A crise energética voltou a abrir uma das feridas históricas da União Europeia: as deslocações mensais do Parlamento Europeu entre Bruxelas e Estrasburgo. Um grupo transversal de eurodeputados quer agora suspender essas viagens enquanto persistirem os riscos sobre energia e combustíveis.
A informação foi avançada pelo ‘POLITICO’, que teve acesso a cartas enviadas à presidente do Parlamento Europeu, Roberta Metsola.
Deputados pedem coerência à União Europeia
Nas cartas, deputados da esquerda europeia e também do grupo conservador ECR defendem que as instituições europeias devem dar o exemplo, numa altura em que Bruxelas pede a cidadãos e empresas para reduzirem consumos energéticos.
“Quando os Estados-membros e os cidadãos são chamados a tomar medidas imediatas para poupar energia, é apropriado que as instituições europeias liderem pelo exemplo”, escreveram vários eurodeputados, segundo o ‘POLITICO’.
O alvo é o chamado “circo de Estrasburgo”: a transferência mensal de milhares de pessoas entre Bruxelas e França para as sessões plenárias.
4.000 pessoas em movimento todos os meses
Segundo o ‘POLITICO’, cerca de 4.000 deputados, assessores, funcionários e equipas técnicas deslocam-se todos os meses para Estrasburgo.
Os críticos consideram que estas viagens representam: consumo elevado de combustível; emissões acrescidas de carbono; custos milionários; e sinal político contraditório
Quanto custa o modelo atual?
Um relatório do Tribunal de Contas Europeu, citado pelo ‘POLITICO’, estimava já em 2014 que o custo anual destas deslocações superava 113,8 milhões de euros.
Desde então, inflação, energia mais cara e custos logísticos terão agravado a fatura.
Porque o tema regressa agora
A nova ofensiva surge após a recente escalada no Médio Oriente, com receios de perturbações no Estreito de Ormuz, subida do petróleo e escassez de combustível de aviação.
Analistas citados pelo ‘POLITICO’ alertam que uma crise prolongada poderá pressionar ainda mais preços energéticos globais.
Ou seja: enquanto Bruxelas pede contenção, o Parlamento continua com uma das rotinas logísticas mais polémicas da Europa.
Estrasburgo é intocável?
Politicamente, o tema é explosivo. Estrasburgo é sede oficial do Parlamento Europeu e França tem defendido esse estatuto durante décadas, bloqueando tentativas de mudança.
Durante a pandemia de Covid-19, as sessões em Estrasburgo foram suspensas por 15 meses, mas acabaram retomadas após pressão política de Paris.
Porque isto interessa a Portugal
Portugal, como contribuinte líquido para o orçamento europeu em várias áreas e dependente de energia importada, acompanha debates sobre eficiência e custos institucionais.
A discussão também toca um tema sensível para muitos europeus: se os cidadãos são chamados a apertar, as instituições devem fazer o mesmo?
O sinal político
Mais do que uma simples viagem mensal, Estrasburgo tornou-se símbolo de uma Europa dividida entre tradição política e exigência económica.
Com guerra, energia cara e pressão sobre famílias e empresas, cresce a pergunta em Bruxelas: até quando pode continuar este modelo?














