A fábrica húngara da Samsung SDI, dedicada à produção de baterias para veículos elétricos, colocou o Governo de Viktor Orbán perante um dilema delicado: encerrar uma unidade estratégica para a economia ou permitir a continuação da atividade apesar de indícios internos de poluição com potenciais efeitos graves na saúde dos trabalhadores e no ambiente. O caso, revelado pelo site especializao ‘L’Automobile Magazine’, expõe fragilidades nos sistemas de controlo e levanta preocupações quanto à exposição prolongada a metais pesados num setor central para a transição energética.
O alerta surgiu após inspeções realizadas no outono de 2022 na unidade de mistura da fábrica de Göd, onde são preparados componentes essenciais das baterias. No interior da instalação foi identificado pó negro acumulado no chão e nas paredes, contendo níquel, cobalto e manganês — metais pesados associados a riscos tóxicos significativos quando inalados repetidamente. A presença destas partículas finas em ambiente laboral fechado representa um fator de risco acrescido, sobretudo se os sistemas de ventilação e filtragem não forem adequados.
De acordo com a ‘L’Automobile Magazine’, a investigação apontou para deficiências no sistema de ventilação, que teria sido adaptado a partir de uma antiga fábrica de televisores. Os filtros instalados estariam dimensionados para partículas de 2,4 micrómetros, enquanto os pós utilizados no processo industrial rondariam os 0,3 micrómetros. Esta diferença permitiria que parte substancial das partículas escapasse ao sistema de retenção, circulando no interior do edifício ou sendo expelida para o exterior. Fotografias aéreas mostrariam inclusivamente zonas escurecidas no telhado da fábrica, indício de deposição de resíduos.
Os dados reportados às autoridades indicariam níveis “moderados” acima dos limites legais, mas medições internas, alegadamente conhecidas pelos serviços de inteligência húngaros, sugeririam valores entre 500 e 1.000 vezes superiores ao permitido para alguns trabalhadores. A confirmar-se, tal cenário traduzir-se-ia numa exposição potencialmente perigosa, associada a riscos respiratórios, efeitos sistémicos e aumento da probabilidade de doenças graves a médio e longo prazo.
Em vez de suspender a produção para reduzir a exposição, a gestão terá implementado um sistema de “rodízio”, transferindo trabalhadores com níveis elevados de metais em análises biológicas para áreas menos poluídas e substituindo-os por colegas considerados dentro dos parâmetros. Acresce que, segundo o relato, muitos funcionários utilizariam apenas máscaras cirúrgicas, inadequadas para filtrar partículas finas e contaminantes químicos industriais, o que agravaria a vulnerabilidade.
O caso chegou ao gabinete do primeiro-ministro na primavera de 2023, após a apresentação de um relatório confidencial da inteligência interna ao Conselho de Ministros. Apesar das preocupações expressas quanto ao risco político e sanitário de colocar trabalhadores em perigo, a decisão terá sido não encerrar a unidade, concedendo tempo adicional à empresa para corrigir as falhas identificadas. A fábrica é estratégica para o fornecimento de baterias a fabricantes europeus e a Hungria tem apostado fortemente neste setor como motor de crescimento.
Este episódio reabre o debate sobre os impactos sanitários da indústria de baterias, num momento em que a mobilidade elétrica é apresentada como pilar da transição energética. Se a redução das emissões é o objetivo central, a questão que emerge é outra: estarão a ser devidamente acautelados os riscos para a saúde dos trabalhadores e das comunidades locais nas cadeias de produção que sustentam essa transformação?






