Milhões de eleitores vão às urnas esta quinta-feira no maior conjunto de eleições no Reino Unido desde as legislativas de 2024. O principal foco está em Inglaterra, onde estão em disputa milhares de lugares em conselhos locais, além de eleições para mayor em Watford e em cinco boroughs de Londres: Croydon, Hackney, Lewisham, Newham e Tower Hamlets.
Apesar de se tratar de eleições locais, o impacto será nacional. O escrutínio surge dois anos depois da chegada do Labour ao poder e representa um teste importante para o primeiro-ministro Keir Starmer, que enfrenta sondagens difíceis, desgaste governativo e a pressão crescente do Reform UK, o partido de direita populista liderado por Nigel Farage.
As eleições decorrem também num momento de maior visibilidade política da comunidade lusófona em Inglaterra. Mais de duas dezenas de candidatos de origem portuguesa ou lusófona concorrem esta quinta-feira em diferentes regiões inglesas, entre estreantes, repetentes e até dois adversários na mesma área eleitoral.
Inglaterra concentra o grande teste político
Em Inglaterra, estão em disputa mais de 5.000 lugares em 136 conselhos locais. Estes órgãos são responsáveis por serviços de proximidade como recolha de lixo, reciclagem, habitação, apoio a idosos e pessoas com deficiência, educação, manutenção de estradas e planeamento urbano.
Nos conselhos locais, os eleitores votam por área eleitoral, conhecida como ward ou division. Em algumas zonas há mais do que um representante a eleger. Tal como nas legislativas, o sistema usado é o maioritário simples: ganham os candidatos com mais votos. O partido que conquistar mais lugares passa, em regra, a controlar o conselho.
A votação desta quinta-feira será especialmente sensível para o Labour, que defende muitos dos lugares em disputa e poderá sofrer perdas significativas. Os conservadores também chegam fragilizados, ainda a tentar recuperar da derrota histórica nas legislativas de 2024.
O grande fator de incerteza é o Reform UK. O partido de Nigel Farage tem crescido nas sondagens com uma mensagem centrada na imigração, na redução de impostos e na ideia de que Labour e conservadores falharam os eleitores.
Reform UK tenta transformar sondagens em poder local
O Reform UK surge como uma das forças a observar nestas eleições. Depois de ter aumentado a sua representação parlamentar e conquistado terreno em votações locais anteriores, o partido quer agora provar que consegue transformar descontentamento nacional em controlo efetivo de autarquias.
A imigração tem sido o principal motor da campanha. O Reform promete endurecer a política migratória, travar as chegadas em pequenas embarcações pelo Canal da Mancha e avançar com deportações em massa caso venha a vencer as legislativas de 2029.
Em várias zonas de Inglaterra, sobretudo no Nordeste, Noroeste, Midlands e Leste, Farage espera conquistar eleitores tradicionalmente trabalhistas ou conservadores. O partido tem apresentado a votação desta quinta-feira como uma oportunidade para punir Starmer e acelerar a erosão dos dois grandes partidos.
No Leste de Inglaterra, condados como Essex, Suffolk e Norfolk são particularmente importantes. Uma vitória ou forte avanço do Reform nestas zonas representaria um golpe para os conservadores, que dominaram historicamente muitos destes territórios.
Labour sob pressão no Norte, Midlands e Londres
O Labour deverá enfrentar uma noite difícil em vários antigos bastiões. Sunderland, controlado pelos trabalhistas desde 1974, é visto como um alvo simbólico do Reform UK. Hartlepool, South Tyneside, Gateshead, Barnsley e Wakefield também estão entre os territórios onde o partido de Farage espera crescer.
Nas Midlands, Birmingham será uma das cidades mais observadas. A longa disputa sobre a recolha de lixo desgastou a autarquia e poderá contribuir para perdas trabalhistas. Reform, Verdes, independentes e conservadores tentam aproveitar a frustração local.
Em Londres, o Labour continua forte, mas enfrenta pressão dos Verdes e de independentes em várias zonas. Hackney é uma das áreas onde os Verdes esperam um resultado expressivo. Em Lambeth, Lewisham, Waltham Forest, Newham e Redbridge, o partido de Starmer também terá de defender terreno.
