamin Neimark, professor de Economia Política Internacional na Queen Mary University of London, na apresentação da análise.
Fred Otu-Larbi, da Universidade de Lancaster, sublinhou que o custo ambiental da guerra não é uma questão secundária. “Esta análise demonstra que, além do custo humano do conflito, o custo ambiental da guerra não é uma questão distante ou secundária. É imediato, quantificável e de uma magnitude comparável às emissões anuais de países inteiros”, afirmou.
Dois meses de conflito multiplicam impacto
O estudo analisou apenas as duas primeiras semanas da guerra. Mas, considerando que o conflito já se prolonga há cerca de dois meses, o impacto climático poderá ter aumentado de forma muito significativa.
O ‘El Economista’ sublinha que, se a tendência inicial se mantiver, as emissões poderão ter quadruplicado. Nesse cenário, o volume de CO₂ associado ao conflito aproximar-se-ia das emissões anuais de todos os veículos com motor de combustão interna que circulam na Comunidade de Madrid.
Os próprios autores da análise admitem que se trata de uma primeira estimativa e que o impacto total deverá crescer à medida que a guerra continuar. A produção adicional de armas, a destruição de infraestruturas petrolíferas, os incêndios, as fugas de combustível e o eventual envolvimento militar de outros países podem agravar ainda mais a pegada climática.
O esforço climático dos consumidores fica em causa
A leitura do ‘El Economista’ é particularmente crítica para a indústria automóvel. Enquanto fabricantes e consumidores suportam custos elevados para reduzir emissões através de carros híbridos, elétricos, motores mais eficientes ou combustíveis alternativos, a guerra pode anular em poucos dias parte desse esforço climático.
A comparação com 1,1 milhões de carros a gasolina num ano torna essa contradição evidente. A transição tecnológica no transporte rodoviário avança, mas os conflitos armados continuam a gerar emissões massivas que raramente entram no debate público com a mesma intensidade.
O mesmo problema já tinha sido analisado em relação à guerra em Gaza e ganha ainda mais dimensão quando se somam outros conflitos, como a guerra na Ucrânia. Para os investigadores, a conclusão é clara: não é possível discutir metas climáticas globais sem contabilizar o impacto ambiental das guerras.
Um custo climático que também é económico
Além das emissões, a análise estima danos climáticos superiores a 1,3 mil milhões de dólares, cerca de 1,14 mil milhões de euros, apenas nas duas primeiras semanas do conflito. Este valor procura traduzir em termos económicos os prejuízos ambientais associados ao carbono libertado.
A guerra tem custos humanos, militares, diplomáticos e económicos imediatos. Mas o estudo mostra que há também uma fatura climática que se acumula em silêncio e que continuará a pesar depois do fim dos combates.
A mensagem dos investigadores é simples: aquilo que não é medido tende a ficar fora das decisões políticas. E, no caso das guerras, as emissões continuam a ser uma das grandes parcelas invisíveis da crise climática.











