Em Portugal, as PME’s representam 99% do tecido empresarial. Falamos em sustentabilidade, falámos no desafio do relato obrigatório, e agora falamos no relato voluntário! Finalmente, reconhecemos que sustentabilidade é estratégia, que é gestão, que é resultados. Para as PME’s, qual é agora (ou sempre foi) o verdadeiro desafio da sustentabilidade?
A União Europeia publicou, em fevereiro de 2026, o Pacote Omnibus que introduz um conjunto de alterações à diretiva europeia de relato de sustentabilidade – Corporate Sustainability Reporting Directive (CSRD) – simplificando e reduzindo as exigências regulatórias. Uma das alterações é a redução do âmbito de aplicação. A obrigação de elaborar e publicar o relato de sustentabilidade à luz das ESRS (European Sustainability Reporting Standards) passa a ser obrigatório apenas para as empresas com um número médio de empregados superior a 1000 e com um volume de negócios superior a 450 milhões de euros, durante o período económico.
Também o relato por via integração na cadeia de valor estará sujeito a menor pressão regulatória. Na versão anterior, as empresas sujeitas ao relato CSRD podiam exigir aos parceiros de negócio a informação prevista pelas ESRS. O Omnibus vem agora limitar a exigência destes pedidos a parceiros com até 1000 trabalhadores. E para acautelar pedidos de informação excessivos, o Ominbus prevê ainda que a solicitação de informação, a parceiros da cadeia de valor, fique limitada aos requisitos da Norma Voluntária para PME’s (VSME – Voluntary Sustainability Reporting Standard for SMEs).
As PME’s, mesmo as cotadas em bolsa, ficam definitivamente excluídas da obrigatoriedade de apresentar relato à luz das ESRS. E poucas serão obrigadas a relatar por via da integração na cadeia de valor. E agora? Dispensadas do relato, como vão estas empresas tratar a sustentabilidade? Felizmente, muitas destas empresas prepararam, nos últimos anos, as equipas, os sistemas de informação e modelos de gestão para apresentar relato de sustentabilidade obrigatório, por via da cadeia de valor ou de forma voluntária. Num primeiro momento, incluíram o tema da sustentabilidade para responder meramente aos temas do compliance e da reputação. Mas este movimento trouxe ao de cima o quão relevante é integrar a sustentabilidade no negócio, no dia a dia das operações. A sustentabilidade passou a ser um tema da estratégia e do controlo de gestão, ou pelo menos assim deveria e deverá ser.
A grande virtude do Omnibus é o reconhecer que o verdadeiro desafio da sustentabilidade nas PME’s não é o relato, é a gestão! O relato é uma consequência natural do que se pratica na gestão! Por todo o lado se escreve agora que sustentabilidade é estratégia, é finanças, é controlo de gestão. Como se tal fosse uma grande novidade. Sustentabilidade sempre foi gestão! E este é o verdadeiro desafio das PME’s. Desenvolver estratégias e sistemas de controlo de gestão que coloquem o foco na performance do negócio e, em simultâneo, nas variáveis críticas dos 3 pilares da sustentabilidade – Environmental, Social and Governance (ESG). Depois há que perceber que o relato, mesmo que voluntário, contribui favoravelmente para a reputação e relação com os stakeholders, em particular, com os clientes, investidores e financiadores.
A integração das práticas e do relato da sustentabilidade nas operações das PME’s deve ser assertiva e ter em conta que os recursos são limitados. Os gestores, as equipas estão (ou deveriam estar) familiarizados com o relato de informação operacional, particularmente informação de natureza não financeira. Muita desta informação é recolhida de forma automática por sistemas de informação e tratada para efeitos de reporting de gestão. Para as empresas, fazer relato não é novidade. Fazem-no para a qualidade, para o relatório e contas, para o compliance, para as certificações. O reporting, mais ou menos completo, mais ou menos automatizado, mais ou menos financeiro, é o resultado das operações.
O desafio agora é integrar a sustentabilidade nos sistemas de controlo de gestão: formalizar, dentro do modelo de gestão, objetivos e ações, para os temas ESG; prever os investimentos necessários; definir os KPI’s (key performance indicators) e as metas para a área de sustentabilidade; monitorizar os objetivos e ações do ESG, em simultâneo, com as restantes dimensões de performance; criar modelos colaborativos e de reporting junto dos stakeholders; incluir objetivos da sustentabilidade no sistema de remuneração.
É ainda crítico que as equipas de gestão tenham conhecimento sobre a forma como os objetivos e ações da sustentabilidade impactam na performance do negócio. Podemos chamar-lhe literacia da sustentabilidade – A instalação dos redutores de caudal de água, permitiu reduzir o consumo de água em 15%. Contribuímos um ambiente mais sustentável e ainda gerámos uma poupança de 20 mil euros, com impacto direto no resultado da empresa.
A integração do tema da sustentabilidade nos sistemas de controlo de gestão coloca o tema na agenda das discussões estratégicas e dá visibilidade aos gestores sobre como os pilares ESG impactam na performance financeira e não financeira, mesmo que a prazo. A sustentabilidade é um tema da performance organizacional tal como o é a qualidade, a inovação, o serviço ao cliente.
Nas PME’s os desafios da sustentabilidade são os desafios de sempre. São desafios que resultam das dificuldades no acesso a recursos, da debilidade dos sistemas de controlo de gestão, da ausência de sistemas de informação, das resistências em investir na formação em gestão, muitas vezes por que se assume já saber tudo!
Formem-se gestores em gestão!
Implementem-se boas práticas de gestão e de controlo de gestão!
E a sustentabilidade estará na agenda das PME’s tal como estarão outros drivers da performance! Independentemente do relato.




