França lança apelo internacional para identificar vítimas de ex-professor acusado de abusar de 89 menores em todo o mundo

As autoridades francesas lançaram um apelo internacional considerado raro para localizar possíveis vítimas e testemunhas no processo contra um antigo professor, de 79 anos, acusado de ter violado e agredido sexualmente 89 menores ao longo de mais de meio século e em vários continentes.

Pedro Gonçalves

As autoridades francesas lançaram um apelo internacional considerado raro para localizar possíveis vítimas e testemunhas no processo contra um antigo professor, de 79 anos, acusado de ter violado e agredido sexualmente 89 menores ao longo de mais de meio século e em vários continentes.

O suspeito, Jacques Leveugle, encontra-se em prisão preventiva em França desde abril de 2025. Segundo a polícia de Grenoble, o caso é descrito como um exemplo “clássico” de predador sexual em série, mas com uma dimensão geográfica invulgar, abrangendo múltiplos países desde a década de 1960 até 2022.



O procurador de Grenoble, Étienne Manteaux, apelou publicamente a quem possa ter sido vítima ou testemunha para contactar as autoridades francesas, explicando que Leveugle trabalhou com crianças em vários contextos educativos e recreativos na Alemanha, Suíça, Marrocos, Níger, Argélia, Filipinas, Índia, Colômbia e no território ultramarino francês da Nova Caledónia.

“Ele viajou por estes diferentes países e, em cada local onde se estabelecia para trabalhar como tutor ou professor, contactava com jovens”, afirmou Manteaux. De acordo com o magistrado, o suspeito apresentava-se como “culto e carismático”, características que lhe permitiam aproximar-se das crianças e ganhar a sua confiança.

Apesar de nunca ter obtido uma qualificação oficial como docente, Leveugle desempenhou funções como educador desde os anos 60. Ao longo das décadas, trabalhou como monitor desportivo em atividades como canyoning e espeleologia, participou em campos de férias juvenis, acompanhou jovens delinquentes na Alemanha, deu explicações particulares e exerceu funções num lar de acolhimento para crianças em Bogotá, na Colômbia.

Investigação nasce de “memórias” digitais
O processo ganhou forma após a descoberta de um conjunto de escritos do próprio suspeito. Investigadores encontraram numa pen USB, entregue às autoridades por um sobrinho, um ficheiro digital que funcionava como uma espécie de “memórias”, onde Leveugle descrevia as suas atividades com menores.

Esses registos, organizados em 15 volumes de texto, permitiram identificar 89 alegadas vítimas — na maioria rapazes com idades entre os 13 e os 17 anos à data dos factos — abrangendo um período entre 1967 e 2022.

Com base nesses elementos, Leveugle foi formalmente constituído arguido em fevereiro de 2024 por violações agravadas e agressões sexuais a menores, mantendo-se detido preventivamente desde abril do ano seguinte.

A Gendarmaria Nacional divulgou também um aviso público online com fotografias do suspeito em diferentes fases da vida e a lista de países onde residiu, na tentativa de alcançar eventuais vítimas que ainda não tenham sido identificadas.

Autoridades querem fechar inquérito em 2026
As autoridades francesas sublinham a urgência do apelo. “Se houver vítimas que queiram apresentar-se, devem fazê-lo agora, porque precisamos de encerrar esta investigação em 2026 para que o julgamento possa ocorrer dentro de um prazo razoável”, declarou Manteaux.

O procurador reconhece que a dispersão geográfica do caso e o longo intervalo temporal dificultam a recolha de provas, tornando essencial a colaboração internacional.

Confissões sobre duas mortes
Durante os interrogatórios, Leveugle terá ainda feito declarações relativas a duas mortes no seio familiar. Segundo o Ministério Público, o suspeito afirmou ter sufocado a mãe, doente oncológica em fase terminal, com uma almofada nos anos 70. Mais tarde, na década de 1990, disse ter feito o mesmo a uma tia de 92 anos.

Manteaux explicou que, após uma visita, o arguido relatou querer regressar a casa enquanto a tia lhe pedia para ficar. “Decidiu matá-la também, por isso, enquanto ela dormia, pegou numa almofada e sufocou-a”, descreveu o procurador.

Nos seus escritos pessoais, Leveugle terá mencionado que tinha “matado duas pessoas”, justificando os atos com a ideia de que gostaria que alguém fizesse o mesmo por si caso se encontrasse numa situação de fim de vida.

Paralelo com outro caso histórico em França
Os investigadores notam semelhanças com o caso do antigo cirurgião francês Joël Le Scouarnec, condenado no ano passado a 20 anos de prisão por abusos sexuais sobre centenas de pacientes, maioritariamente menores de 15 anos, num dos maiores julgamentos por crimes contra crianças na história do país. Tal como Leveugle, também Le Scouarnec mantinha registos detalhados no computador.

Associações de vítimas e defensores dos direitos das crianças consideraram, na altura, que esse processo expôs falhas sistémicas que permitiram a repetição de crimes durante anos sem deteção.

Agora, as autoridades francesas esperam que o apelo internacional permita identificar mais vítimas, completar o inquérito e levar o ex-educador a julgamento, num caso que atravessa gerações e fronteiras.

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.