O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, entrou em 2026 com uma série de ações de grande impacto internacional e interno, que têm suscitado resistência crescente. Apenas em janeiro, ordenou uma operação militar para a captura de Nicolás Maduro, ameaçou anexar Gronelândia “pelas boas ou pelas más” e utilizou a política de deportações como pretexto para ensaiar uma ocupação paramilitar em Minneapolis, uma cidade controlada pelos democratas. Apesar da agressividade demonstrada, estas ações colocaram os EUA num ponto de inflexão: Trump conseguirá sobrepor-se à oposição e avançar no seu projeto autoritário ou encontrou finalmente barreiras efetivas aos seus excessos?
Segundo o Correio da Manhã, a intensidade do mandato de Trump em 2025 é inédita. Apenas no primeiro ano do seu segundo mandato, assinou 225 decretos presidenciais — cinco vezes mais que Joe Biden e seis vezes mais que George W. Bush ou Barack Obama — enquanto o Congresso aprovou menos leis do que em qualquer outro primeiro ano de mandato da história americana. Muitos desses decretos envolveram transgressões legais ou interferência em áreas reservadas ao legislativo, gerando conflitos judiciais. Em doze meses, a administração Trump enfrentou 634 processos legais, oito vezes mais do que toda a administração de George W. Bush ao longo de oito anos.
A resistência também se manifestou nas decisões judiciais. Um estudo do Washington Post revelou que, entre 165 ordens emitidas contra a administração, 57 foram desafiadas ou frustradas, um terço do total. Em janeiro de 2026, agentes migratórios em Minnesota violaram quase cem ordens judiciais, com o juiz federal do Estado a afirmar que apenas a agência ICE excedeu, nesse mês, o número de violações cometidas por algumas agências federais ao longo de toda a sua existência. A ausência de meios efetivos para obrigar o cumprimento das decisões judiciais, combinada com um Departamento de Justiça considerado “cativo e politizado” por veteranos da própria instituição, potenciou esta situação.
Internamente, a agressividade de Trump resultou em episódios violentos, como os assassinatos de Renee Good e Alex Pretti por agentes federais em Minneapolis, rotulados de “terroristas domésticos” pela administração apesar de não representarem ameaça. Estes acontecimentos geraram protestos comparáveis aos da Primavera Árabe ou da Ucrânia em 2013-2014, com cidadãos organizados em grupos pequenos e comunicação cifrada para documentar abusos, demonstrando um crescente sentimento de dissidência frente à impunidade de algumas forças federais.
As pressões políticas e públicas começaram a surtir efeito. Em Minneapolis, a Casa Branca substituiu líderes paramilitares por figuras mais burocráticas e anunciou o fim da Operação Metro Surge. Democratas no Congresso condicionaram a aprovação do orçamento a medidas de controlo da ICE e da Patrulha Fronteiriça, incluindo uso obrigatório de câmaras e rosto descoberto, levando a uma suspensão parcial da sua dotação financeira. Além disso, a polémica com a publicação de um vídeo ofensivo envolvendo os Obama levou Trump a apagar o conteúdo, uma ação rara de recuo perante críticas públicas, incluindo de senadores do próprio partido.
Em termos eleitorais, Trump enfrenta sondagens desfavoráveis, com aprovação de apenas 36%, menor do que no início do primeiro mandato, e sucessivas derrotas em eleições especiais estaduais e locais. A crescente oposição de republicanos moderados e líderes internacionais reforça a ideia de que Trump terá de moderar temporariamente suas ambições autoritárias, ainda que mantendo a imprevisibilidade característica de seu estilo.
No plano internacional, as tensões com aliados europeus e vizinhos como Canadá e Gronelândia evidenciam resistência diplomática às ameaças territoriais e econômicas de Trump. A sua tentativa de nacionalizar eleições locais e promover restrições a eleitores imigrantes continua a gerar controvérsia e oposição tanto interna quanto externa. Entre desafios legais, descontentamento público e restrições institucionais, o presidente enfrenta, passados mais de mil dias de mandato, o teste da capacidade de conciliar ambições autoritárias com os limites impostos pelo sistema de checks and balances dos EUA.











