O comissário europeu para o Comércio, Maroš Šefčovič, reúne-se esta terça-feira, em Paris, com o representante americano para o Comércio, Jamieson Greer, num momento de forte tensão entre Bruxelas e Washington. Em causa está a ameaça de Donald Trump de aumentar para 25% as tarifas sobre carros e camiões importados da União Europeia, depois de acusar o bloco de estar a demorar demasiado a aplicar o acordo comercial alcançado no verão passado.
A reunião terá lugar na véspera do encontro dos ministros do Comércio do G7, também na capital francesa, e surge depois de Trump ter ameaçado elevar as tarifas automóveis de 15% para 25%. O presidente americano justificou a ameaça com a alegada falta de cumprimento, por parte da UE, do acordo fechado em julho no seu campo de golfe de Turnberry, na Escócia. A ‘Reuters’ noticiou que vários países europeus estão a tentar acelerar a aprovação do acordo para evitar a subida das tarifas sobre carros e camiões europeus.
Se Trump avançar, o impacto será particularmente duro para a indústria automóvel alemã, que já atravessa uma fase difícil devido à menor procura, à transição elétrica e à concorrência chinesa. Associações do setor automóvel alemão apelaram a negociações rápidas e ao cumprimento do acordo para evitar um novo choque comercial.
Bruxelas diz que mantém opções em aberto
Depois da ameaça de Trump, a Comissão Europeia afirmou que continuará a manter “as opções em aberto” para proteger os interesses europeus. Ainda assim, Bruxelas tenta evitar uma escalada numa altura em que o acordo comercial transatlântico continua preso no processo legislativo europeu.
O entendimento de Turnberry previa que a União Europeia eliminasse direitos sobre produtos industriais americanos. Em troca, os Estados Unidos manteriam uma tarifa de 15% sobre a maioria dos produtos europeus, incluindo o setor automóvel. A ‘Euronews’ recorda que o acordo foi apresentado como uma forma de dar previsibilidade ao comércio transatlântico e de poupar entre 500 e 600 milhões de euros por mês aos fabricantes automóveis europeus.
O problema é que, em Bruxelas, a aplicação do acordo tem dividido instituições e governos. Uma maioria de Estados-membros, liderada pela Alemanha, defende uma aprovação rápida para evitar que Trump aumente as tarifas. Já vários eurodeputados querem anexar condições e salvaguardas, argumentando que Washington já violou o espírito do entendimento ao aumentar tarifas sobre produtos com aço e ao manter outras pressões políticas sobre a UE.
França resiste a pressa alemã
França tem estado entre os países mais cautelosos quanto a uma aplicação rápida do acordo. O ministro francês da Economia e Finanças, Roland Lescure, e o ministro do Comércio, Nicolas Forissier, também deverão encontrar-se com Jamieson Greer em Paris.
Lescure afirmou querer olhar para lá do “ruído” político e manter o foco no processo democrático europeu, atualmente em discussão entre o Parlamento Europeu e o Conselho. Segundo a ‘Reuters’, Paris quer que o acordo seja aplicado sem ceder a pressões consideradas excessivas de Washington, enquanto Berlim insiste na urgência de evitar uma nova penalização sobre o setor automóvel.
A tensão expõe uma divisão clássica dentro da UE: a Alemanha, mais dependente das exportações automóveis para os Estados Unidos, procura uma solução rápida; a França prefere uma resposta mais firme, que não transforme ameaças tarifárias em instrumento permanente de negociação.
Aço, alumínio e regras digitais continuam por resolver
A crise dos carros não é o único ponto de fricção. As tarifas americanas sobre o aço e o alumínio europeus continuam em vigor a uma taxa de 50%, apesar do acordo comercial mais amplo alcançado no ano passado. Estes setores ficaram fora do entendimento de Turnberry e continuam a ser uma das maiores queixas da indústria europeia.
Em entrevista à ‘Euronews’, Šefčovič admitiu que Bruxelas aceitou abrir um “diálogo digital” com Washington, depois de meses de pressão americana sobre a legislação tecnológica europeia. A Casa Branca tem criticado leis como a Lei dos Serviços Digitais e a Lei dos Mercados Digitais, que considera discriminatórias para as grandes tecnológicas americanas. O comissário europeu deixou, porém, uma linha vermelha: “Não podemos dar nada que diga respeito à nossa legislação, mas estamos prontos para conversar.”
Washington tem ligado a flexibilização das regras digitais europeias à possibilidade de aliviar tarifas sobre aço e alumínio. Bruxelas recusa reabrir a sua legislação tecnológica, mas tenta enquadrar o tema num diálogo sobre segurança online, concorrência leal e funcionamento dos mercados digitais.
UE e EUA dizem ter um problema comum: excesso de capacidade chinesa
Apesar das divergências, há uma área em que Bruxelas e Washington dizem convergir: a sobrecapacidade chinesa no aço e no alumínio. Šefčovič defendeu a criação de um “anel de aço”, uma resposta conjunta para proteger os mercados ocidentais da pressão exercida pela produção excedentária global.
O comissário europeu afirmou que o problema não está no comércio mútuo de aço entre UE e EUA, mas no excesso de capacidade que atinge os mercados mundiais. Segundo Šefčovič, a sobrecapacidade mundial no aço chega aos 720 milhões de toneladas, enquanto o consumo europeu ronda os 140 milhões.
A China continua a ser vista, tanto por Washington como por Bruxelas, como a principal origem desse desequilíbrio. Ainda assim, transformar essa preocupação comum num acordo concreto continua difícil, sobretudo enquanto os Estados Unidos mantiverem tarifas punitivas sobre produtores europeus.
Paris tenta evitar nova escalada transatlântica
A reunião entre Šefčovič e Greer será, por isso, mais do que um encontro técnico. É uma tentativa de impedir que a ameaça de Trump aos carros europeus faça descarrilar o acordo de Turnberry e reacenda uma guerra comercial entre os dois lados do Atlântico.
A Comissão Europeia insiste que continua “calma” e concentrada em aplicar o comunicado conjunto, mas também deixa claro que protegerá os interesses europeus se Washington avançar com novas tarifas.
A margem de manobra é estreita. Se Bruxelas acelerar demasiado, arrisca críticas internas por ceder à pressão americana. Se demorar, Trump pode concretizar a ameaça e atingir em cheio a indústria automóvel europeia.
É esse equilíbrio que estará em cima da mesa em Paris: salvar o acordo, evitar novas tarifas e impedir que os carros europeus se tornem o próximo campo de batalha da relação entre a União Europeia e os Estados Unidos.













