A guerra no Médio Oriente voltou a colocar no centro do debate uma questão antiga — o chamado “peak oil” —, mas agora com um sentido mais urgente: não quando o petróleo vai acabar, mas quando poderá faltar de forma imediata. A análise do Goldman Sachs, citada pelo ‘Jornal de Negócios’, aponta para um cenário de forte disrupção no mercado global, com cerca de 20% do petróleo mundial a ser retirado diariamente devido às limitações no estreito de Ormuz.
O impacto ainda não foi totalmente sentido nos primeiros dias do conflito, sobretudo por causa da logística do setor. Como o transporte de crude por petroleiro pode demorar cerca de um mês, os carregamentos realizados antes da guerra continuaram a chegar aos destinos ao longo de março, atenuando temporariamente a escassez.
O atraso que esconde o choque
Apesar desse “amortecedor”, os sinais de pressão estão a intensificar-se. À medida que as importações diminuem e os stocks começam a cair, vários países — sobretudo na Ásia — poderão enfrentar dificuldades mais visíveis no abastecimento.
Segundo os analistas, os países asiáticos (excluindo a China) partiam já de níveis de reservas mais baixos, com cerca de um mês de consumo, bem abaixo dos cerca de 50 dias registados na Europa. Esta fragilidade é agravada pelo facto de a região depender fortemente do golfo Pérsico, que assegura cerca de metade do abastecimento de produtos refinados.
Ainda assim, algumas economias estão melhor preparadas para resistir ao choque. Países com grandes reservas estratégicas, como China e Japão, têm maior capacidade para compensar a quebra nas importações, recorrendo a stocks acumulados e à produção interna.
Preços disparam — e revelam o risco
Se a escassez física ainda está a emergir, os preços já refletem a tensão. Desde o início do conflito, os combustíveis têm registado subidas acentuadas, sobretudo o gasóleo e o combustível de aviação.
De acordo com o Goldman Sachs, os preços grossistas destes produtos aumentaram, em média global, entre 130 e 140 dólares por barril (cerca de 120 a 130 euros), o que corresponde a uma subida de aproximadamente 150%.
Este aumento não reflete apenas a falta imediata de oferta, mas também um efeito preventivo: países e empresas estão a reforçar reservas por precaução, intensificando ainda mais a pressão sobre os preços.
Governos já reagem à escassez
O impacto começa também a sentir-se ao nível das decisões políticas. Em vários países surgem sinais de racionamento e medidas de contenção.
A Coreia do Sul já limitou a utilização de veículos do setor público, enquanto nas Filipinas foi declarada emergência nacional de combustível. Na Índia e na Tailândia, o tema domina o noticiário, refletindo a crescente preocupação com a disponibilidade de energia.
Estas respostas antecipam um cenário mais grave caso o bloqueio no estreito de Ormuz se prolongue.
“Abril negro” à vista
O alerta mais duro surge da Agência Internacional de Energia. O seu diretor executivo, Fatih Birol, admite que a situação pode deteriorar-se rapidamente se não houver uma solução no curto prazo.
Se o bloqueio persistir, o mundo poderá enfrentar um “abril negro”, marcado por um choque energético com consequências económicas significativas.
A equação é simples — e preocupante: menos petróleo disponível, preços em forte alta e uma economia global altamente dependente desta matéria-prima. Se o fluxo não for restabelecido rapidamente, o impacto deixará de ser apenas uma ameaça para se tornar realidade.














