A morte do líder supremo iraniano Ali Khamenei, num ataque direcionado liderado por Israel e apoiado pelos Estados Unidos, obrigou Vladimir Putin a reagir de forma pública e mais incisiva do que noutras crises recentes. O ‘POLITICO’ descreveu como o Kremlin enfrentou o momento com uma mistura de condenação moral, prudência estratégica e cálculo político.
Meses antes, quando questionado sobre a eventual morte de Khamenei, Putin recusara comentar. Desta vez, classificou o assassinato como uma “violação cínica de todas as normas da moralidade humana e do direito internacional”. Ainda assim, evitou nomear diretamente os países responsáveis.
A reação, segundo o ‘POLITICO’, terá ativado dois impulsos centrais do presidente russo: a preocupação com a própria sobrevivência política e pessoal, e a prioridade absoluta de vencer — ou pelo menos não perder — a guerra na Ucrânia. A memória da queda de Muammar Gaddafi, morto em 2011 após intervenção da NATO, continua a pesar no imaginário do Kremlin. Na altura, imagens do linchamento do líder líbio deixaram Putin visivelmente indignado.
Analistas citados pelo ‘POLITICO’, como Alexander Baunov, do Carnegie Rússia-Eurásia, consideram que a morte de Gaddafi marcou um ponto de viragem na política russa, tanto interna como externa, alimentando uma visão de cerco e traição por parte do Ocidente. Desde então, Putin aprofundou o isolamento político e reforçou os mecanismos de controlo interno.
A morte de Khamenei surge agora num contexto em que outro aliado de Moscovo, Nicolás Maduro, também foi afastado do poder este ano. Comentadores pró-Kremlin têm insinuado que Washington poderá ter a Rússia como próximo alvo estratégico. O ex-presidente russo Dmitry Medvedev acusou os EUA de revelarem as “verdadeiras cores”, enquanto figuras ultranacionalistas alertaram para negociações com um “inimigo” pouco fiável.
Apesar da retórica inflamada nos círculos mediáticos russos, o Kremlin adotou um tom mais calculado. O porta-voz Dmitry Peskov expressou “deceção” pelo colapso das negociações entre EUA e Irão, mas agradeceu simultaneamente os esforços americanos na mediação da guerra na Ucrânia.
Especialistas ouvidos pelo ‘POLITICO’ sublinharam que Putin não arriscará os seus objetivos estratégicos na Ucrânia para defender Teerão. Moscovo poderá até beneficiar de preços mais elevados do petróleo, de eventuais divisões entre Europa e Estados Unidos e de uma Washington distraída do conflito ucraniano.
Além disso, ao contrário de Gaddafi ou Khamenei, Putin dispõe do maior arsenal nuclear do mundo, fator de dissuasão externa significativo. Ainda assim, analistas lembram que armas nucleares não oferecem proteção contra ameaças internas — e que o destino de líderes autoritários tende a ser abrupto.





