A entrevista pressupunha falarmos sobre os seus hobbies e de que forma estes impactavam (e ajudavam) o seu dia-a-dia na empresa que lidera. No entanto, surgiu um oceano de oportunidades para conversarmos, entre o Mar, Automóveis (clássicos), Arte, Vinhos, Desporto e, imagine-se, gestão, estratégia, desafios e liderança. Estranho? Não, não foi. Venha daí e “espreite” o outro lado do espelho de Pedro Monteiro, Deputy Managing Director da Konica Minolta em Portugal e Espanha, numa conversa que foi muito além da impressão.
Subimos ao décimo piso da sede da empresa nipónica em Lisboa e entrámos numa sala de reuniões com vista para a pista principal do Aeroporto Humberto Delgado e de onde levantam, diariamente, aviões rumo a Madrid, entre outros destinos, ou aterram aeronaves oriundas da capital espanhola ou de outros locais. Esta é uma rotina que o nosso convidado conhece bem pois, há cinco anos, aceitou o desafio de passar a liderar os destinos da Konica Minolta também no país vizinho, o que implica fazer várias viagens mensais ao outro lado da fronteira. Regressaremos mais tarde a Madrid, que Pedro Monteiro considera «uma cidade espectacular, divertida, bonita, cultural, grandiosa e com vários pontos de interesse» e onde fica o escritório da empresa japonesa.
Por agora, um salto a um dos bairros que faz fronteira com o aeroporto lisboeta, para conhecermos um pouco mais do percurso do nosso convidado. Nasceu em Lisboa, na Clínica de São Miguel, e cresceu em Alvalade (vivia num prédio «no cruzamento da Avenida Estados Unidos da América com a Avenida de Roma») e, ainda hoje, somos capazes de o encontrar a almoçar «comida de tacho» num conhecido restaurante deste bairro alfacinha, com uma longa história e tradição.
Foi na escola que descobriu a paixão (e o jeito) pelo desenho. «Não pintar, desenhar», esclarece. Frequentou a Escola do Magistério Primário, hoje Escola Superior de Educação, e, de forma tímida, diz, «chamavam os outros professores para verem os meus desenhos», desenvolvendo esta arte com o avô. Mais tarde, regressou aos esquiços na universidade e, posteriormente, estudou aguarela e urban sketching, uma corrente onde se esboça o quotidiano sem a preocupação da perfeição do traço. Também regressaremos a esta “perfeição” mais tarde…

Depois de terminar o liceu, ingressou no Instituto Superior Técnico (IST), «quase por exclusão de partes», chegando mesmo a afirmar que foi um «miscast e não deveria ter tirado Engenharia». Apesar de considerar «que não tinha alma de engenheiro, mas admirava muito quem a tinha», fez o curso de Engenharia Electrotécnica («o curso onde ficou tudo que não era dos outros») em cinco anos, e onde não só aprendeu bastante como fez muitas amizades pois, recorda, «sofremos muito juntos e isso deu origem a ligações fortes». Durante o curso, ainda deu explicações de Matemática. Descreve o IST como uma «trituradora» que, embora hostil e exigente, prepara os alunos e, diz, «quem sobrevive, sai reforçado». «Resolve parte da tua vida», conclui.

Assim que termina o curso, «direitinho para a Accenture», com um ritmo de trabalho diabólico que incluiu «30 fins-de-semana [de trabalho] consecutivos», chegando ao ponto de ter de justificar o atraso a um projecto num domingo. Outros tempos e «um conceito que hoje chocaria muita gente», diz. Curiosamente, ou não, confessa, entre risos, que, 24 anos depois, esse projecto ainda não se encontra implementado. O cliente? Uma entidade pública… Depois da consultora, atravessa o Atlântico, e aterra na Universidade de Northwestern, onde frequenta a Kellogg School of Management. Desses tempos, recorda que «reforçou imenso as capacidades e fomentou uma fome positiva, fome de crescimento.» Ritmos diferentes e, confirma, «work hard, play harder». De regresso a Portugal, ingressa na Altran, hoje Capgemini, e da consultoria passa para a gestão. Em 2012, avança para a Konica Minolta Portugal como Head of Business Development, assume a Direcção-Geral em 2019/2020 e, mais tarde, acumula a liderança com Espanha (2022).