Mais de 20 candidatos lusófonos nas urnas
Estas eleições têm ainda um ângulo particularmente relevante para a comunidade portuguesa e lusófona no Reino Unido. Mais de duas dezenas de candidatos com origem lusófona concorrem em diferentes regiões de Inglaterra.
O caso mais simbólico acontece em Lambeth, no sul de Londres, onde Diogo Costa e Pedro Xavier disputam a zona de Oval, que inclui o bairro conhecido como “Little Portugal”.
Diogo Costa, engenheiro informático de 27 anos, nasceu em Londres e é filho de pais de Mangualde. Eleito em 2022 pelo Partido Trabalhista, recandidata-se para um segundo mandato, defendendo o trabalho feito na melhoria dos espaços públicos. Entre os exemplos que destaca está o mural dedicado ao “Little Portugal”, inspirado no Coração de Viana.
“Consegui concretizar algumas coisas para a área local”, afirmou à agência Lusa. O autarca diz ainda que a sua origem portuguesa ajudou a aproximar a Câmara de Lambeth da comunidade lusófona.
Pedro Xavier, por sua vez, discorda da avaliação do adversário e estreia-se como candidato pelos Liberais Democratas na mesma área. Nascido em Bragança e residente em Londres desde a infância, tem 48 anos, é empresário, Conselheiro das Comunidades Portuguesas, proprietário da rádio RTV Lusa e dirigente da secção do PSD no Reino Unido.
“Nestes últimos anos tenho visto um declínio na gestão dos recursos da Câmara de Lambeth e na forma como tem sido gerida. E acho que deve existir uma representatividade portuguesa para poder, educadamente, bater o pé”, afirmou à Lusa.
De Crawley a Watford, a representação lusófona ganha terreno
Em Crawley, a sul de Londres, Nicolene Ascenso estreia-se pelo Partido Trabalhista. Nasceu em Durban, na África do Sul, mas mantém ligações familiares à Madeira, nomeadamente à Ponta do Pargo e aos Prazeres. Vive no Reino Unido desde 1998 e quer dar prioridade ao custo de vida, habitação, segurança e pressão sobre os serviços públicos.
Crawley tem uma importante comunidade portuguesa, sobretudo madeirense. Além de Ascenso, concorrem também as lusodescendentes Laura Gomes Menezes e Carolina Isabel Rodrigues Braga, ambas pelos Verdes.
Em Watford, a norte de Londres, Sandra Mano candidata-se pela primeira vez na política britânica. Natural de Barcelos, tem 42 anos, vive no Reino Unido há duas décadas, é empresária na área da limpeza e Conselheira das Comunidades Portuguesas.
“As mudanças políticas que estão a acontecer no país e que se sentem muito nesta área, com o avanço do partido da extrema-direita, fez com que eu achasse que, principalmente nós que não somos britânicos, deveríamos ter uma voz mais ativa”, explicou à Lusa.
Num município dominado pelos Liberais Democratas, Sandra Mano espera beneficiar do descontentamento com o Governo trabalhista.
Portugueses concorrem por Labour, Verdes, Liberais Democratas e como independentes
Em Coventry, André Soares, professor universitário e psicólogo, candidata-se pela quinta vez. Natural de Portugal, foi deputado municipal em Tomar antes de se mudar para o Reino Unido, em 2015. Aos 47 anos, diz sentir-se plenamente integrado na sociedade britânica e considera que a nacionalidade portuguesa não tem peso central na campanha.
Em Guildford, Luís Machado, programador de videojogos de 27 anos, natural da Póvoa de Varzim, concorre pelos Verdes. Diz ter-se entusiasmado com a liderança de Zack Polanski e defende que a sua geração já não se revê nos partidos Trabalhista e Conservador.
“Para mim, os Verdes representam a esperança num futuro melhor, em que o bem-estar das pessoas é a prioridade do partido”, afirmou.
