Receber 5 mil euros para ficar deitado durante 10 dias? Este estudo está à procura de voluntários

Um centro de investigação francês especializado em medicina espacial está a oferecer cinco mil euros a voluntários dispostos a permanecer dez dias consecutivos deitados, num ensaio científico que pretende reproduzir, em Terra, os efeitos da microgravidade no corpo humano.

Pedro Gonçalves

Um centro de investigação francês especializado em medicina espacial está a oferecer cinco mil euros a voluntários dispostos a permanecer dez dias consecutivos deitados, num ensaio científico que pretende reproduzir, em Terra, os efeitos da microgravidade no corpo humano.

O estudo decorre em Institut de Médecine et de Physiologie Spatiales (MEDES), na cidade de Toulouse, em colaboração com o Centre National d’Études Spatiales (CNES), integrando um programa de preparação para futuras missões espaciais de longa duração. A iniciativa, designada Estudo de Repouso Absoluto e Hipometabolismo, está prevista para junho e pretende compreender como o organismo reage quando deixa de estar sujeito ao efeito da gravidade.



Repouso inclinado para imitar a microgravidade
Durante o período mais exigente do protocolo, os participantes permanecem continuamente deitados numa cama ligeiramente inclinada, com os pés acima do nível da cabeça, uma posição utilizada há décadas para simular a redistribuição de fluidos corporais que ocorre no espaço.

Segundo o porta-voz do MEDES, “a ideia é perceber como os fluidos corporais, água e sangue, são redistribuídos em condições de ausência de gravidade”, permitindo aos investigadores observar alterações que, em órbita, afetam músculos, ossos, sistema cardiovascular e metabolismo.

A experiência é conduzida em solo devido às limitações logísticas e técnicas de realizar este tipo de investigação em voo espacial.

Restrição calórica e vigilância médica permanente
Os dez dias centrais do ensaio combinam imobilização total com uma restrição alimentar severa. A ingestão energética é limitada a cerca de 250 calorias diárias, num regime rigorosamente controlado e acompanhado por equipas médicas.

Ao longo de todo o processo, os voluntários são submetidos a avaliações neurológicas, cardiovasculares, musculares, ósseas, metabólicas e cognitivas, bem como a análises de sangue e urina e acompanhamento psicológico. No total, participam 12 equipas científicas, que procuram mapear as consequências da combinação entre jejum e repouso prolongado.

O estudo prolonga-se por cerca de 20 dias, incluindo fases de avaliação antes e depois da imobilização, para comparar indicadores clínicos e medir a recuperação física.

Seleção exigente e compensação financeira
A participação está limitada a homens entre os 20 e os 40 anos, saudáveis, não fumadores, fisicamente ativos e com índice de massa corporal dentro dos parâmetros definidos pela equipa médica. O peso deve manter-se estável nos meses anteriores e não são admitidas alergias ou restrições alimentares.

O processo de seleção inclui entrevistas telefónicas e um dia de exames clínicos presenciais na unidade de investigação. Durante o internamento, os participantes não podem sair das instalações nem receber visitas, mantendo apenas contacto remoto com familiares.

Como compensação pelo tempo de permanência na clínica e pelo grau de exigência do protocolo, cada voluntário selecionado recebe uma indemnização de cinco mil euros.

Com esta investigação, os cientistas procuram recolher dados essenciais para preparar astronautas para missões longas, antecipando cenários de isolamento, escassez de recursos ou falhas de reabastecimento, e aprofundando o conhecimento sobre a capacidade de adaptação do corpo humano fora do ambiente terrestre.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.