Um alto responsável do regime iraniano afirmou que o país está preparado para enfrentar um conflito prolongado com os Estados Unidos, numa altura em que a guerra envolvendo forças norte-americanas e israelitas contra o Irão continua a escalar no Médio Oriente. O dirigente deixou também implícito que Teerão poderá continuar a atingir alvos em países do Golfo, procurando aumentar a pressão regional e levar esses Estados a convencer o presidente norte-americano, Donald Trump, a recuar na ofensiva.
Numa entrevista concedida à CNN Internacional em Teerão, Kamal Kharazi, conselheiro de política externa do gabinete do líder supremo iraniano, afastou qualquer possibilidade imediata de solução diplomática para o conflito e defendeu que apenas a pressão económica global poderá levar ao fim da guerra.
Durante a entrevista, Kharazi afirmou que a liderança iraniana perdeu confiança na possibilidade de negociações com Washington, acusando Donald Trump de não cumprir compromissos assumidos em negociações anteriores.
“Não vejo mais espaço para diplomacia. Porque Donald Trump tem enganado outros e não tem cumprido as suas promessas, e nós já experimentámos isso em duas rondas de negociações – enquanto estávamos a negociar, eles atacaram-nos”, afirmou o responsável iraniano.
Segundo Kharazi, o regime acredita que o conflito apenas terminará quando os efeitos económicos da guerra forem suficientemente fortes para levar outros países a intervir. “Não há espaço, a não ser que a pressão económica aumente ao ponto de outros países intervirem para garantir o fim da agressão dos americanos e dos israelitas contra o Irão”, acrescentou.
O conselheiro sugeriu ainda que os países árabes do Golfo e outros Estados afetados pelo impacto económico da guerra poderão acabar por pressionar os Estados Unidos a pôr termo ao conflito.
Pressão económica e impacto regional
Kharazi destacou que a guerra já está a provocar consequências económicas significativas em vários países da região e até fora dela, sobretudo devido ao impacto nos mercados energéticos.
“Esta guerra tem provocado muita pressão – pressão económica – sobre outros países, em termos de inflação e falta de energia. Se continuar, essa pressão vai aumentar ainda mais e, por isso, outros não terão alternativa senão intervir”, afirmou.
Desde o início da ofensiva militar lançada por Estados Unidos e Israel contra o regime iraniano, Teerão tem respondido com ataques dirigidos a vários países do Médio Oriente. As autoridades iranianas afirmam que estão a atingir interesses norte-americanos na região do Golfo, embora edifícios residenciais e aeroportos tenham sido repetidamente atingidos durante os ataques.
Estreito de Ormuz e mercado petrolífero sob pressão
A escalada militar tem também exposto a vulnerabilidade do comércio global de energia. Infraestruturas energéticas e rotas de transporte foram diretamente afetadas pelos ataques, agravando a instabilidade nos mercados internacionais.
O tráfego marítimo através do Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes do mundo para o transporte de petróleo, sofreu uma quebra quase total, enquanto o preço do crude ultrapassou os 100 dólares por barril na segunda-feira, alimentando receios entre investidores e consumidores.
Estimativas indicam que cerca de 20% do abastecimento mundial de petróleo foi afetado pelo conflito — aproximadamente o dobro do impacto registado durante a Crise do Suez de 1956-1957, segundo dados históricos do Rapidan Energy Group.
Além disso, a guerra reduziu drasticamente a chamada capacidade excedentária de produção de petróleo, normalmente utilizada como amortecedor em momentos de crise energética. Essa capacidade corresponde ao volume adicional de petróleo que pode ser rapidamente colocado no mercado para compensar eventuais quebras de produção.
Irão mobiliza grande parte do seu poder militar
No plano militar, o regime iraniano admite estar a utilizar uma parte significativa das suas capacidades ofensivas. Um porta-voz da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) afirmou no domingo que o país está atualmente a utilizar cerca de 60% do seu poder de fogo para atingir bases militares norte-americanas e outros “interesses estratégicos” na região.
Ao mesmo tempo, a liderança política iraniana sofreu mudanças importantes nos últimos dias. Mojtaba Khamenei, segundo filho do antigo líder supremo Ali Khamenei, foi elevado no fim de semana ao cargo mais alto do país, numa decisão interpretada por analistas como sinal de continuidade e potencial intensificação da estratégia militar iraniana.
Questionado sobre se as forças armadas e a nova liderança política estão alinhadas na condução do conflito, Kamal Kharazi respondeu de forma afirmativa. “Sim, exatamente”, declarou.
O responsável acrescentou que cabe ao líder supremo garantir a capacidade de defesa do país. “A responsabilidade do líder da República Islâmica do Irão é liderar a capacidade de defesa do país. Assim como o aiatola Khamenei fazia, agora o novo líder fará o mesmo”, afirmou.
A nomeação de Mojtaba Khamenei para a liderança máxima do país gerou críticas por parte do presidente dos Estados Unidos. Donald Trump afirmou na semana passada que a escolha do filho do antigo líder supremo seria “inaceitável”.
Kharazi reagiu de forma direta a essa declaração, respondendo: “Isso não é da sua conta.”






