A Leroy Merlin tem vindo a reforçar o peso da sustentabilidade na sua estratégia, numa altura em que o tema ganha relevância crescente no setor do retalho e na economia em geral.
Em entrevista à Executive Digest, João Lavos, Diretor de Impacto Positivo e Sustentabilidade da Leroy Merlin Portugal, detalha as principais conclusões do Relatório de Sustentabilidade 2025, apontando avanços na eficiência operacional, no desenvolvimento de negócios circulares e nos desafios ainda por ultrapassar, com destaque para a descarbonização da atividade.
De que forma o Relatório de Sustentabilidade 2025 reflete uma mudança de ambição face aos anos anteriores?
O relatório de sustentabilidade de 2025 tem algumas evoluções, procurámos tornar o documento mais sintético, mais curto e mais interativo. Todos os anos procuramos melhorá-lo, fizemos muitas evoluções sobretudo do ponto de vista gráfico e para 2025 decidimos reduzir a sua dimensão, para que fosse mais fácil de analisar, ao mesmo tempo que simplificamos as mensagens inclusive através de vídeos explicativos curtos.
Até que ponto a sustentabilidade já está a contribuir diretamente para os resultados financeiros da Leroy Merlin?
A sustentabilidade aporta valor económico sobre várias perspetivas, desde logo na eficiência operacional, onde se destacam temas como o custo de gestão de resíduos ou os custos de eletricidade, a auto-produção ou a eficiência dos edifícios permitem-nos poupar centenas de milhares de euros cada ano.
Mas a nossa principal orientação está na evolução do negócio, integrar a sustentabilidade no modelo de negócio, desse ponto de vista trabalhamos 2 pontos fundamentais: a oferta de produtos e serviços sustentáveis e o desenvolvimento dos negócios circulares (alugueres, reparação, segunda vida). Podemos com satisfação constatar que tanto do ponto de vista da oferta como dos negócios circulares são ambos alavancadores da performance da empresa com crescimentos anuais bem superiores ao resto da atividade.
O crescimento de 14,3% nas vendas de soluções sustentáveis é um sinal de mudança estrutural no consumo ou ainda um nicho em expansão?
Diria que a resposta não está em nenhuma dessas hipóteses, não podemos dizer que estruturalmente o consumo se está a movimentar nessa direção, até porque se continua a verificar uma diferença entre a importância que o consumidor dá a estes assuntos e a sua valorização no momento da compra, mas não podemos de forma alguma dizer que se devem tratar como nichos, até porque a compra de artigos de segunda vida ou a eficiência energética são hoje temas valorizados por todos os consumidores.
No nosso caso o crescimento que temos conseguido resulta do trabalho sustentado, consistente e com forte ambição no desenvolvimento da nossa oferta sustentável, nos negócios circulares e no mercado da eficiência energética, em todos eles vemos uma crescente procura por parte dos consumidores e também procuramos impulsionar este movimento.
A nova sede da Leroy Merlin é apresentada como um “laboratório vivo”. Que indicadores ou experiências concretas da sede estão a influenciar decisões operacionais ou estratégicas?
Para nós o projeto da nova sede era uma questão de exemplaridade e demonstração de cultura de sustentabilidade, por isso, foi com muita atenção que gerimos a criação deste novo espaço sem esquecer o que estávamos a deixar, porque era importante assegurar a circularidade dos materiais dessa localização.
Efetivamente procurámos que o edifício fosse a demonstração de todas as nossas prioridades, desde logo na Gestão da Energia: utilizamos sistemas avançados de climatização e iluminação LED regulável. Estes sistemas são concebidos para se adaptarem à ocupação dos espaços e à luz solar disponível, otimizando o consumo energético e demonstrando uma gestão ativa e inteligente dos recursos energéticos. Neste capítulo temos a LEED Gold (Leadership in Energy and Environmental Design): Esta certificação focada na construção sustentável avalia e garante a eficiência energética do edifício, o consumo de água e a redução das emissões de CO₂.
Além disso, o design do espaço maximiza a entrada de luz natural, o que reduz a dependência de iluminação artificial. Esta abordagem não só contribui para a eficiência energética, mas também melhora o ritmo circadiano e o bem-estar dos colaboradores. Neste seguimento, também temos a certificação WELL Gold. Esta certificação foca-se especificamente na saúde e bem-estar dos ocupantes, analisando aspetos como a qualidade do ar e da água, a iluminação natural e o conforto térmico.
Estas características fazem da nova sede um exemplo prático e observável das estratégias de sustentabilidade da Leroy Merlin, permitindo testar e demonstrar inovações em eficiência e gestão de recursos que podem, por sua vez, influenciar decisões operacionais e estratégicas mais amplas na empresa. A própria Leroy Merlin comunica o seu relatório de sustentabilidade de 2025 com o tema “Mudamos de casa para melhorar a casa de todos os portugueses (e o planeta)”, começando a contar a história na nova sede.
Onde estão hoje as maiores dificuldades na descarbonização de uma operação desta escala?
