Homem fica sem prémio da lotaria por dívida ao Estado que não é sua. Alguém usou o mesmo número de Segurança Social

O que deveria ter sido um momento de sorte e alívio financeiro acabou por transformar-se num processo burocrático prolongado para um homem da Carolina do Norte, nos Estados Unidos.

Pedro Gonçalves

O que deveria ter sido um momento de sorte e alívio financeiro acabou por transformar-se num processo burocrático prolongado para um homem da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, depois de o seu prémio do Mega Millions ter sido retido devido a uma dívida pública que garante nunca ter contraído.

Carl McCain, residente em Timberlake, acertou em quatro números do sorteio e esperava receber um cheque de cerca de 800 dólares, valor que pretendia usar para pagar despesas correntes. No entanto, quando se dirigiu aos serviços da North Carolina Education Lottery, em Raleigh, saiu sem o dinheiro.



Em vez do prémio, recebeu documentação a informar que, após impostos, os montantes podem ser desviados para saldar dívidas a agências estatais ou locais e que os registos indicavam valores em atraso associados ao seu número de Segurança Social nos condados de Lenoir County e Wayne County.

Prémio pequeno, choque grande
Por se tratar de um prémio de valor reduzido, McCain fez a deslocação presencialmente, entregou o boletim e preencheu os formulários habituais. Esperava regressar a casa com o cheque, mas foi confrontado com a retenção total do valor.

O homem garante que nunca tinha sequer estado nos dois condados referidos. Ao contactar as autoridades locais, forneceu primeiro o nome completo e a data de nascimento, tendo sido informado de que não existiam dívidas pendentes. Contudo, quando indicou o número de Segurança Social, surgiu outro nome associado ao mesmo registo.

Na prática, alguém estaria a usar — ou teria usado — o seu número de identificação.

Erro antigo e investigação lenta
Segundo explicou, foi a primeira vez que teve conhecimento de qualquer ligação entre os seus dados pessoais e outra pessoa. Tentou obter mais informações, mas foi-lhe dito que não podiam divulgar detalhes.

Restou-lhe aguardar enquanto os dois condados analisavam o caso.

De acordo com Lenoir County, a dívida associada ao número remontava a mais de dez anos e poderia resultar de um caso de identidade trocada. As semanas foram passando e, sempre que ligava, recebia a mesma resposta: a investigação ainda estava em curso.

Embora o montante fosse de apenas 800 dólares, McCain sublinha que o dinheiro faria diferença no pagamento de contas essenciais, pelo que o atraso se tornou pesado.

Recurso à televisão local para desbloquear o caso
Após mais de um mês sem solução, decidiu procurar ajuda fora dos canais administrativos. Contactou Diane Wilson, conhecida como “Troubleshooter” da estação televisiva ABC11, cujas reportagens de defesa do consumidor acompanhava há anos.

O próprio contou que, depois de ver a jornalista ajudar espectadores a resolver problemas variados, disse à mulher que teriam de a contactar.

A repórter entrou em contacto com a North Carolina Education Lottery, que confirmou que o prémio tinha sido processado e transferido para Lenoir County ao abrigo das regras de cobrança de dívidas. Também falou com representantes do condado, que indicaram estar a investigar o caso há mais de um mês.

Pouco depois dessas diligências, McCain afirma que o condado retirou o seu número de Segurança Social da base de dados. Dias mais tarde, recebeu finalmente o cheque correspondente ao prémio do Mega Millions, já descontados os impostos.

Sistemas de cobrança e riscos de erro de dados
O mecanismo que permite reter prémios de lotaria para pagar dívidas públicas foi criado para facilitar a recuperação de valores em atraso por parte das autoridades. No entanto, este episódio evidencia como o sistema pode falhar quando depende de registos desatualizados ou incorretos — sobretudo quando um número de Segurança Social é associado à pessoa errada.

Na prática, um erro administrativo pode transformar um ganho inesperado numa disputa longa e stressante, deixando contas e planos em suspenso.

O caso demonstra também que muitas pessoas desconhecem a quantidade de bases de dados onde constam os seus dados pessoais, só se apercebendo de possíveis trocas de identidade quando surge um problema concreto — que, como neste caso, pode permanecer oculto durante anos.

Dinheiro recebido, mas alerta mantido
Com o valor finalmente pago, McCain diz que continua a tentar a sorte com boletins de lotaria. Ainda assim, a experiência serviu de aviso: verificar regularmente os próprios registos e agir rapidamente perante qualquer incongruência pode evitar dores de cabeça prolongadas.

A persistência — e, neste caso, a intervenção da comunicação social local — acabou por ser decisiva para desbloquear um prémio que, à partida, deveria ter sido simples de levantar.

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