Combustíveis: Gasóleo pode aumentar 20 cênt/litro já na próxima semana e medida do Governo é “insuficiente” para aliviar, avisa ANAREC

A vice-presidente da Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis (ANAREC), Susana Trigo, antecipa uma “subida muito abrupta” dos combustíveis já na próxima semana, admitindo que, no caso do gasóleo, o aumento possa aproximar-se dos 20 cêntimos por litro.

Pedro Gonçalves

A vice-presidente da Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis (ANAREC), Susana Trigo, antecipa uma “subida muito abrupta” dos combustíveis já na próxima semana, admitindo que, no caso do gasóleo, o aumento possa aproximar-se dos 20 cêntimos por litro.

Em entrevista à CNN Portugal, Susana Trigo considera “inevitável” um agravamento superior a 10 cêntimos/litro no gasóleo, mesmo após o Governo ter admitido a possibilidade de um desconto extraordinário e temporário no Imposto sobre os Produtos Petrolíferos (ISP).



“Acho que é inevitável a subida de mais de 10 cêntimos e até se calhar eu apontaria para perto dos 20”, afirmou.

No Parlamento, o primeiro-ministro Luís Montenegro admitiu que o Governo poderá avançar com um desconto extraordinário e temporário do ISP caso se verifique uma subida superior a 10 cêntimos face ao valor desta semana, comprometendo-se a devolver aos consumidores o adicional de receita arrecadado via IVA.

Para Susana Trigo, a medida “é melhor que nada, como é evidente”, mas poderá revelar-se “insuficiente” para dar um real alívio aos consumidores.

“Havendo um aumento superior a 10 cêntimos, o que eu acho que irá acontecer pelo menos no caso do gasóleo, o Governo disse que o ISP seria contrabalançado na proporção da receita do IVA. Isso é melhor que nada, como é evidente, mas no nosso entender não será suficiente para travar um aumento considerável no preço dos combustíveis”, afirmou.

A responsável alerta ainda para o efeito em cadeia na economia: “O que também leva, de uma forma rapidamente direta, a um aumento generalizado da taxa de inflação.”

“Tudo aponta” para aumentos já na próxima semana… e a tendência é a situação piorar (ainda mais)
As previsões, sublinha, são necessariamente de curto prazo. “As previsões são muito curtas, só se refletem na semana seguinte”, explicou.

Ainda assim, as expectativas do setor são claras: “Vai haver um aumento bastante importante nos combustíveis rodoviários e também no gás.”

Quanto à dimensão exata da subida, Susana Trigo esclarece que apenas será possível confirmar valores concretos após o fecho dos mercados internacionais.

“Exatamente para que valores ao certo, só conseguiremos saber na sexta-feira após o fecho dos mercados internacionais. Mas tudo aponta que pelo menos o gasóleo subirá mais do que 10 cêntimos já na próxima semana.”

Insistindo na magnitude do aumento, reforça: “Penso que sim. Acho que é inevitável.”

Questionada sobre a possibilidade de novos máximos históricos, a vice-presidente da ANAREC admite que o cenário é preocupante, embora reconheça a dificuldade de projeções a médio prazo.

“É muito complicado estarmos a fazer previsões a um prazo mais elevado, mas na verdade tudo leva a crer que vamos ficar, se não com os máximos históricos, que vai haver uma subida muito abrupta dos combustíveis e que não deverá ficar só pela próxima semana.”

E acrescenta: “Se a guerra acabar por continuar durante as próximas semanas, esperamos que o combustível também tenha a mesma evolução.”

Revendedores “não têm qualquer tipo de margem”
Perante aumentos desta dimensão, coloca-se a questão sobre a margem de atuação dos postos de abastecimento. A resposta é direta: não existe espaço para absorver o impacto.

“Na parte dos revendedores, não têm qualquer tipo de margem, porque o preço é indicado pelas companhias petrolíferas e tem que ser seguido esse preço e o respetivo desconto que cada um dos postos de abastecimento consegue propor ao cliente.”

Susana Trigo rejeita a ideia de que os postos possam reter parte dos lucros para amortecer subidas: “Não há margens para conseguir reter uma parte dos lucros dos revendedores, até porque esse lucro já é bastante baixo, tendo em conta o preço do combustível.”

Perante este cenário, a dirigente espera que o Executivo vá mais longe nas medidas fiscais: “O que nós esperamos é que o Governo veja também a desvantagem do aumento abrupto dos combustíveis, porque vai prejudicar toda a economia e, eventualmente, para além da taxa de ISP, possa também rever a taxa de carbono de uma forma superior ao aumento de receita que o IVA irá dar ao Governo.”

Na sua perspetiva, essa poderia ser “uma forma de conseguir suster ou de alguma forma minimizar este aumento dos preços que pode ser muito significativo e muito rápido”.

Portugal sem risco de rutura, mas alerta contra corrida aos postos
Apesar da tensão internacional, Susana Trigo garante que não existe risco imediato de falta de combustível em Portugal.

“Temos é que alertar o consumidor, seja ele empresarial, seja o consumidor final, que não existe risco de rutura de produto, portanto, para não fazerem essa embarcação do combustível que está neste momento disponível.”

Confrontada com a possibilidade de escassez, é clara: “Pelo menos para já, não se pode de maneira nenhuma fazer uma conjuntura desse género, até porque nós temos, numa utilização normal dos combustíveis, reservas para cerca de três meses. Não é expectável que vá haver qualquer tipo de rutura.”

Recordando crises energéticas anteriores, Susana Trigo admite que o padrão tende a repetir-se: aumentos rápidos e descidas mais lentas.

“Quando as subidas se fazem, são bastante abruptas. A descida, normalmente, não é tão imediata conforme é a subida. É um bocadinho a lei que estamos habituados e, infelizmente, os revendedores de combustível não podem fazer nada a esse respeito”, clarificou a responsável.

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