O Japão anunciou a criação de uma nova designação oficial para dias em que as temperaturas atingem ou ultrapassam os 40 graus Celsius, na sequência do verão mais quente desde que há registos no país. O termo escolhido é “kokushobi”, expressão que pode ser traduzida como “dia cruelmente quente”, “brutalmente quente” ou “severamente quente”, e que passará a ser utilizado nas previsões meteorológicas para alertar a população para episódios de calor extremo.
A decisão surge depois de o verão de 2025 ter sido o mais quente alguma vez registado no Japão, com temperaturas médias nacionais 2,36°C acima da média histórica, de acordo com os dados oficiais.
Segundo as autoridades meteorológicas japonesas, o verão passado estabeleceu um novo recorde desde o início dos registos, em 1898. Entre junho e agosto, as temperaturas ultrapassaram os 40°C em nove dias distintos.
O ponto mais extremo foi registado a 5 de agosto, na cidade de Isesaki, onde os termómetros atingiram os 41,8°C — a temperatura mais elevada alguma vez registada no país.
Para comparação, em 2024 tinham sido contabilizados apenas quatro dias com temperaturas de 40°C, sendo o valor máximo então observado de 41°C, na cidade de Sano.
A Agência Meteorológica do Japão já antecipou que o verão deste ano deverá voltar a ser mais quente do que a média, prevendo-se temperaturas elevadas em várias regiões do país.
‘Kokushobi’ escolhido por votação pública
O termo “kokushobi” foi selecionado através de uma votação pública realizada online no início deste ano, na qual participaram cerca de 203 mil pessoas. A designação vencedora recolheu mais do triplo dos votos obtidos pelo segundo classificado, “chōmōshobi”, que significa “dia super extremamente quente”.
A decisão final teve também em conta a avaliação de especialistas, que consideraram o termo socialmente familiar e linguisticamente apropriado para o contexto japonês.
A palavra utiliza o carácter japonês “koku” (酷), que significa “duro”, “severo” ou “cruel”, reforçando a ideia de um calor particularmente extremo e potencialmente perigoso.
Entre as outras propostas submetidas à votação figuravam “gekiatsubi”, que remete para um calor brutal e explosivo; “shakunetsubi”, evocando uma sensação de calor abrasador que parece queimar a pele; e “futtobi”, sugerindo um dia tão quente que parece que o próprio mundo está a ferver.
Primeira nova categoria desde 2007
Esta é a primeira vez desde 2007 que a Agência Meteorológica do Japão introduz um novo termo na sua classificação oficial de temperaturas. Nesse ano foi criado o termo “mōshobi”, utilizado para designar dias com temperaturas superiores a 35°C.
Atualmente, o sistema de classificação japonês categoriza os dias com 25°C ou mais como “natsubi” (dia de verão); acima de 30°C como “manatsubi” (dia de pleno verão); e acima de 35°C como “mōshobi” (dia extremamente quente). A partir de agora, os dias com 40°C ou mais passarão a ser identificados como “kokushobi”.
Impactos na saúde e na economia
O calor extremo representa riscos significativos para a saúde pública, incluindo queimaduras solares, exaustão térmica, golpes de calor e até mortes. Além disso, as temperaturas elevadas têm impactos diretos na atividade económica, sobretudo em setores que dependem do trabalho ao ar livre, que muitas vezes é suspenso durante ondas de calor intensas.
As escolas são também frequentemente obrigadas a encerrar temporariamente para proteger alunos e professores.
Crise climática agrava fenómeno
Os cientistas atribuem grande parte da intensificação das ondas de calor à crise climática, em particular ao aquecimento das águas em redor do arquipélago japonês. O aumento da temperatura da superfície do mar contribui para prolongar o calor até ao outono, além de favorecer precipitações mais intensas e tufões mais fortes.
A nível global, 2025 foi o terceiro ano mais quente de que há registo, tanto no mundo como na Europa, segundo dados do Copernicus. Os três anos mais quentes alguma vez registados a nível global foram 2024, 2023 e 2025.
Um relatório do Copernicus identifica duas razões principais para o aquecimento excecional entre 2023 e 2025: a acumulação contínua de gases com efeito de estufa na atmosfera — devido às emissões persistentes e à menor absorção de dióxido de carbono por sumidouros naturais como as florestas — e as temperaturas extraordinariamente elevadas da superfície do mar, associadas a um fenómeno El Niño e a outros fatores de variabilidade oceânica, amplificados pelas alterações climáticas.
Enquanto os combustíveis fósseis continuarem a ser utilizados em larga escala, as temperaturas globais deverão continuar a subir, colocando em risco milhões de vidas, habitações e atividades económicas.
No contexto da atual crise energética, associada ao encerramento efetivo do Estreito de Ormuz, fontes de energia renovável como a eólica e a solar têm reforçado o seu papel. A transição energética depende em larga medida das decisões governamentais, nomeadamente através da redução de subsídios aos combustíveis fósseis, mas também da ação individual, como a instalação de painéis solares domésticos e a redução do consumo energético.