A grande dificuldade no nosso processo de descarbonização está no produto, responsável por 93% da nossa pegada, sendo que o produto está no coração do nosso negócio e, por isso, descarbonizar na Leroy Merlin significa tocar no seu negócio.
Para nos ajudar neste percurso, temos realizado um intenso trabalho de evolução dos nossos processos de gestão, por forma a colocar o carbono na equação. Foi necessário também criar ferramentas de gestão, algumas delas onde temos inovado completamente. Hoje temos a pegada ao nível do produto a corresponder em 62% da nossa pegada total e inovámos criando a primeira metodologia de avaliação da sustentabilidade dos produtos da Casa, o Home Index. Neste momento estamos também a trabalhar para introduzir as métricas de carbono nos resultados económicos com a criação do EBITAC (EBIT after carbon).
Todas estas iniciativas procuram colocar a descarbonização nas atividades críticas, que podem influenciar os resultados, e medirmos o progresso das métricas associadas.
A sustentabilidade está a tornar-se um fator crítico na atração e retenção de talento?
Cada vez mais, sobretudo as gerações mais jovens, como os Millennials e a Geração Z, que constituem uma parte crescente da força de trabalho, procuram empregadores cujos valores estejam alinhados com os seus, e a sustentabilidade é frequentemente uma prioridade.
Penso que aqui o fator chave é mesmo o propósito, cada vez mais o talento quer estar alinhado com o propósito da organização onde trabalha, já não é só o alinhamento com os valores mas também com o sentido do trabalho que realizam e aqui vemos uma crescente importância da sustentabilidade como uma extensão do propósito e forma de estar na vida.
A presença de 36,5% de mulheres em cargos de liderança estratégica é suficiente ou ainda há um caminho significativo a percorrer?
Sabemos que a nossa sociedade, e não somente as empresas, têm de continuar a dar importância ao tema da diversidade de género. As empresas são um espelho da sociedade e sabemos que, por um conjunto de razões, ainda é muitas vezes difícil para uma mulher estar em pé de igualdade por uma oportunidade.
No nosso caso, a Leroy Merlin tem feito um caminho muito positivo neste capítulo, porque acreditamos que empresas com forças de trabalho mais diversificadas apresentam melhor desempenho. O objetivo é ter uma equipa que reflita a diversidade da sociedade, estando melhor preparada para compreender as necessidades dos clientes e oferecer respostas adequadas.
Temos vindo a desenvolver um conjunto de iniciativas como o lançamento da Política de Diversidade e Inclusão, a assinatura da Carta Portuguesa para a Diversidade, a realização de estudos sobre a igualdade salarial (gender pay gap e equal pay gap), programas de recrutamento inclusivo e capacitação através de formações como “Viés Inconsciente”. Criámos também a Comunidade Somar à Diferença e foram realizadas ações para inspirar a inclusão, destacando o papel das mulheres, e estamos agora a lançar o programa BoostHer, uma iniciativa de aceleração de liderança feminina desenhado para colaboradoras com alto potencial, principalmente pertencentes à área de Operações, com o objetivo de fortalecer e acelerar a sua progressão para cargos de liderança. Fruto de todo este esforço esperamos atingir 40% de liderança feminina em 2028.
Existe hoje um risco reputacional real para empresas que não avancem ao mesmo ritmo nesta agenda?
Sim, existe de facto um risco reputacional e já existem estudos académicos que estabelecem a relação entre esse impacto reputacional e a valorização da empresa em bolsa. Essa relação parece já muito evidente, mas gostaria de colocar o tema do ponto de vista da competitividade.
Começando pelas pessoas, o ativo mais importante de qualquer organização, sabemos que o talento trabalha por propósito. Os melhores profissionais, tendo poder de escolha, privilegiam empresas com valores claros. Paralelamente, os consumidores preferem, de forma crescente, marcas e produtos sustentáveis. Se somarmos a isto a gestão de risco, tanto na conformidade legal como na adaptação às alterações climáticas, torna-se evidente que a sustentabilidade não é apenas uma questão de reputação, mas um pilar essencial da competitividade.
Que metas ou indicadores gostaria de destacar no relatório de 2025 que ainda não foram alcançados?
Os nossos resultados têm sido consistentemente positivos, o que nos deixa satisfeitos com a trajetória percorrida e confiantes no futuro. No entanto, mantemos uma consciência clara dos desafios que enfrentamos, sobretudo no que toca à descarbonização. É aqui que pretendemos focar os nossos esforços: não só pela urgência na mitigação das alterações climáticas, mas também pela complexidade e rigor que este exercício de implementação exige.
Analisando os nossos resultados, o sentimento é de satisfação geral, mas com mais melhorias pela frente. Embora tenhamos reduzido a nossa pegada em 2% face a 2021, é crucial notar que 93% do nosso impacto provém da venda de produtos, categoria que cresceu 27% no mesmo período. Apesar deste desafio de escala, mantemos a ambição de reduzir a nossa pegada em 50% até 2035. Estamos plenamente comprometidos com esta trajetória, guiados pelo nosso propósito de ‘Fazer de todas as Casas um lugar Positivo para viver!’.














