A Polícia Judiciária desmantelou a cúpula do Grupo 1143, uma organização de extrema-direita liderada por Mário Machado, que tinha como objetivo constituir uma milícia armada para responder a uma alegada ameaça islâmica e desencadear uma “guerra contra o sistema”. A megaoperação resultou na detenção de 37 pessoas, com idades entre os 30 e os 54 anos, incluindo três militantes do Chega, um agente da PSP e um militar, tendo ainda sido constituídas 15 pessoas arguidas por crimes como discriminação, incitamento ao ódio e à violência, ameaça agravada, ofensas à integridade física qualificada e detenção de arma proibida.
De acordo com o Jornal de Notícias, a investigação revelou que Mário Machado continuava a liderar o grupo a partir da cadeia de Alcoentre, emitindo ordens através de intermediários e comunicações telefónicas intercetadas, nas quais definia atividades, orientações operacionais e comportamentos a adotar em manifestações públicas.
O Grupo 1143, fundado em 2001 no seio da claque Juventude Leonina, visava promover a discriminação racial e a violência contra minorias, recorrendo às redes sociais para recrutar membros, divulgar propaganda extremista e organizar protestos. Após um período de inatividade desde 2004, na sequência de detenções anteriores, a estrutura foi reativada em Outubro de 2023 por Mário Machado e três dirigentes, os chamados “quatro mosqueteiros”, que montaram uma organização hierarquizada com pelo menos 16 núcleos locais e uma loja de merchandising destinada a financiar o grupo através de vendas e donativos.
Segundo a Polícia Judiciária, a radicalização intensificou-se em 2025, quando o grupo realizou um “treino de combate” em Palmela com armas de airsoft e produziu vídeos promocionais com elementos encapuzados, escudos antimotim e encenações de cariz militar. Em escutas telefónicas, dirigentes afirmavam que “o 1143 tem que se tornar uma milícia” e que era necessário preparar os militantes para um cenário de violência racial em Portugal, à semelhança de confrontos ocorridos em Espanha.
Apesar de não ter sido identificado um plano concreto para ataques iminentes, o director nacional da PJ justificou a operação com a necessidade de intervenção preventiva. “Atuámos de forma preventiva porque não queremos voltar a ter gente inválida, com casas incendiadas ou morta”, afirmou Luís Neves, sublinhando que membros desta estrutura já estiveram envolvidos, no passado, em homicídios e agressões com consequências gravíssimas.
As 65 buscas realizadas no âmbito da operação permitiram apreender armas de fogo, armas ilegais e abundante material de propaganda neonazi. A cela de Mário Machado foi alvo de buscas, tendo sido recolhidos “elementos relevantes para a investigação”, enquanto a presença de militantes do Chega entre os detidos reforça, segundo os investigadores, a estratégia do grupo de instrumentalizar partidos políticos como forma de penetração institucional.
Grupo planeava ataque contra comunidade islâmica
O grupo extremista de inspiração neonazi liderado por Mário Machado, estava a preparar um ataque concertado contra a comunidade islâmica em Portugal, com início previsto para fevereiro, apesar de o dirigente se encontrar preso na cadeia de Alcoentre. A Polícia Judiciária travou o plano através da denominada “Operação Irmandade”, que culminou, esta quarta-feira, na detenção de 37 suspeitos ligados ao movimento 1143, incluindo um agente da PSP afeto ao Comando de Setúbal e um militar da Força Aérea, acusados de integrar a estrutura operacional do grupo.
Segundo o Correio da Manhã, a investigação apurou que Mário Machado continuava a dar ordens a partir da prisão, articulando-se com Gil Costa, conhecido como Gil “Pantera”, apontado como número dois do grupo e ligado à claque do Boavista. As autoridades acreditam que o ataque pretendia provocar revolta social através da disseminação de desinformação, associando o profeta Maomé a crimes graves, para depois o grupo se apresentar como uma alegada “milícia popular” destinada a expulsar imigrantes islâmicos residentes em bairros mais pobres.
As escutas telefónicas recolhidas pela PJ confirmaram que Machado mantinha controlo direto sobre o grupo, definindo funções, estratégias e o calendário da ação violenta, mesmo em reclusão. A operação policial foi desencadeada antes da data prevista para o ataque e num período politicamente sensível, entre as duas voltas das eleições presidenciais, numa intervenção preventiva destinada a travar a escalada do extremismo violento associado à imigração.
Os 37 detidos deverão ser presentes a tribunal para identificação, sendo expectável que os interrogatórios se iniciem na quinta-feira. A maioria está indiciada por crimes de incitamento ao ódio e à discriminação racial, havendo ainda suspeitas de ofensas à integridade física agravadas e de roubo qualificado. Gil “Pantera” encontra-se entre os principais detidos, tal como outros elementos ligados a claques de futebol, incluindo indivíduos associados aos Super Dragões e à Juve Leo, grupo de onde o movimento 1143 teve origem há mais de duas décadas.
A investigação descreve um histórico de violência desde 2024, com ameaças, propaganda de ódio online e agressões físicas. Um dos episódios mais graves ocorreu a 5 de outubro do ano passado, numa área de serviço da A1, em Aveiras, onde sete suspeitos cercaram dois homens de nacionalidade indiana, insultando-os com frases como “tens papéis?” e “vai embora para o teu país”, antes de uma violenta agressão que incluiu murros, pontapés, uma cabeçada, o uso de uma cadeira como arma e o roubo de um telemóvel avaliado em 385 euros.














