Cabos submarinos no Médio Oriente sob ameaça: Como é que um ataque afetaria a economia global (em milissegundos)?

A possibilidade de sabotagem de cabos submarinos no Médio Oriente voltou a colocar esta infraestrutura crítica no centro das preocupações geopolíticas, num contexto marcado por tensões recentes na região.

Pedro Zagacho Gonçalves

A possibilidade de sabotagem de cabos submarinos no Médio Oriente voltou a colocar esta infraestrutura crítica no centro das preocupações geopolíticas, num contexto marcado por tensões recentes na região. Apesar de uma recente trégua entre Estados Unidos e Irão, mediada pelo Paquistão, especialistas alertam que os riscos permanecem e podem ter consequências diretas na economia global.

Estes cabos, responsáveis por transportar grande parte do tráfego mundial de internet entre a Europa, África e Ásia, atravessam zonas estratégicas e altamente sensíveis, como o estreito de Bab el-Mandeb, uma das principais entradas do Mar Vermelho, controlada por forças associadas aos hutis.

Rota crítica concentra até 20% do tráfego mundial de internet
Ao longo do Mar Vermelho, entre o Bab el-Mandeb e o Canal de Suez, passam atualmente cerca de 16 cabos submarinos, responsáveis por transportar entre 15% e 20% de todo o tráfego global de dados.

Trata-se de uma das ligações mais importantes para as telecomunicações internacionais, ligando diretamente centros europeus — com destaque para Marselha — a mercados africanos e asiáticos.

Entre os cabos mais relevantes estão o AAE-1 cable, com cerca de 25 mil quilómetros e ligação até à China, e os sistemas SEA-ME-WE cables (4, 5 e 6), com mais de 20 mil quilómetros de extensão e participação de gigantes tecnológicas como Google, Microsoft, Meta e Orange.

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Impacto no trading pode ser imediato
Segundo Carlos Dasi, diretor de operações, redes e sistemas da Telxius, uma eventual sabotagem não provocaria um colapso global, mas teria consequências relevantes, sobretudo no setor financeiro.

“Haveria um impacto, mas não seria um desastre a nível mundial, já que as redes têm resiliência suficiente para redirecionar o tráfego por outros caminhos”, explicou, apontando alternativas como rotas que contornam África ou atravessam o Pacífico até aos Estados Unidos.

Ainda assim, alerta para efeitos concretos: “Falamos de um retardo de 100 a 110 milissegundos que teria um impacto sobretudo no trading para temas financeiros e de bolsa”.

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Este atraso, embora aparentemente reduzido, pode ser significativo em operações de alta frequência, onde milissegundos fazem a diferença na compra e venda de ativos financeiros.

Empresas tecnológicas procuram alternativas para evitar zonas de risco
Face ao aumento das tensões geopolíticas, grandes empresas tecnológicas têm vindo a adaptar as suas estratégias. De acordo com Carlos Dasi, companhias como Google e Meta procuram evitar zonas instáveis através da chamada “triversidade”, ou seja, a criação de três rotas distintas para garantir redundância nas comunicações.

“Tratam de evitar essas zonas de conflito através da triversidade, tendo três caminhos para alcançar um ponto”, explicou.

O mesmo princípio já está a ser aplicado noutras regiões sensíveis, como o estreito de Gibraltar, onde a instalação de novos cabos tem sido limitada devido à complexidade operacional e ao intenso tráfego marítimo.

Estreito de Ormuz teria impacto apenas regional
No caso do estreito de Ormuz, também situado na região, o impacto de uma eventual interrupção seria significativamente menor. Segundo o responsável da Telxius, os cabos que ali passam são sobretudo de caráter local.

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“Esses cabos são locais, não são de trânsito. Teriam um impacto meramente regional”, afirmou.

A vulnerabilidade desta infraestrutura não é uma preocupação recente. No final de 2023, os rebeldes hutis, que controlam grande parte do Iémen, chegaram a ameaçar cortar cabos submarinos no Mar Vermelho.

A ameaça foi divulgada através de um canal no Telegram associado ao grupo, acompanhado de um mapa que destacava a importância estratégica da região como corredor global de comunicações.

Apesar disso, Carlos Dasi relativiza o impacto de ações isoladas: “Cortar cabos submarinos tem pouco percurso, porque o impacto na rede é mitigado e não traz vantagem geopolítica, geoestratégica ou económica significativa”.

Para causar efeitos verdadeiramente graves, seria necessário um cenário extremo: “Teria de se cortar todos os cabos do Mar Vermelho e possivelmente também os que ligam a Europa aos Estados Unidos, algo muito pouco provável”.

Infraestrutura vulnerável mas resiliente
Apesar da robustez da rede global, a possibilidade de ataques continua a preocupar organizações internacionais. Um relatório do International Gulf Forum já alertava que esta rede de cabos poderia ser um “alvo fácil” para ataques, dada a sua importância estratégica.

Até ao momento, contudo, não se registaram incidentes desta magnitude.

Reparações podem demorar mais de um mês
Caso ocorra uma falha, a reposição do serviço não é imediata. A reparação de cabos submarinos depende de vários fatores logísticos, incluindo a disponibilidade de navios especializados e de material de substituição.

“Primeiro é preciso saber onde está um navio disponível e onde está o cabo de substituição”, explicou Carlos Dasi.

Este processo pode ser demorado, já que o navio pode ter de se deslocar a diferentes pontos antes de iniciar a intervenção. Em média, “desde que há um problema até à sua resolução passam entre 30 e 35 dias”.

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