O próximo membro da União Europeia será do Norte?

Localizada no extremo norte do continente, entre placas tectónicas e com uma economia apoiada em energia geotérmica e recursos naturais, a Islândia sempre manteve uma relação ambivalente com Bruxelas

Francisco Laranjeira

A Islândia prepara-se para uma decisão que pode redefinir a sua posição na Europa: o Governo vai levar a referendo, a 29 de agosto, a retoma das negociações de adesão à União Europeia, num contexto marcado por novas tensões geopolíticas no Ártico, escreve o ‘ABC’.

Localizada no extremo norte do continente, entre placas tectónicas e com uma economia apoiada em energia geotérmica e recursos naturais, a Islândia sempre manteve uma relação ambivalente com Bruxelas. Nunca aderiu à UE, tal como a Noruega, mas integra o Espaço Económico Europeu, adotando grande parte das regras europeias sem participar na sua definição.

Agora, esse equilíbrio pode estar a mudar. A invasão da Ucrânia pela Rússia e a crescente disputa por influência no Ártico — envolvendo também a China — estão a alterar perceções internas. A maioria dos islandeses já apoia a retoma do processo de adesão, ainda que exista um número significativo de indecisos.

O contexto recente ajudou a acelerar esta viragem. A pressão exercida por Donald Trump sobre a Dinamarca para ceder a Gronelândia aos Estados Unidos reacendeu preocupações sobre a vulnerabilidade estratégica da região. Em Reykjavik, a bandeira da Gronelândia chegou a ser hasteada em sinal de solidariedade.

“A questão da Gronelândia demonstrou o quão valiosa é a adesão à UE para a Dinamarca”, afirmou a ministra dos Negócios Estrangeiros islandesa, Thorgerdur Katrin Gunnarsdottir, defendendo que integrar o bloco europeu reforçaria a capacidade de resistência a pressões externas.

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Mais adiante, o ‘ABC’ sublinha que a Islândia é particularmente exposta: com menos de 400 mil habitantes e sem exército próprio, é o único membro da NATO nessa condição. A incerteza quanto ao compromisso dos Estados Unidos com os aliados europeus tem reforçado o debate interno.

Além da segurança, há também razões económicas. A adesão permitiria ao país adotar o euro e reduzir a volatilidade da coroa islandesa, além de garantir maior influência nas regras do mercado único, que atualmente aplica sem poder de decisão.

Ainda assim, o caminho não será simples. A Islândia quer manter o controlo sobre os seus recursos pesqueiros — um tema historicamente sensível, que já gerou conflitos com o Reino Unido no passado — e espera concessões de Bruxelas nesse domínio.

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A União Europeia mostra-se disponível para retomar negociações e recorda os avanços rápidos registados quando a candidatura foi apresentada, em 2009. No entanto, há resistências internas no bloco a acordos específicos, especialmente após o precedente do Brexit.

Apesar da mudança de atitude, o euroceticismo continua presente. Parte da população valoriza a independência conquistada ao longo da história e teme que a adesão implique perda de soberania. A líder da oposição, Gudrun Hafsteindottir, considera as negociações “inúteis” e alerta para a eventual imposição de regras europeias.

Ao contrário da Noruega, que rejeitou a adesão num referendo em 1994, os islandeses nunca foram chamados a votar diretamente sobre o tema. Isso pode mudar agora — e o resultado poderá ter impacto muito além da ilha.

“O poder está com o povo. Deixem o povo decidir”, resume a chefe da diplomacia islandesa, num momento em que a Europa observa com atenção um possível novo alargamento… vindo do extremo norte.

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