A central nuclear desativada de Central Nuclear de Chernobyl poderá enfrentar um cenário “catastrófico” caso não sejam reforçadas as estruturas de proteção que envolvem o reator destruído em 1986, alertou esta terça-feira a organização ambientalista Greenpeace. Em causa está o risco de libertação de poeiras altamente radioativas para o ambiente, numa altura em que se aproxima o 40.º aniversário do pior acidente nuclear da história.
O desastre ocorreu a 26 de abril de 1986, quando a Ucrânia integrava ainda a União Soviética. A explosão de um dos reatores contaminou vastas áreas da Ucrânia, da Bielorrússia e da Rússia. Para conter a radiação, foi construída à pressa uma estrutura interna de aço e betão — conhecida como sarcófago — destinada a envolver o reator destruído e evitar novas fugas.
Décadas mais tarde, em novembro de 2016, foi instalada uma segunda camada de proteção, uma cúpula metálica de alta tecnologia designada New Safe Confinement (NSC), num investimento de 1,5 mil milhões de euros. Esta estrutura foi concebida para reforçar o confinamento do reator e permitir intervenções mais seguras no interior do complexo.
Ataque com drone degradou estrutura
Desde o início da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022, Kiev tem acusado Moscovo de visar repetidamente a central. Em fevereiro do ano passado, um drone russo atingiu a estrutura exterior de proteção.
A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) não detetou inicialmente fugas de radiação. Contudo, em dezembro confirmou que o impacto degradou a estrutura de aço e que esta deixou de cumprir plenamente a sua função de bloqueio da radiação.
O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, afirmou que uma inspeção “confirmou que a [estrutura de proteção] perdeu as suas principais funções de segurança, incluindo a capacidade de confinamento, mas também constatou que não havia danos permanentes nas estruturas portantes nem nos sistemas de monitorização”. Acrescentou que, apesar de terem sido realizados alguns trabalhos de reparação, “a restauração completa continua essencial para evitar nova degradação e garantir a segurança nuclear a longo prazo”.
Reparações estimadas em 500 milhões de euros
No mês passado, o ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Jean-Noel Barrot, avançou com uma primeira estimativa financeira dos danos. “Apresentámos esta noite a primeira estimativa financeira dos danos causados por este drone, que ascende a cerca de 500 milhões de euros”, declarou após presidir a uma reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros do G7, em março.
Segundo a Greenpeace, apesar de alguns esforços de reparação, o escudo de proteção não foi totalmente restaurado, o que aumenta significativamente o risco de libertação de radioatividade, sobretudo num cenário de colapso da estrutura interna.
Shaun Burnie, especialista principal em energia nuclear da Greenpeace na Ucrânia, advertiu, em declarações à AFP no início do mês, que o cenário seria dramático: “Isso seria catastrófico porque há quatro toneladas de pó, pó altamente radioativo, pastilhas de combustível, enormes quantidades de radioatividade dentro do sarcófago.” Sublinhou ainda que “como o New Safe Confinement não pode ser reparado neste momento, não pode funcionar como foi concebido, o que abre a possibilidade de libertações radioativas”.
Risco acrescido com novos ataques
A desmontagem dos elementos instáveis da estrutura interna é considerada crucial para evitar um colapso descontrolado, mas novos trabalhos no local têm sido dificultados pelos ataques contínuos atribuídos à Rússia.
O diretor da central, Sergiy Tarakanov, alertou igualmente que um eventual impacto de míssil nas imediações poderá comprometer a integridade da estrutura. “E, como o acidente de 1986 nos mostrou… as partículas radioativas não conhecem fronteiras”, afirmou, recordando que qualquer libertação significativa de radiação poderá ter consequências transfronteiriças.













