‘Ponto sem retorno’ está mais perto de tornar o planeta numa ‘Terra-estufa’, avisam investigadores

O planeta poderá estar perigosamente próximo de um ponto de não retorno climático, a partir do qual o aquecimento global se tornará incontrolável e conduzirá a Terra para um estado extremo, descrito por cientistas como uma “Terra-estufa”, muito mais severo do que os atuais cenários de subida de temperatura entre 2 °C e 3 °C.

Pedro Gonçalves

O planeta poderá estar perigosamente próximo de um ponto de não retorno climático, a partir do qual o aquecimento global se tornará incontrolável e conduzirá a Terra para um estado extremo, descrito por cientistas como uma “Terra-estufa”, muito mais severo do que os atuais cenários de subida de temperatura entre 2 °C e 3 °C.

De acordo com o The Guardian, investigadores alertam que a continuação do aquecimento global poderá desencadear uma sequência de pontos de rutura no sistema climático, os chamados tipping points, capazes de ativar efeitos em cascata e ciclos de retroalimentação que reforçam ainda mais o aquecimento, prendendo o planeta num novo equilíbrio climático hostil e drasticamente diferente das condições relativamente estáveis que permitiram o desenvolvimento da civilização humana nos últimos 11 mil anos.



Mesmo com um aumento médio global de apenas 1,3 °C nas últimas décadas, os impactos já são visíveis: fenómenos meteorológicos extremos mais frequentes, perda de vidas humanas e destruição de meios de subsistência em várias regiões do mundo. Os cientistas sublinham que, com um aquecimento de 3 °C a 4 °C, “a economia e a sociedade deixarão de funcionar como as conhecemos”, mas avisam que um cenário de “Terra estufa” seria ainda mais devastador.

Apesar do risco, os investigadores consideram que a maioria do público e muitos decisores políticos continuam sem consciência da gravidade da situação. O grupo decidiu emitir o alerta porque, embora cortes rápidos e profundos no consumo de combustíveis fósseis sejam politicamente e economicamente difíceis, a inversão poderá tornar-se impossível assim que o sistema climático ultrapassar determinados limiares.

Christopher Wolf, cientista da Terrestrial Ecosystems Research Associates, explica que a incerteza sobre o momento exato em que estes pontos críticos serão ativados exige uma abordagem preventiva. O investigador avisa que “ultrapassar mesmo alguns destes limiares pode comprometer o planeta com uma trajetória de Terra estufa” e acrescenta que “os decisores políticos e o público permanecem largamente inconscientes dos riscos de uma transição que seria, na prática, um ponto sem retorno”. Wolf salienta ainda que as temperaturas globais já poderão estar “tão quentes ou mais quentes do que em qualquer momento dos últimos 125 mil anos” e que as alterações climáticas estão a avançar mais depressa do que muitos especialistas antecipavam.

Os níveis de dióxido de carbono na atmosfera reforçam essa preocupação, sendo considerados os mais elevados em pelo menos dois milhões de anos.

Também Tim Lenton, especialista em pontos de rutura climáticos da Universidade de Exeter, defende que a trajetória atual comporta “riscos profundos”. O académico admite que não é necessário chegar a um estado de Terra estufa para que as consequências sejam graves, salientando que “já enfrentaremos impactos muito sérios se o aquecimento global atingir os 3 °C”.

A avaliação científica, publicada na revista One Earth, reuniu resultados recentes sobre ciclos de retroalimentação climática e identificou 16 elementos críticos do sistema terrestre suscetíveis de colapso. Entre eles estão as camadas de gelo da Gronelândia e da Antártida, glaciares de montanha, gelo marinho polar, florestas subárticas, o permafrost, a floresta amazónica e a circulação meridional do Atlântico (Amoc), um vasto sistema de correntes oceânicas que regula o clima global.

Segundo os investigadores, alguns destes sistemas poderão já estar a aproximar-se do limiar de destabilização. Há indícios de mudanças em curso na Gronelândia e na Antártida Ocidental, enquanto o permafrost, os glaciares de montanha e a Amazónia parecem estar à beira de transformações irreversíveis. A equipa conclui que “vários componentes do sistema terrestre podem estar mais próximos da desestabilização do que se pensava” e que os compromissos atuais de ação climática são insuficientes.

William Ripple, da Universidade Estatal do Oregon, que liderou a análise, alerta que a circulação do Atlântico já dá sinais de enfraquecimento, o que pode aumentar o risco de colapso da floresta amazónica. Esse processo libertaria grandes quantidades de carbono armazenado, amplificando ainda mais o aquecimento global e reforçando outros mecanismos de retroalimentação. Por isso, defende que é essencial agir rapidamente, sublinhando que as oportunidades para evitar “resultados climáticos perigosos e ingovernáveis” estão a diminuir rapidamente.

Os cientistas recordam que o cenário de “Terra estufa” já tinha sido antecipado em 2018. Nesse quadro, as temperaturas globais poderiam manter-se muito acima de um aumento de 4 °C durante milhares de anos, provocando subidas acentuadas do nível do mar capazes de submergir cidades costeiras e desencadeando impactos “massivos, por vezes abruptos e inevitavelmente disruptivos” para as sociedades humanas.

O consenso é claro: quanto mais tempo o mundo adiar reduções rápidas nas emissões de gases com efeito de estufa, maior será o risco de ultrapassar limiares irreversíveis e perder a capacidade de controlar o futuro climático do planeta.

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