Em Norfolk, Carla Barreto, de 47 anos e natural de Outeiro, Viana do Castelo, candidata-se como independente. Já é deputada municipal em Thetford e mayor da vila. Diz ter avançado porque as pessoas lhe pediram e porque há muitos eleitores cansados dos partidos tradicionais.
Em Birmingham, Rafael Costa, de 40 anos, profissional de vendas, também concorre como independente. Nascido em Macau, com ligações a Portugal e Angola, quer representar uma comunidade etnicamente diversa e conta com apoio do Your Party, formação de esquerda associada ao antigo líder trabalhista Jeremy Corbyn.
Rafael Costa critica em particular o Labour e a incapacidade de resolver problemas locais, como a greve dos trabalhadores da recolha do lixo. “O Labour vai perder a maioria na Câmara Municipal. Acho que vai ser interessante ter mais vozes a tentar mudar a cidade. Para melhor, espero”, afirmou.
Em Oxford, Tiago Corais tenta conquistar um quarto mandato pelo Partido Trabalhista. Natural de Braga, tem 47 anos e é engenheiro na indústria automóvel. Diz ter orgulho em ser um autarca acessível, próximo da comunidade e com capacidade de concretização nas áreas social, cultural e ambiental.
Ainda assim, admite que estas autárquicas são particularmente difíceis para os trabalhistas, devido à impopularidade do Governo de Keir Starmer. “A realidade é que governar é muito mais difícil do que estar na oposição”, resume.
Escócia e País de Gales também vão a votos
Embora o foco principal esteja em Inglaterra, a quinta-feira eleitoral também será decisiva na Escócia e no País de Gales.
Na Escócia, todos os 129 membros do Parlamento escocês estão em disputa. O SNP é favorito a continuar no poder, embora sem garantia de maioria. O Reform UK tem crescido no país e disputa espaço com o Labour escocês, num contexto em que a independência continua a dividir o eleitorado.
No País de Gales, a eleição será histórica. O Senedd passa de 60 para 96 membros e estreia um novo sistema eleitoral mais proporcional. O Labour pode perder o controlo pela primeira vez desde o início da devolução de poderes, em 1999, enquanto o Plaid Cymru surge com possibilidade real de liderar o Governo galês.
Quem pode votar e quando se conhecem os resultados
Nas eleições locais em Inglaterra, é preciso ter 18 anos para votar. Nas eleições para o Parlamento escocês e para o Senedd, a idade mínima é de 16 anos. Em todos os casos, os eleitores tinham de estar recenseados dentro do prazo.
As urnas abrem às 7h00 e fecham às 22h00, hora local. Em Inglaterra, quem votar presencialmente nas eleições locais terá de apresentar documento de identificação com fotografia, como passaporte ou carta de condução. Na Escócia e no País de Gales, não é necessário apresentar identificação para votar presencialmente nestas eleições.
A maioria das contagens deverá decorrer na sexta-feira. Em Inglaterra, os primeiros resultados podem surgir ainda de madrugada, mas muitos serão conhecidos ao longo de sexta e sábado. Na Escócia, o desenho do novo Parlamento deverá ficar claro durante a tarde ou noite de sexta-feira, salvo atrasos ou recontagens. No País de Gales, os primeiros resultados deverão surgir a partir da hora de almoço de sexta-feira, embora o novo sistema eleitoral possa tornar a contagem menos previsível.
Uma eleição local com consequências nacionais
Estas eleições decidem conselhos locais, mayors e parlamentos regionais, mas o seu significado é nacional. Para Keir Starmer, serão um teste ao desgaste do Governo trabalhista. Para Kemi Badenoch, podem confirmar a dificuldade dos conservadores em recuperar. Para Nigel Farage, são a oportunidade de provar que o Reform UK pode transformar protesto em poder local.
Ao mesmo tempo, a presença de mais de duas dezenas de candidatos lusófonos mostra como a comunidade portuguesa e de língua portuguesa está cada vez mais envolvida na política local britânica. De “Little Portugal” a Birmingham, de Crawley a Oxford, a votação desta quinta-feira também será um teste à representação política de uma comunidade que há décadas faz parte da vida social e económica de Inglaterra.







