A Comissão Europeia afirmou esta quarta-feira que a Rússia não pode ser considerada um parceiro fiável, reagindo à divulgação de documentos oficiais que revelam a assinatura de um acordo entre a Hungria e Moscovo poucos dias antes das eleições parlamentares marcadas para domingo.
Em resposta a questões colocadas sobre documentos do governo russo tornados públicos na terça-feira, que indicam que Budapeste negociou com o Kremlin um conjunto alargado de áreas de cooperação, a vice-porta-voz principal da Comissão, Arianna Podestà, foi categórica: “A nossa posição sobre a fiabilidade da Rússia é muito clara — é um parceiro pouco fiável. Já o demonstrou no sector da energia.” Sem entrar em pormenores sobre o conteúdo específico do acordo, acrescentou: “Não tendo os detalhes concretos, não faremos mais comentários.”
Os documentos, assinados pelo ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria, Péter Szijjártó, estabelecem prioridades comuns em matérias que incluem “questões atuais do comércio bilateral e da cooperação económica, atividades conjuntas no sector da energia, indústria, cuidados de saúde, agricultura, construção e outras áreas de interesse mútuo, bem como na esfera cultural e humanitária”.
Entre as iniciativas previstas encontram-se a expansão da cooperação na indústria de energia nuclear, o reforço do apoio a professores de língua russa e a estudantes de pós-graduação russos na Hungria, além do lançamento de novas parcerias entre equipas desportivas e universidades dos dois países.
A revelação do acordo surge num momento politicamente sensível, a poucos dias de eleições consideradas decisivas para o futuro político da Hungria.
Eleições decisivas e política externa no centro do debate
A orientação da política externa húngara tornou-se uma das principais linhas de fratura na campanha para as eleições parlamentares de domingo. O primeiro-ministro Viktor Orbán enfrenta o desafio mais exigente dos seus 16 anos no poder.
Orbán, líder populista veterano que tem aprofundado relações com o Kremlin e bloqueado sanções da União Europeia contra a Rússia, surge atrás do candidato de centro-direita Péter Magyar nas sondagens. A disputa eleitoral ganhou intensidade à medida que a proximidade a Moscovo passou a dominar o debate político interno.
O chefe do Governo acusou o seu rival de alinhar com Bruxelas, alegando que essa posição poderia “arrastar o país para uma guerra” e comprometer o acesso da Hungria aos combustíveis fósseis russos. Por seu lado, Péter Magyar defendeu que o actual executivo deve ser investigado por eventual traição, tendo em conta os laços estabelecidos com o Kremlin.
Bruxelas mantém posição firme sobre Moscovo
A reação da Comissão Europeia reforça a linha oficial de Bruxelas relativamente à Rússia, particularmente no contexto da guerra na Ucrânia e das tensões energéticas que marcaram os últimos anos. Ao sublinhar que Moscovo “não honra os seus compromissos”, a instituição europeia voltou a colocar em causa a credibilidade do Kremlin enquanto parceiro estratégico.
Com as eleições à porta, as revelações sobre o acordo com a Rússia e a resposta firme da Comissão Europeia acentuam a polarização política na Hungria, transformando a relação com Moscovo num dos temas centrais da disputa eleitoral.