Antes de ingressar na empresa japonesa centenária, Pedro já conta com a companhia diária do seu caderno, onde vai apontando e desenhando. «No desenho, trabalhas memória, coordenação (o olho, a mão), expressão e a criatividade», diz. E isso traduz-se na vida profissional? A resposta é rápida: «Sim. Tal como no desenho, a criatividade é fundamental, o meu trabalho e da minha equipa exige muita criatividade, encontrar soluções, construir coisas a partir do zero, encarar uma folha em branco como uma oportunidade e não como desespero; em segundo lugar, sermos capazes de ultrapassar o perfeccionismo. Não há nenhum desenho errado, não há nenhum certo. E o perfeccionismo é um grande problema nas organizações de hoje, mesmo ao nível da saúde mental». Para além disso, «o desenho ajudou-me a perceber que quase tudo é uma construção e há momentos em que tens de decidir que as coisas estão bem e avançar, ir para o próximo, e o mesmo se aplica na gestão. Assim como quando parar, quando desistir mais rapidamente do que pensamos, porque também podemos abandonar desenhos, dimensões erradas». E afirma que «na gestão, a arte de utilizar bem a energia e o tempo é essencial, assim como a direcção. E, portanto, o desenho traz muito disso. Construir, destruir, descartar, aperfeiçoar ou fazer três versões.» Em ambas, é preciso saber quando algo está «bom o suficiente» para avançar, evitando que o perfeccionismo se torne uma barreira ou «entropia» nas organizações.
Se o desenho é um elemento importante no dia-a-dia de Pedro Monteiro, o mar também ocupa um lugar especial. Praticante de diversos desportos aquáticos, descobriu o windsurf, através do cunhado, há 15 anos. Destaca o lado técnico e a resiliência necessária para a prática desta modalidade (e que ele “transporta” para o seu lado profissional), assim como o bem-estar que o mar proporciona, onde só se «ouve o mar e, se atinges uma determinada velocidade, o som da prancha a bater na água». Para além do windsurf, pratica natação em águas abertas, Stand Up Paddle e, inclusive, uma nova modalidade chamada Wing Foil. Para além do aspecto desportivo, destaca os benefícios comprovados do mar para o sistema imunitário e bem-estar mental, fazendo-o sentir-se «novo».
Regressamos à actividade profissional e à entrada, em 2012, na Konica Minolta, gigante japonês resultante da fusão entre as duas empresas em 2003 e que se encontrava a tentar «reinventar, para além da impressão». É neste cenário que o gestor português entra na companhia com o objectivo de «ajudar a fazer essa transição estratégica e operacional, para além de melhorar o funcionamento das áreas tradicionais». A partir de 2020, passa a liderar a operação portuguesa e, fruto do desempenho superior nacional em relação ao país vizinho, assume dois anos depois o cargo de Deputy Managing Director da Konica Minolta em Portugal e Espanha. Do país vizinho e de Madrid destaca o optimismo e a cultura madrilena de «darlo todismo» (dar tudo) em todas as situações.
Actualmente, Pedro Monteiro lidera uma empresa que se soube reinventar, passando da fotografia para a impressão B2B e, agora, para a gestão documental e fluxos de trabalho digitais. Entre Portugal e Espanha, a companhia compreende 600 colaboradores e tem como objectivo ser a melhor empresa para trabalhar na área da impressão, utilizando a consultoria para oferecer soluções reais e não apenas vender máquinas. Para além disso, quer contribuir para a modernização das empresas no mercado português.

Para o ciclo 2026-2030, os objectivos incluem: crescimento na gestão documental, com a integração de IA para facilitar os processos de negócio e acelerar fluxos de trabalho; impressão Industrial, onde, segundo o responsável, «queremos crescer a dois dígitos» através da aposta na personalização digital de rótulos e etiquetas (por exemplo, nos vinhos), permitindo que marcas experimentem e falhem com baixo investimento e, para terminar, a cultura organizacional, onde se pretende fomentar um ambiente onde todos tenham voz e as conquistas sejam sentidas de forma genuína por toda a equipa.
Para terminar e com o reflexo do Sol a esbater-se no espelho, Pedro Monteiro socorre-se do ténis para dizer que «o adversário é a bola (o trabalho e a execução), e não o oponente do outro lado da rede (concorrência); focarmo-nos no outro é perder tempo». Num mundo cada vez mais dominado pela IA, o gestor defende que a capacidade humana de criar e manter um pensamento crítico é o que impede que o profissional se torne irrelevante. Diz que a arte traz «cor à vida» e lhe permite sentir‑se mais humano, indo além da rotina de trabalho – algo que acaba por beneficiar a sua performance profissional, ao dar‑lhe uma visão mais ampla e menos rígida da realidade. Pois, tal como disse Paul Klee: “A arte não reproduz o que vemos. Ela faz-nos ver.”
Este artigo foi publicado na edição de Fevereiro (n.º 239) da Executive Digest.











