Se o mundo acabar amanhã, esta arca secreta no gelo é a última esperança da humanidade

Banco Mundial de Sementes de Svalbard pertence ao Governo da Noruega e está localizado em Spitsbergen, no arquipélago de Svalbard

Francisco Laranjeira

Escondido no Ártico, escavado no interior de uma montanha gelada, existe um lugar que muitos apelidaram de “cofre do apocalipse”. Segundo o ‘UniladTech’, trata-se de uma espécie de Arca de Noé moderna criada com um objetivo ambicioso: garantir que, aconteça o que acontecer ao planeta, a base da nossa alimentação possa sobreviver.

O Banco Mundial de Sementes de Svalbard pertence ao Governo da Noruega e está localizado em Spitsbergen, no arquipélago de Svalbard. A estrutura está enterrada profundamente na encosta de uma montanha e protegida por várias portas metálicas, como se tivesse saído diretamente de um filme de ficção científica.



Lá dentro estão armazenadas 1.214.827 amostras de sementes provenientes de países de todo o mundo. E o espaço disponível é ainda maior: o cofre foi concebido para guardar milhões de variedades adicionais. A missão, explica a organização Crop Trust citada pelo ‘UniladTech’, é salvaguardar o máximo possível do material genético único das culturas agrícolas globais, protegendo-as contra extinções causadas por guerras, catástrofes naturais ou alterações climáticas.

A instalação foi inaugurada em 2008, após a destruição do banco de sementes de Aleppo durante a guerra civil síria, um episódio que demonstrou como conflitos podem pôr em risco patrimónios agrícolas essenciais. Desde então, o cofre aceita novos depósitos três vezes por ano, funcionando como uma espécie de seguro global para a agricultura.

Apesar de estar fechado ao público, o local alimenta frequentemente teorias da conspiração online. O nome “cofre do apocalipse” não ajuda a dissipar o mistério, e há quem se pergunte o que realmente está guardado por detrás das portas metálicas. Para assinalar o 15º aniversário, no entanto, foi disponibilizada uma visita virtual que permite percorrer o longo túnel de acesso até às três câmaras principais.

Segundo o ‘UniladTech’, cada câmara armazena quase 3.000 caixas de sementes, seladas em sacos herméticos de alumínio e organizadas por país. Através do tour virtual, é possível clicar em diferentes nações e conhecer melhor as suas culturas agrícolas, transformando o bunker num verdadeiro atlas da biodiversidade alimentar.

O cofre foi projetado para durar “para sempre”. As sementes estão protegidas pelo permafrost — o solo permanentemente gelado do Ártico — e mantidas a uma temperatura de -18°C. Mesmo que o sistema de refrigeração falhasse, seriam necessários centenas de anos até que a temperatura interna subisse acima de zero.

Ainda assim, nem Svalbard está totalmente imune às alterações climáticas. Em 2017, uma onda de calor provocou o derretimento do gelo em redor da entrada, causando uma inundação no túnel de acesso. As sementes, porém, não sofreram danos. Como medida de precaução adicional, as amostras são renovadas a cada poucas décadas.

Num mundo marcado por incertezas climáticas e geopolíticas, este cofre no Ártico funciona como um plano B silencioso para a humanidade. Não guarda tesouros de ouro nem segredos militares — mas algo potencialmente ainda mais valioso: a diversidade genética que sustenta a nossa alimentação.

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