Crise energética. Bruxelas pede sacrifícios aos europeus… e mantém deslocações milionárias para Estrasburgo

Grupo transversal de eurodeputados quer agora suspender essas viagens enquanto persistirem os riscos sobre energia e combustíveis

Francisco Laranjeira

A crise energética voltou a abrir uma das feridas históricas da União Europeia: as deslocações mensais do Parlamento Europeu entre Bruxelas e Estrasburgo. Um grupo transversal de eurodeputados quer agora suspender essas viagens enquanto persistirem os riscos sobre energia e combustíveis.

A informação foi avançada pelo ‘POLITICO’, que teve acesso a cartas enviadas à presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola.

Deputados pedem coerência à União Europeia

Nas cartas, deputados da esquerda europeia e também do grupo conservador ECR defendem que as instituições europeias devem dar o exemplo, numa altura em que Bruxelas pede a cidadãos e empresas para reduzirem consumos energéticos.

“Quando os Estados-membros e os cidadãos são chamados a tomar medidas imediatas para poupar energia, é apropriado que as instituições europeias liderem pelo exemplo”, escreveram vários eurodeputados, segundo o ‘POLITICO’.

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O alvo é o chamado “circo de Estrasburgo”: a transferência mensal de milhares de pessoas entre Bruxelas e França para as sessões plenárias.

4.000 pessoas em movimento todos os meses

Segundo o ‘POLITICO’, cerca de 4.000 deputados, assessores, funcionários e equipas técnicas deslocam-se todos os meses para Estrasburgo.

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Os críticos consideram que estas viagens representam: consumo elevado de combustível; emissões acrescidas de carbono; custos milionários; e sinal político contraditório

Quanto custa o modelo atual?

Um relatório do Tribunal de Contas Europeu, citado pelo ‘POLITICO’, estimava já em 2014 que o custo anual destas deslocações superava 113,8 milhões de euros.

Desde então, inflação, energia mais cara e custos logísticos terão agravado a fatura.

Porque o tema regressa agora

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A nova ofensiva surge após a recente escalada no Médio Oriente, com receios de perturbações no Estreito de Ormuz, subida do petróleo e escassez de combustível de aviação.

Analistas citados pelo ‘POLITICO’ alertam que uma crise prolongada poderá pressionar ainda mais preços energéticos globais.

Ou seja: enquanto Bruxelas pede contenção, o Parlamento continua com uma das rotinas logísticas mais polémicas da Europa.

Estrasburgo é intocável?

Politicamente, o tema é explosivo. Estrasburgo é sede oficial do Parlamento Europeu e França tem defendido esse estatuto durante décadas, bloqueando tentativas de mudança.

Durante a pandemia de Covid-19, as sessões em Estrasburgo foram suspensas por 15 meses, mas acabaram retomadas após pressão política de Paris.

Porque isto interessa a Portugal

Portugal, como contribuinte líquido para o orçamento europeu em várias áreas e dependente de energia importada, acompanha debates sobre eficiência e custos institucionais.

A discussão também toca um tema sensível para muitos europeus: se os cidadãos são chamados a apertar, as instituições devem fazer o mesmo?

O sinal político

Mais do que uma simples viagem mensal, Estrasburgo tornou-se símbolo de uma Europa dividida entre tradição política e exigência económica.

Com guerra, energia cara e pressão sobre famílias e empresas, cresce a pergunta em Bruxelas: até quando pode continuar este modelo?

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