O café faz parte da rotina de milhões de pessoas há séculos e, hoje, o consumo médio ronda quase dois quilos por pessoa por ano. Entre blends, métodos de extração e preferências muito próprias, a bebida continua a ser um ritual diário. No entanto, para quem sofre de tensão arterial elevada, surge a dúvida: é seguro continuar a beber café?
Segundo a especialista em nutrição Clare Collins, da Universidade de Newcastle, num artigo publicado no The Conversation, o café pode elevar a pressão arterial temporariamente, sobretudo em pessoas que não o consomem habitualmente ou que já têm hipertensão, mas isso não significa que seja necessário eliminá-lo por completo. A palavra-chave é moderação.
O que é a hipertensão e porque é perigosa
A pressão arterial corresponde à força exercida pelo sangue nas paredes das artérias quando o coração bombeia. É medida através de dois valores: a pressão sistólica, o número mais alto, registado quando o coração se contrai, e a pressão diastólica, o mais baixo, quando o coração relaxa.
Considera-se normal uma pressão inferior a 120/80 milímetros de mercúrio (mm Hg). Valores persistentes de 140/90 ou superiores configuram hipertensão.
O problema é que a hipertensão é, muitas vezes, silenciosa. Sem sintomas evidentes, pode passar despercebida durante anos, aumentando o risco de enfarte do miocárdio, AVC e agravamento de doenças cardíacas e renais. Cerca de 31% dos adultos têm hipertensão e metade desconhece a condição. Entre os que tomam medicação, quase metade não tem os valores devidamente controlados.
Como o café influencia a pressão arterial
A cafeína, principal estimulante do café, atua como estimulante muscular e pode aumentar a frequência cardíaca em algumas pessoas. Em certos casos, pode contribuir para arritmias.
Além disso, estimula as glândulas suprarrenais a libertar adrenalina, o que acelera o coração e provoca constrição dos vasos sanguíneos, levando a uma subida da pressão arterial.
Os níveis de cafeína no sangue atingem o pico entre 30 minutos e duas horas após a ingestão. A sua semi-vida varia entre três e seis horas, período durante o qual a concentração sanguínea diminui para metade. Essa variação depende da idade, da genética e dos hábitos de consumo: crianças metabolizam mais lentamente, algumas pessoas são metabolizadores rápidos ou lentos, e consumidores regulares eliminam a substância mais depressa.
Revisões científicas indicam que, após o consumo de cafeína (proveniente de café, refrigerantes de cola, bebidas energéticas ou chocolate), a pressão sistólica pode subir entre 3 e 15 mm Hg, enquanto a diastólica pode aumentar entre 4 e 13 mm Hg.
O impacto tende a ser mais relevante para quem já sofre de hipertensão ou tem doenças cardíacas ou hepáticas, pelo que Collins recomenda discutir o consumo com o médico assistente.
O café não é só cafeína
A bebida contém centenas de fitoquímicos — compostos naturais que influenciam o sabor, o aroma e também a saúde.
Entre eles estão as melanoidinas, associadas à regulação do volume de fluidos do organismo e da atividade de enzimas que ajudam a controlar a pressão arterial, e o ácido quínico, que pode reduzir a pressão sistólica e diastólica ao melhorar o revestimento dos vasos sanguíneos, facilitando a sua adaptação a variações de pressão.
Beber café causa hipertensão?
Os dados científicos não apontam para uma relação direta entre o consumo habitual de café e o desenvolvimento de hipertensão.
Uma revisão de 13 estudos, envolvendo 315 mil pessoas, analisou a ligação entre ingestão de café e risco de pressão alta. Durante o acompanhamento, 64.650 participantes desenvolveram hipertensão, mas os investigadores concluíram que beber café não estava associado a um risco acrescido.
Mesmo quando os resultados foram analisados por género, quantidade consumida, café com ou sem cafeína, tabagismo ou duração do seguimento, a associação manteve-se inexistente. Apenas alguns estudos norte-americanos e outros considerados de menor qualidade sugeriram um possível risco mais baixo, conclusões que exigem cautela.
Contudo, um estudo japonês com mais de 18 mil adultos entre os 40 e os 79 anos, seguidos durante quase 19 anos, trouxe um alerta específico: entre cerca de 1.800 pessoas com hipertensão muito elevada (pressão sistólica ≥160 ou diastólica ≥100), o risco de morte por doença cardiovascular foi o dobro nos que bebiam duas ou mais chávenas de café por dia, em comparação com não consumidores.
Já para quem tinha pressão normal ou hipertensão ligeira, não se verificou aumento do risco.
Seis recomendações para beber café com segurança
Para Clare Collins, deixar o café não é necessário na maioria dos casos. O essencial é adotar estratégias informadas:
A especialista aconselha conhecer bem os próprios valores de pressão arterial, histórico de saúde e as principais fontes de cafeína na dieta. Defende também que se tenham em conta outros fatores que influenciam a tensão — como genética, alimentação, consumo de sal e atividade física — para decisões mais conscientes.
Sugere ainda observar como o organismo reage à cafeína, evitar o consumo antes de medições de pressão, não ingerir cafeína durante a tarde para proteger o sono, limitar o consumo a quatro chávenas por dia ou optar por descafeinado e, nos casos de pressão muito elevada (sistólica igual ou superior a 160 ou diastólica a 100), reduzir para uma chávena diária e falar com o médico.
A evidência disponível indica que, para a maioria das pessoas, o café pode continuar a fazer parte da rotina sem comprometer a saúde cardiovascular. Ainda assim, em contextos de hipertensão grave, o consumo excessivo pode representar riscos acrescidos.
A mensagem central é clara: não é preciso abdicar do café, mas é prudente conhecer os limites e ajustar hábitos às características individuais.








