O número de burlas associadas a falsas ofertas de emprego online está a aumentar de forma alarmante em Portugal, atingindo sobretudo desempregados e jovens à procura do primeiro trabalho. O esquema, cada vez mais sofisticado, assenta em promessas de ganhos rápidos e tarefas simples realizadas através de plataformas digitais, mas termina frequentemente com prejuízos de milhares de euros para as vítimas.
Segundo o Jornal de Notícias (JN), de 2023 para 2024 as denúncias por falsos trabalhos online recebidas pelo Gabinete de Cibercrime da Procuradoria-Geral da República (PGR) sextuplicaram, passando de 42 para 253 inquéritos. Numa nota relativa às participações de 2024, o organismo alerta que se trata de “um método de defraudação que tem vindo a sofisticar-se e a ganhar uma enorme dimensão, provocando grandes prejuízos económicos às vítimas”, agravados pelo facto de estas serem “normalmente pessoas desempregadas ou de baixos recursos”. Os dados referentes a 2025 ainda não estão disponíveis.
Ana (nome fictício), 35 anos, é uma das centenas de vítimas. Desempregada há seis meses e a viver novamente em casa da mãe, na zona do Porto, após a morte de dois familiares, viu no verão de 2025 um anúncio no Instagram para trabalhar em marketing digital. Enviou os seus dados e, um ou dois dias depois, foi contactada via WhatsApp por alegados representantes de uma empresa que trabalharia para a “Web Tonic”. Foi integrada num grupo de Telegram com 40 a 50 colaboradores e recebeu instruções para “lançar campanhas” já criadas, bastando carregar em botões para as difundir em sites como Amazon ou Reddit. “Basicamente só tinha de carregar em botões numa plataforma para lançar a campanha e a espalhar pelos sites da Amazon, Reddit e assim. A campanha já estava feita. Eu nem a via”, descreve. Nos primeiros três dias ganhou entre 40 e 60 euros diários, pagos por transferência bancária. Apesar de admitir que tinha “o ‘feeling’ de que era demasiado fácil e não parecia fidedigno”, continuou porque a empresa existia online e os pagamentos eram feitos.
Ao terceiro dia, surgiu uma “campanha especial” que prometia triplicar comissões mediante um investimento entre 100 e mil euros. Ana decidiu aplicar 500 euros, atraída pela promessa de um prémio de 250 euros e comissões de 20%. A partir daí, nunca mais conseguiu levantar os valores alegadamente acumulados. Foi retirada do grupo e passou a comunicar apenas com os supostos responsáveis, que lhe exigiam novos pagamentos para desbloquear prémios e recuperar o montante investido. “Quando me apercebi de que era mesmo burla, era tarde demais. No total, investi sete mil euros. Tudo o que tinha”, lamenta. Chegaram a prometer-lhe que, investindo mais cinco mil euros, recuperaria 28 mil. Terminou com apenas cem euros na conta. “É uma vergonha enorme. Tenho formação superior, estou a par das burlas e pensava estar prevenida”, confessa. O banco não conseguiu reaver o dinheiro e a Polícia Judiciária assumiu a investigação.
De acordo com o Gabinete de Cibercrime da PGR, o fenómeno começou com anúncios nas redes sociais em 2023, mas ganhou “enorme expansão em 2024”. Atualmente, os contactos são feitos também por SMS, WhatsApp, Telegram ou chamadas com mensagens pré-gravadas que encaminham as vítimas para grupos nessas plataformas. As tarefas variam: avaliações no Booking, “likes” e seguidores em redes sociais ou outras ações digitais simples. Inicialmente, são pagas pequenas quantias para criar confiança. Depois surge a proposta de acesso a um “nível superior”, mais lucrativo, mas que exige pagamento antecipado. “Tendo confiança de que tais valores lhes serão devolvidos, gerando comissões maiores, muitas vítimas aceitam gastar os tais valores mais elevados — que nalguns casos têm sido de vários milhares de euros”, explica a PGR. Quando tentam levantar os montantes acumulados, surgem alegados erros técnicos, taxas legais ou comissões adicionais, até que os burlões desaparecem.
O esquema atinge sobretudo desempregados e jovens no início de carreira, atraídos pela promessa de ganhos rápidos. Em alguns casos, é ainda utilizado para branqueamento de capitais: as vítimas recebem nas suas contas verbas provenientes de outras burlas e transferem-nas para terceiros, muitas vezes através de ferramentas como o MB WAY, sem saberem que estão a atuar como “mulas de dinheiro”. “Em quase todos estes casos, as vítimas serviram de agentes de branqueamento de capitais; receberam quantias de vítimas de diversos esquemas fraudulentos que depois encaminharam para terceiros”, detalha a PGR. Ana decidiu tornar pública a sua história na esperança de que os responsáveis sejam identificados e para evitar que “aconteça a mais ninguém”.










