Investigação denuncia armas israelitas capazes de “evaporar” corpos e revela mais de 2.800 desaparecidos em Gaza

Uma investigação independente revelou indícios do uso de armamento térmico e de vácuo de elevado impacto na Faixa de Gaza, alegadamente responsável por um fenómeno descrito por equipas de socorro como a “evaporação” total de corpos humanos após ataques aéreos.

Pedro Gonçalves

Uma investigação independente revelou indícios do uso de armamento térmico e de vácuo de elevado impacto na Faixa de Gaza, alegadamente responsável por um fenómeno descrito por equipas de socorro como a “evaporação” total de corpos humanos após ataques aéreos. De acordo com o levantamento, mais de 2.842 vítimas mortais não deixaram restos identificáveis para além de salpicos de sangue, fragmentos biológicos dispersos ou cinzas, dificultando a recuperação e identificação dos mortos.

Os dados constam do trabalho “Vaporised”, integrado no programa The Story Remains, da Al Jazeera, que compila testemunhos no terreno e relatórios operacionais da Defesa Civil de Gaza, paramédicos e habitantes locais envolvidos nas operações de busca e resgate.



Segundo a investigação, em múltiplos bombardeamentos foram registadas pessoas no interior de edifícios atingidos, mas o número de corpos recuperados revelou-se inferior ao esperado. Em vários casos, não foi encontrado qualquer cadáver intacto. A Defesa Civil relata que algumas vítimas terão sido “completamente vaporizadas”, um cenário que os operacionais classificam como sem precedentes na experiência de conflitos anteriores.

Calor extremo e pressão capazes de destruir tecido humano
Os relatórios técnicos citados apontam para a utilização de explosivos térmicos de vácuo e de difusão, munições que combinam temperaturas extremas com ondas de pressão intensas. Estes dispositivos podem gerar calor até cerca de 3.500 graus Celsius, suficiente para provocar a evaporação de fluidos corporais e a destruição quase total dos tecidos, reduzindo-os a cinzas.

Yusri Abu Shadi, antigo inspetor-chefe da Agência Internacional da Energia Atómica (AIEA), explicou que armas que conjugam calor extremo e alta pressão “são capazes de destruir completamente as células humanas”. O especialista recordou ainda que cenários semelhantes foram descritos durante a invasão norte-americana do Iraque, em particular nas batalhas de Fallujah, em 2004 e 2005, onde o uso de armamento térmico motivou investigações internacionais posteriores devido ao desaparecimento físico de vítimas.

Também Munir al-Borsh, diretor-geral do Ministério da Saúde de Gaza, contextualizou o fenómeno do ponto de vista biológico, referindo que o corpo humano é composto por cerca de 80% de água, o que o torna especialmente vulnerável a exposições simultâneas a calor extremo, pressão e oxidação, condições que podem levar à “evaporação” total.

Testemunhos relatam desaparecimentos sem vestígios
A investigação reúne relatos de familiares e sobreviventes que descrevem cenas de destruição onde não restaram corpos reconhecíveis.

Um homem contou ter perdido quatro filhos num bombardeamento que arrasou dezenas de casas, afirmando que, no local, apenas encontrou “areia preta” e restos mortais espalhados. Noutra situação, uma mulher relatou que o filho desapareceu completamente após o ataque a uma escola no bairro de al-Daraj, na parte oriental de Gaza, sem que tivesse sido recuperado qualquer vestígio físico.

As equipas de socorro indicam que estes episódios se repetem em diferentes zonas do território, agravando o sofrimento das famílias, que ficam sem possibilidade de realizar funerais ou confirmar oficialmente a morte dos seus entes queridos.

Munições sob suspeita
Entre os tipos de armamento mencionados como suspeitos de terem sido utilizados estão bombas de fabrico norte-americano, como a MK-84 “hammer” e a BLU-109, bem como mísseis Hellfire e bombas guiadas de precisão GBU-39. Estas munições são descritas como capazes de provocar explosões de alta temperatura em espaços fechados, causando elevadas perdas humanas com menor destruição estrutural visível.

Apesar dos desmentidos oficiais por parte de Israel, a investigação refere que organizações internacionais, incluindo a Amnistia Internacional, já documentaram a utilização de algumas destas munições no território de Gaza.

Paralelamente às conclusões do inquérito, o Ministério da Saúde de Gaza anunciou na segunda-feira uma atualização do balanço da guerra, indicando que o número de mortos desde 8 de outubro de 2023 subiu para 72.032 pessoas, a que se somam 171.661 feridos.

Os dados reforçam a dimensão humanitária do conflito e surgem num momento em que aumentam os apelos internacionais para investigações independentes sobre o tipo de armamento utilizado e os seus efeitos sobre a população civil.

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