Nascido no Rio de Janeiro, no dia de Carnaval, depois de os seus pais terem ido passar um período no Brasil, Filipe Nunes de Almeida carrega uma identidade híbrida que acabaria por marcar decisivamente o seu percurso profissional. Regressado aos dois anos a Portugal, o filho mais novo de uma família de engenheiros e economistas, a «ovelha negra», como assim se apelida, desde cedo percebeu que o seu caminho seria diferente: escolheu o marketing e a publicidade, abraçou o risco e tornou-se empreendedor – o único da família. Em 2010, em pleno auge da crise económica em Portugal, decidiu trocar a segurança de estar no país do coração por uma aposta improvável: recomeçar do zero em São Paulo, com poucos recursos, nenhuma rede estruturada e uma enorme vontade de construir algo próprio.
Quinze anos depois, é CEO e fundador da Agulha no Celeiro, uma boutique imobiliária especializada no segmento de luxo, que hoje serve a elite económica brasileira e conta com uma equipa de 50 pessoas, depois de um percurso marcado por resiliência, método e uma visão muito clara sobre reputação e confiança nos negócios.
Em entrevista à Executive Digest, Filipe Nunes de Almeida fala sem filtros sobre o que significa empreender no Brasil, as diferenças culturais profundas entre os dois países, os desafios de operar num mercado que descreve como «o faroeste do século XXI» e a forma como um olhar português se tornou uma vantagem competitiva num dos mercados imobiliários mais complexos e dinâmicos do mundo.
O QUE DIZ FILIPE…
Em que momento decidiu abraçar o desafio de empreender no estrangeiro em vez de o fazer em Portugal?
Em Agosto de 2010, Portugal estava no auge da crise. Eu estava sem emprego e na boa vida de Verão, praia e festa, mas já estava cansado. Sempre quis morar fora e, por ter nascido no Rio de Janeiro, no Carnaval às 23h50, tinha a cidadania brasileira e era um trunfo. Pensei dois dias e decidi dizer ao meu pai que ia experimentar viver no Brasil por três meses, sem saber exactamente o que faria. Fiz uma festa de despedida e, no dia seguinte, embarquei para a maior aventura da minha vida, que acabou por ser a melhor decisão que podia ter tomado.
Cheguei a São Paulo com 5000 euros, que duraram apenas três meses. Raspei todas as economias, vendi o carro e consegui mais 5000, mas em Janeiro só tinha 300 euros. Pedi ajuda à família, mas só me disseram para regressar. Mas isso não era opção para mim. Consegui ficar a dormir na casa de um amigo.
Como jogava poker desde a adolescência, depositei o dinheiro num site e, como estava entre a vida e a morte (voltar para Portugal), decidi jogar como um profissional. Num mês consegui fazer 5000 dólares, e decidi que era altura de apertar nas despesas. Nos primeiros seis meses, nada fazia sentido. Trabalhar das nove às cinco não era opção. Em Fevereiro, ao ajudar um amigo a procurar um apartamento, entrei em contacto com uma imobiliária e tive o meu momento “Eureka”: era o mercado certo para mim e entrei de pés e cabeça.
Entretanto, tive a ajuda de um grande amigo do meu pai, Adalberto Summavielle, que me pagava 500 reais para tratar de rendas, e o meu pai também começou a ajudar-me com mais 500. Em Outubro, saí e criei a Agulha no Celeiro. Com boas fotografias e imóveis seleccionados, comecei a anunciar no Craigslist para expatriados e outros canais gratuitos.
Alguns meses depois fechei o primeiro arrendamento que me deu 8000 reais, comprei uma scooter e ganhei autonomia. Cerca de um ano depois consegui a primeira venda, contratei uma secretária, lancei o website e, com a terceira venda, aluguei um apartamento para mim.
Como é que a sua experiência enquanto português influenciou a forma como olha para o mercado imobiliário brasileiro?
Trouxe-me um olhar mais europeu sobre reputação, seriedade e compromisso: palavra dada, expectativa bem gerida e consistência. No imobiliário brasileiro, isso foi uma vantagem competitiva, porque a confiança – no fim do dia – é a base de qualquer negócio. Quando o cliente percebe seriedade, transparência e previsibilidade, ele avança.
Quais os maiores desafios que enfrentou ao estabelecer‑se no Brasil e como os ultrapassou?
Quando falam que Brasil e Portugal são países irmãos, isso não é verdade. Diria que são primos em sexto grau que foram criados em países diferentes. A única coisa que os aproxima é a língua.
Tive, e ainda tenho, todos os tipos de desafios. Para trabalhar aqui tem de se ter estômago de ferro. A palavra ética existe no dicionário, mas no mundo dos negócios é uma palavra oca.
