O peixe que compra pode não ser o que pensa: investigação revela fraude massiva

Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura estima que um em cada cinco peixes e produtos de aquicultura vendidos no mundo seja fraudulento, uma realidade que afeta consumidores, ameaça a biodiversidade e compromete a credibilidade de toda a cadeia alimentar

Francisco Laranjeira

O peixe que chega ao prato dos consumidores nem sempre corresponde ao que está no rótulo ou descrito no menu. Segundo o jornal espanhol ‘El Economista’, a fraude no comércio de peixe tornou-se uma prática comum num mercado global avaliado em quase 200 mil milhões de dólares (cerca de 184 mil milhões de euros).

A própria Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura estima que um em cada cinco peixes e produtos de aquicultura vendidos no mundo seja fraudulento, uma realidade que afeta consumidores, ameaça a biodiversidade e compromete a credibilidade de toda a cadeia alimentar.



O relatório da FAO descreve um cenário preocupante: há casos de adulteração com corantes para simular frescura, substituição de espécies de elevado valor por alternativas mais baratas, falsificação de produtos e ocultação da verdadeira origem geográfica do peixe. São práticas deliberadas que vão muito além de um simples erro de rotulagem. Como conclui a organização, com demasiada frequência o peixe ou marisco servido não é o que está anunciado.

O setor é particularmente vulnerável à fraude. Existem mais de 12 mil espécies comercializadas a nível mundial, muitas delas praticamente indistinguíveis depois de fileteadas ou processadas. Esta diversidade, aliada a cadeias de abastecimento longas e pouco transparentes, cria o ambiente ideal para a substituição de espécies. Um dos exemplos mais comuns é vender tilápia como pargo ou salmão de viveiro como se fosse selvagem. No caso do salmão, o incentivo económico é evidente: comercializar salmão do Atlântico, maioritariamente de viveiro, como se fosse do Pacífico pode render até mais 10 dólares por quilo (cerca de 9,2 euros).

O ‘El Economista’ destaca ainda o caso do robalo de viveiro em Itália, que, quando rotulado como produto local, pode ser vendido por um preço até três vezes superior ao da mesma espécie proveniente da Grécia ou da Turquia. A fraude explora não só a falta de informação do consumidor, mas também a valorização de determinadas origens geográficas.

As consequências não se limitam ao impacto financeiro. A FAO alerta que estas práticas distorcem o mercado e colocam em risco a sustentabilidade das populações de peixe, ao esconder capturas que ultrapassam quotas legais ou ao mascarar a verdadeira origem do pescado. Há igualmente riscos para a saúde pública: o congelamento repetido para aumentar o peso, o uso de corantes não declarados ou a venda de peixe cru sem correta identificação das espécies representam ameaças reais. Estão documentados casos de camarão artificial feito com amido ou embalagens de surimi vendidas como se fossem carne de caranguejo.

A fraude não acontece apenas em supermercados e peixarias. Até 30% dos frutos do mar servidos em restaurantes podem estar incorretamente rotulados. A FAO recolheu exemplos em vários pontos do globo, desde bancas de ceviche na América Latina a restaurantes especializados na China e produtos de atum enlatado na União Europeia.

Nas Américas, os números são concretos. Na Argentina, um estudo realizado em Buenos Aires identificou uma taxa de substituição de espécies superior a 21%. No Brasil, os valores são semelhantes. Já nos EUA e no Canadá, a taxa pode chegar aos 25%. No caso argentino, a FAO chama a atenção para o uso de nomes vernáculos confusos para enganar o consumidor, como designações alternativas para espécies menos valorizadas ou a venda de diferentes tipos de tubarão sob nomes genéricos.

Para travar este fenómeno, a FAO propõe três medidas centrais: harmonizar internacionalmente os requisitos de rotulagem, exigir a indicação do nome científico das espécies e reforçar os sistemas de rastreabilidade ao longo de toda a cadeia de abastecimento. Entre as ferramentas emergentes está também o recurso a modelos de aprendizagem automática capazes de detetar anomalias nos fluxos comerciais e sinalizar possíveis casos de fraude antes de o produto chegar ao consumidor.

Num mercado global onde o peixe pode percorrer milhares de quilómetros antes de chegar ao prato, a transparência deixou de ser apenas uma questão de confiança. Segundo o ‘El Economista’, tornou-se uma condição essencial para proteger a biodiversidade, a saúde pública e a própria sustentabilidade económica do setor. Para quem vai escolher peixe este fim de semana, a pergunta impõe-se: saberá realmente o que está a comprar?

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