Google Maps agora mostra como era a Terra há 320 milhões de anos — e onde estaria a sua cidade

Um mapa interativo está a transformar a forma como olhamos para a história da Terra. Através desta plataforma, é possível inserir qualquer localização e perceber onde se encontrava quando os continentes ainda formavam um único bloco.

Patrícia Moura Pinto

Uma nova ferramenta digital está a transformar a forma como olhamos para a história do planeta. Trata-se de um verdadeiro “Google Maps” da pré-história que permite descobrir onde estava qualquer cidade atual há centenas de milhões de anos, quando os continentes tinham uma configuração completamente diferente.

De acordo com o El Confidencial e com o ABC, a plataforma chama-se Paleolatitude.org e funciona como um atlas interativo gratuito capaz de recuar até 320 milhões de anos, até à época da Pangeia. A ferramenta permite que qualquer utilizador introduza as coordenadas da sua cidade e descubra o ponto exato do globo onde ela se encontrava nesse passado remoto.

O solo que hoje pisamos nem sempre esteve no mesmo lugar. Ao longo de milhões de anos, deslocou-se pelo planeta, atravessou oceanos antigos e colidiu com outras massas continentais num processo contínuo. Esta nova plataforma permite acompanhar esse movimento com uma precisão sem precedentes.

Ao inserir uma localização, o sistema apresenta um gráfico que mostra como a latitude desse ponto variou ao longo do tempo geológico, indicando se esteve mais próximo do equador ou das regiões polares. A tecnologia baseia-se no modelo paleogeográfico desenvolvido por uma equipa internacional liderada por Douwe van Hinsbergen, da Universidade de Utrecht.

Da Pangeia à atualidade

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Entre cerca de 320 e 200 milhões de anos, grande parte dos continentes estava unida na Pangeia. Regiões como a Europa, África e América do Norte faziam parte de uma única massa continental, que acabou por se fragmentar, dando origem aos oceanos e continentes que conhecemos hoje.

Uma imagem divulgada pela equipa mostra, por exemplo, a localização dos Países Baixos há 258 milhões de anos, destacando as diferentes camadas da crosta terrestre: as áreas atualmente acima do nível do mar, zonas submersas reconstruídas, crosta muito antiga e regiões oceânicas.

Um dos avanços mais relevantes desta ferramenta é a capacidade de rastrear “continentes fantasmas”, massas terrestres que desapareceram ao longo da história geológica. Segundo o ABC, o modelo permite reconstruir o destino de territórios como a Grande Adria ou a Argolândia, que foram fragmentados e parcialmente engolidos pelo manto terrestre.

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A Grande Adria, por exemplo, tinha dimensões comparáveis às da Gronelândia e acabou por colidir com o sul da Europa há mais de 200 milhões de anos. Parte das suas camadas deu origem a cadeias montanhosas como os Alpes, os Apeninos e os Balcãs. Já a Argolândia fragmentou-se em vários pedaços que hoje se encontram escondidos sob regiões do sudeste asiático.

Rochas como bússolas do passado

A precisão destas reconstruções deve-se, em grande parte, ao estudo do campo magnético da Terra e dos minerais presentes nas rochas. Muitas dessas rochas registaram a direção do campo magnético no momento da sua formação, funcionando como pequenas “bússolas congeladas no tempo”.

Ao combinar essa informação com técnicas de datação, os cientistas conseguem determinar a latitude exata onde essas rochas se formaram e, assim, reconstruir o movimento das placas tectónicas ao longo de milhões de anos.

A latitude de uma região influencia diretamente o clima, uma vez que determina a quantidade de radiação solar recebida. Este fator permite compreender melhor os ambientes do passado e interpretar descobertas fósseis.

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Um exemplo citado pelo ABC refere-se a formações geológicas nos Países Baixos com cerca de 245 milhões de anos, que indicam a existência de condições semelhantes às do atual Golfo Pérsico, com zonas desérticas e mares tropicais.

Novas pistas sobre extinções em massa

Para além da geologia e do clima, a ferramenta abre novas possibilidades no estudo da biodiversidade. Investigadores poderão analisar como diferentes espécies reagiram a grandes extinções, identificando regiões que se tornaram inabitáveis e outras que funcionaram como refúgios.

Esta abordagem permite passar de uma análise apenas temporal da evolução da vida para uma perspetiva tridimensional, que integra também o espaço e a localização geográfica.

Por agora, o modelo consegue recuar até 320 milhões de anos, mas os investigadores pretendem expandi-lo até cerca de 550 milhões de anos. O objetivo é alcançar períodos ainda mais antigos, como a explosão cambriana, quando surgiram as primeiras formas de vida complexa.

Com esta ferramenta, explorar o passado da Terra torna-se mais acessível e visual, permitindo a qualquer pessoa descobrir a incrível viagem que o seu próprio pedaço de planeta percorreu ao longo do tempo.

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