No mercado imobiliário a coisa ainda fica mais grave. É um mercado onde a “malandragem” prospera e floresce. Anualmente, tenho pelo menos 30 a 50 tentativas de bypass (tentativa de comprar sem corretor), seja de outros corretores, seja dos clientes proprietários ou dos compradores.
No mundo dos negócios, gosto de definir o Brasil como o faroeste do século XXI. Corretores que entram na empresa só para roubar cadastros, fazem negócios por fora, já foram tantos casos. Tenho uma equipa de 20 pessoas actualmente, mas já demiti mais de 150 ao longo da história da empresa.
Há algum detalhe da cultura brasileira que o inspirou a inovar no seu trabalho? Algo que nunca teria pensado em Portugal?
Há um traço do Brasil que me empurrou para inovar: a capacidade de fazer diferente quando o contexto pede. No mercado publicitário, aprendi uma grande lição – “quando o mundo faz zigue, faça zague” – e isso, no Brasil, torna-se uma vantagem competitiva rapidamente. O mercado é muito relacional, muito baseado em confiança e presença e, como não cresci aqui, precisei de criar o meu lugar não pelo “quem conhece quem”, mas pelo “como se faz”.
Foi assim que a cultura brasileira me influenciou directamente: a informalidade e a velocidade do dia-a-dia tornam o sector menos padronizado do que na maioria dos mercados mais maduros.
A minha resposta foi construir operação – método, filtros e padrões – para garantir uma experiência impecável para o cliente, mesmo num ambiente acelerado e exigente. Em Portugal, talvez tivesse optimizado com mais calma; no Brasil, percebi cedo que processo não é burocracia: é a única forma de escalar excelência.
Há um perfil de clientes que mais procura os vossos serviços (investidores, expatriados, famílias de alto padrão)?
A Agulha no Celeiro desde cedo se especializou no mercado de luxo e isso atraiu muita atenção para este modelo boutique que foi amplamente. Actualmente, os nossos clientes são os 2% do topo da pirâmide do Brasil. Trabalhamos com investidores, advogados, empresários, grandes nomes do mercado financeiro e já vendemos para cinco famílias bilionárias que figuram na lista da Forbes Brasil.
Qual é a importância do mercado português para vocês? Há um fluxo significativo de compradores ou investidores portugueses?
Infelizmente, não. É raro atendermos clientes portugueses, porque é sempre bom ajudar Patrícios [termo utilizado pelos brasileiros que designa um habitante de Portugal]. Mas o inverso acontece, isto é, muitos clientes brasileiros querem comprar em Portugal.
Enquanto empresário português no Brasil, de que forma mantém laços profissionais e pessoais com Portugal?
Profissionalmente, o caminho que escolhi foi fazer parcerias com empresas locais e vender para clientes brasileiros. Como o meu negócio ainda estava em desenvolvimento, infelizmente não consegui surfar devidamente a onda de real estate em Portugal, entre 2012 e 2019. Sou uma pessoa que valoriza relações longas e mantenho uma grande proximidade com os meus amigos de toda a vida, vou frequentemente a Lisboa, até mais do que deveria.
Qual foi o momento em que sentiu mais saudade de Portugal desde que se mudou para São Paulo? E qual foi a solução que encontrou para a matar?
Já estou no Brasil há 15 anos e as saudades são permanentes.
Os primeiros anos foram os mais difíceis, estava longe dos amigos e família, numa cidade hostil, a começar uma vida do zero. E pior, não tinha dinheiro para viajar. Apesar de morar fora, mantenho as minhas amizades bem vivas. Falo todas as semanas com os meus amigos e família. À medida que a empresa foi crescendo, fui ganhando mais dinheiro, o que me permitiu visitar com mais frequência, e hoje vou pelo menos quatro vezes por ano a Lisboa. A solução para a saudade é presencialmente e manter as amizades com as pessoas que mais importam na minha vida.
Olhando aos próximos cinco anos, a Agulha no Celeiro tem um plano de expansão?
Tenho alguns planos de expansão para outros negócios satélite ao mercado imobiliário. Em Março de 2026, vou lançar com outros sócios o primeiro marketplace especializado no imobiliário de luxo em São Paulo, que representa mais de 50% do PIB do país. E tenho um outro projecto que está em fase embrionária, ainda não posso contar. Afinal, o segredo é a alma do negócio.
Que conselhos daria a empreendedores portugueses que pensam em criar um negócio no estrangeiro?
Os portugueses têm por natureza um espírito empreendedor, o famoso desenrascado. Começar qualquer negócio nunca é fácil. Na minha opinião, o melhor conselho é, sem dúvida, não ter medo de dar o primeiro passo, ter uma visão suficientemente grande e sobretudo muita perseverança e resiliência. Assim como Roma e Pavia não se fizeram num dia, nada acontece do dia para a noite. Se a condição financeira não for tão precária como a minha foi, invista em boas pessoas.
Este artigo foi publicado na edição de Fevereiro (n.º 239) da Executive Digest.




