Explicador. Mais armas, menos soldados: o dilema da Defesa em Portugal

Mudança no panorama de segurança europeu, marcada pela guerra na Ucrânia, pelas ações híbridas da Rússia e pela crescente imprevisibilidade dos Estados Unidos enquanto aliado, obrigou os países europeus a reverem prioridades

Francisco Laranjeira

Portugal prepara-se para investir milhares de milhões de euros em Defesa na próxima década, pressionado por uma NATO em processo acelerado de rearmamento e por um contexto internacional cada vez mais instável. No entanto, apesar do reforço financeiro, subsistem dúvidas sérias sobre a capacidade operacional das Forças Armadas, devido à escassez de efetivos.

A mudança no panorama de segurança europeu, marcada pela guerra na Ucrânia, pelas ações híbridas da Rússia e pela crescente imprevisibilidade dos Estados Unidos enquanto aliado, obrigou os países europeus a reverem prioridades. Na cimeira da NATO realizada em Haia, em junho do ano passado, Portugal comprometeu-se a gastar 3,5% do PIB em despesas militares tradicionais — equipamento e treino — ao longo dos próximos dez anos.

Um esforço financeiro sem precedentes

Ao investimento direto, frisou a ‘Euronews’, junta-se ainda 1,5% do PIB em infraestruturas e projetos de dupla utilização, elevando o esforço global para os 5% do PIB em Defesa, em linha com as exigências da Aliança Atlântica. Para atingir esta meta, estima-se que a despesa militar portuguesa tenha de crescer, em média, 450 milhões de euros por ano durante uma década.

O problema é que o aumento do orçamento não acompanha a evolução dos recursos humanos. Em meio século de democracia, o número de militares em Portugal caiu cerca de 90%. Em 1974, no contexto da Guerra Colonial, existiam cerca de 243 mil militares. Hoje, os números são drasticamente inferiores.

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Forças Armadas abaixo do mínimo operacional

Com o fim da Guerra Fria e, mais tarde, da conscrição obrigatória em 2004, os efetivos diminuíram progressivamente. Segundo dados da Direção-Geral da Administração e do Emprego Público (DGAEP), as Forças Armadas contavam com apenas 23.589 militares em setembro de 2025.

Este número fica muito aquém do mínimo legal de 32 mil militares, definido por decreto-lei como necessário para garantir a capacidade operacional. Faltam mais de 8 mil efetivos para cumprir esse patamar.

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O Chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas (CEMGFA), general José Nunes da Fonseca, reconheceu que o objetivo realista passa por atingir entre 35 e 36 mil militares, tendo em conta as novas capacidades tecnológicas em desenvolvimento. “Não podemos adquirir equipamentos e depois não ter pessoas para os operar”, alertou.

Recrutamento melhora, retenção continua difícil

Em 2024, registou-se uma inversão da tendência de queda no número de efetivos, impulsionada por um aumento significativo das candidaturas — mais 33,8% face ao ano anterior. Ainda assim, as saídas continuam elevadas, o que resultou num crescimento líquido residual de apenas 68 militares.

O Governo atribui a melhoria no recrutamento à valorização da carreira militar, com aumentos salariais e suplementos aprovados em 2024. O salário médio líquido subiu 19%, passando para cerca de 1.802 euros mensais. Apesar disso, os vencimentos iniciais continuam pouco competitivos face ao mercado civil, especialmente para perfis técnicos.

Compromissos externos pressionam os efetivos

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Portugal mantém atualmente mais de 1.100 militares destacados em missões internacionais, no âmbito da NATO, da União Europeia e das Nações Unidas. A presença portuguesa é particularmente significativa no flanco leste da Aliança, com contingentes na Roménia, Lituânia e Eslováquia, esta última com 120 militares equipados com carros de combate e viaturas blindadas.

Desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 2022, estes compromissos externos têm aumentado, pressionando ainda mais um contingente já reduzido.

Serviço militar obrigatório volta ao debate

O atual contexto de segurança trouxe novamente para a agenda política o debate sobre a reintrodução do serviço militar obrigatório. O Governo mantém, para já, a aposta num modelo profissional e voluntário, embora admita que outros sistemas possam ser estudados caso o cenário geopolítico se agrave.

Vários países europeus já avançaram nesse sentido. A Suécia reintroduziu a conscrição em 2017, a Alemanha criou um sistema de registo obrigatório para jovens e a França, Bélgica e Polónia estão a reforçar programas de mobilização militar. Atualmente, dez países da União Europeia mantêm o serviço militar obrigatório.

Para Portugal, a questão central permanece: como transformar um aumento histórico de investimento em Defesa numa capacidade militar efetiva, sem resolver o défice estrutural de recursos humanos.

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