Fazer apostas online, levantar dinheiro em caixas multibanco de casinos ou recorrer frequentemente a compras a prestações pode dificultar a obtenção de crédito bancário — ou reduzir o montante que as instituições financeiras estão dispostas a emprestar. A análise surge numa altura em que os bancos recorrem cada vez mais aos extratos bancários recentes para avaliar o risco dos clientes.
De acordo com a revista ‘Sábado’, há cada vez mais casos em que pedidos de crédito são recusados devido a movimentos associados a apostas online, mesmo quando os valores envolvidos são relativamente baixos.
Pequenas apostas podem levantar suspeitas
António (nome fictício) deixou de apostar online durante três meses antes de pedir um crédito para habitação. O valor que gastava era reduzido — cerca de 5 euros por semana em apostas nos jogos do Benfica — mas foi alertado pelos intermediários de crédito de que qualquer referência a plataformas de apostas nos extratos bancários poderia comprometer a aprovação do empréstimo.
Segundo lhe explicaram, os bancos analisam normalmente os últimos três extratos bancários e podem interpretar apostas recentes como um sinal de risco ou potencial comportamento aditivo.
Mais créditos recusados desde a pandemia
Casos como este têm-se tornado mais frequentes nos últimos anos. Francisco Ferreira Lima, presidente executivo da Maxfinance, explica que existem recusas regulares de crédito devido a apostas online.
Além das referências diretas a empresas de apostas nos extratos bancários, algumas instituições analisam também a frequência e o valor dos levantamentos em numerário. Quando os levantamentos são muito frequentes, alguns bancos verificam até a localização dos multibancos para perceber se estão próximos de casinos.
Movimentos frequentes levantam alertas
Pedro Pedrosa, intermediário de crédito conhecido como “O Senhor do Banco”, afirma que é comum surgirem extratos com múltiplos movimentos ligados ao jogo.
Segundo explica, nas apostas online os valores costumam ser baixos, frequentemente entre 10 e 15 euros, mas repetidos várias vezes por semana. Já nos casinos físicos, os levantamentos podem atingir 100 ou 200 euros de cada vez e ocorrer várias vezes no mesmo dia.
Mesmo quando os clientes têm rendimentos elevados e uma taxa de esforço dentro das recomendações, estes movimentos podem levar à recusa do crédito.
Jogo pode reduzir o valor financiado
Em alguns casos, a solução passa por os clientes pedirem a autoexclusão das plataformas de apostas. Existe um sistema que permite solicitar a inibição de jogo, o que pode ajudar a melhorar a avaliação do banco.
Segundo Nuno Leal, co-CEO do Doutor Finanças, o jogo é considerado um “fator de alerta qualitativo”. Mesmo que não leve diretamente à recusa do crédito, pode influenciar a decisão do banco e reduzir o montante máximo que está disposto a financiar.
Compras a prestações também contam
Além do jogo, os bancos analisam muitos outros fatores na avaliação de risco dos clientes. O processo baseia-se em modelos automáticos de análise conhecidos como credit scoring.
Entre os critérios avaliados estão a idade, profissão, rendimento, histórico financeiro e despesas regulares. Mas também contam outros aspetos muitas vezes ignorados pelos consumidores.
Créditos para comprar telemóveis, frigoríficos ou viagens, por exemplo, são considerados empréstimos e entram no cálculo do risco financeiro. Quanto maior o número de créditos existentes, menor pode ser o valor disponível para um novo financiamento.
Saldo negativo e cartões de crédito pesam na decisão
Outros elementos avaliados incluem o saldo médio da conta bancária e o número de cartões de crédito utilizados. Contas frequentemente com saldo negativo ou clientes que usam vários cartões para pagar outros créditos podem ser classificados como mais arriscados.
Casos destes podem exigir meses — ou mesmo mais de um ano — de reorganização financeira antes de os bancos aceitarem conceder crédito.
Localização da casa também influencia decisão
No caso do crédito habitação, os bancos analisam ainda a localização do imóvel. Algumas instituições avaliam apenas o concelho, enquanto outras chegam ao nível da freguesia.
Fatores como liquidez do mercado imobiliário, taxas de incumprimento e dependência económica da região podem influenciar a decisão final. Imóveis em zonas com menor procura ou maior risco económico podem dificultar a aprovação do crédito.
Critérios não estão definidos por lei
A análise detalhada dos extratos bancários tem levantado também dúvidas sobre possíveis invasões de privacidade. No entanto, o Banco de Portugal esclarece que a legislação não impõe uma lista fechada de critérios que os bancos devem utilizar na avaliação da solvabilidade dos clientes.
Assim, cada instituição financeira pode definir os seus próprios modelos de avaliação de risco, desde que cumpram as regras gerais de prudência na concessão de crédito.







